Crítica do filme Casa de Dinamite, da Netflix (2025) - Flixlândia

‘Casa de Dinamite’: Kathryn Bigelow mergulha no absurdo sóbrio da aniquilação global

Foto: Divulgação / Netflix
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Quase uma década após seu último longa-metragem, a aclamada diretora Kathryn Bigelow – a primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção por Guerra ao Terror – retorna com uma força implacável em Casa de Dinamite, uma produção da Netflix.

Conhecida por transformar zonas de guerra e crises históricas em thrillers de precisão cirúrgica (A Hora Mais Escura), Bigelow agora se volta para a ficção, mas com o peso de um alerta: “Não se for. Quando.” Este não é um filme sobre a causa da guerra nuclear, mas sobre sua implacável e caótica inevitabilidade.

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Sinopse

Longe de ser uma narrativa linear, o roteiro de Noah Oppenheim (ex-presidente da NBC News) adota uma arriscada estrutura em três atos (tríptico), na qual a linha do tempo retrocede a cada final para revisitar o mesmo período de crise sob diferentes perspectivas.

Somos lançados no meio de uma cacofonia burocrática nos centros de comando: da capitã Olivia Walker (Rebecca Ferguson), a “maestro” da Sala de Situação; ao General Baker (Tracy Letts), o militar belicista que clama por retaliação imediata; até o Presidente dos EUA (Idris Elba), que só aparece uma hora após o início da crise, retirado de uma demonstração de basquete com adolescentes.

O drama se estende a especialistas em bases militares tentando interceptar o míssil, a tradutores em encenações da Guerra Civil e a secretários de defesa com filhas na cidade ameaçada. A tensão é constante, mas o foco não está na explosão, e sim no processo — nas falhas de comunicação, nos protocolos e, principalmente, no colapso humano sob o peso de uma decisão apocalíptica.

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Crítica

A volta de Bigelow ao cenário cinematográfico com Casa de Dinamite é um retorno à forma que reafirma sua maestria em criar suspense visceral, mesmo em ambientes estéreis e repletos de telas. O filme é uma experiência eletrizante, assustadora e educacional, nos forçando a encarar o terror existencial da destruição mútua assegurada (MAD), mas de uma maneira inusitada: o foco no back-office da aniquilação.

A decisão de Oppenheim de dividir o filme em três atos que revisitam o mesmo lapso temporal é o coração e o principal algoz da obra. Por um lado, essa repetição permite que Bigelow explore a crise de múltiplos ângulos, preenchendo as lacunas das chamadas de vídeo e das ordens dadas.

A cada reinício, a diretora tem o desafio de reconstruir a força gravitacional que nos prende à cadeira. Ela, milagrosamente, se mostra à altura, reafirmando sua capacidade de pintar uma atmosfera onde cada movimento possui “megatons de potência”, mesmo que nenhuma bala seja disparada.

Por outro lado, essa estrutura resulta em anticlímax após anticlímax. O filme nos leva repetidamente ao apogeu da tensão, apenas para dissolver essa energia com o regresso cronológico. Por um lado, o artifício pode ser uma jogada brilhante que imita a futilidade da crise nuclear; por outro, é uma frustração que impede o desenvolvimento natural da narrativa e do investimento emocional nos personagens, subutilizando inclusive alguns talentos como Greta Lee.

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Foco na burocracia contra o melodrama humano

O filme é mais um estudo do sistema e do protocolo do que de personagens individuais, distinguindo-se de trabalhos anteriores de Bigelow como Guerra ao Terror. Se há um protagonista, é a inabalável Capitã Walker (Rebecca Ferguson, em uma atuação de foco implacável). O roteiro, repleto de jargões técnicos e acrônimos que assumimos serem autênticos, funciona melhor ao mostrar o caos lógico de Defcon 1 do que ao tentar nos envolver emocionalmente.

No entanto, o texto pende perigosamente para o melodrama barato quando tenta humanizar a crise com subtramas pessoais, como um Secretário de Defesa (Jared Harris, com o maior impacto no ato final) encarando a morte iminente da filha em Chicago, ou agentes citando a gravidez da esposa em ligações cruciais.

É difícil levar a sério tais dilemas quando a morte de milhões se aproxima. Embora esses sejam campos férteis para o drama, em Casa de Dinamite parecem jogadas um tanto quanto forçadas, dignas de um drama policial televisivo, para gerar investimento emocional.

Cena do filme Casa de Dinamite, da Netflix (2025) - Flixlândia (1)
Foto: Divulgação / Netflix

Presidente idealizado de Hollywood

A escalação de Idris Elba como o Presidente dos EUA é um ponto chave. Sua aparição tardia e o carisma que “salva completamente o papel” trazem uma sensação de fantasia hollywoodiana. Seu personagem, um líder razoável e capaz de remorso, parece um resquício da era Obama.

O fato de estar ausente nas chamadas iniciais por estar jogando basquete com uma equipe feminina — o que, ironicamente, o chefe de segurança comenta ser o “menos pior” de seus presidentes cronicamente atrasados — adiciona uma camada de humanidade.

No entanto, em 2025, a imagem de um comandante-em-chefe honrado e racional parece perigosamente desatualizada, tornando a representação um “melhor cenário” distante da realidade política atual.

A maior força do filme é a sua ausência de espetáculo. Bigelow, sabiamente, não se entrega à violência visual, sabendo que a antecipação do inevitável é muito mais aterrorizante do que qualquer destruição que ela possa apresentar. A agonia está nos rostos tensos, no suor e nos closes desconfortáveis, não nas explosões.

Conclusão

Casa de Dinamite é uma experiência de adrenalina pura, que nos deixa “sacudidos e procurando pelo bunker mais próximo”. Bigelow e Oppenheim conseguem render a série de hipotéticas em uma realidade narrativa mercenária e precisa.

No entanto, ao se restringir quase que exclusivamente aos processos e dinâmicas de um grupo seleto de pessoas no momento da crise, o filme se torna autocontido. Ele não explora as causas, as consequências políticas duradouras ou o mundo fora da Sala de Situação.

O não-final frustrante, que busca ir na contramão das expectativas, resume a obra a um grande lamento: estamos tragicamente despreparados para um cenário como este. É uma conclusão sombria e não exatamente inédita, mas que, entregue com a habilidade e intensidade de Kathryn Bigelow, se torna um conto de advertência brilhantemente divertido e necessário. É um grande resfriamento que prova que a diretora está de volta, lidando com temas que testam a capacidade de raciocínio e a forma narrativa como nenhum outro.

Onde assistir Casa de Dinamite (2025)?

O filme “Casa de Dinamite” está disponível para assistir na Netflix.

Veja o trailer do filme Casa de Dinamite

YouTube player

Quem está no elenco de Casa de Dinamite, da Netflix?

  • Idris Elba
  • Rebecca Ferguson
  • Gabriel Basso
  • Jason Clarke
  • Greta Lee
  • Jared Harris
  • Tracy Letts
  • Anthony Ramos
  • Moses Ingram
  • Jonah Hauer-King
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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