Mais de uma década depois de nos apresentar a uma das jornadas mais doces e genuínas do cinema brasileiro, o diretor Marcelo Galvão retorna ao universo que consagrou sua comédia em 2012. Colegas e o Herdeiro (2026) chega aos cinemas não apenas com o peso de suceder um clássico multipremiado, mas com a nobre e declarada missão de provar que a inclusão na sétima arte não pode ser tratada como um golpe de sorte isolado.
Expandindo o escopo do filme original, a produção reúne um elenco neurodivergente ainda mais diversificado, englobando atores com síndrome de Down, autismo e síndrome de Williams. O longa se inicia com uma homenagem tocante e criativa a Marçal Souza, produtor-executivo do longa e deficiente visual falecido pouco antes do início das filmagens. A tela escura que abre o filme, guiada por sua narração, estabelece de imediato a tese da obra: as limitações físicas ou intelectuais não definem quem somos, nem onde podemos chegar.
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Sinopse
Após a morte do Almirante Queiroz, antigo proprietário de um hotel em Punta del Este, no Uruguai, o carismático Stallone (Ariel Goldenberg) e sua esposa Aninha (Rita Pokk) acreditam piamente ser os legítimos herdeiros do local. Confiante de sua nova posse, Stallone envia uma carta convidando seus velhos amigos do Instituto Santa Lúcia para passar uma temporada de férias no luxuoso hotel.
Do outro lado da fronteira, no Brasil, a trupe formada por Duda (João Vitor de Paiva), Fernanda (Rafaela Fontanetti), Letícia (Luiza Godoi) e Igor (Gabriel Deliberali Lazzari) decide aproveitar o convite e foge do instituto. A bordo de um avião de carga pilotado pelo avoado Márcio (Breno Viola), que trabalha em um aeroclube local, os jovens decolam rumo ao Uruguai. O que deveria ser apenas um reencontro de amigos e uma temporada de descanso, contudo, se transforma em uma baita enrascada quando eles cruzam o caminho de contrabandistas de pedras preciosas e precisam lidar com Magrelo (Henrique Fernandes), um jovem autista que foi criado como filho pelo antigo dono e reivindica a verdadeira herança do hotel.
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Crítica do filme Colegas e o Herdeiro
Representatividade genuína
O grande trunfo de Colegas e o Herdeiro reside exatamente na naturalidade com que trata seus personagens. Longe de estereótipos capacitistas ou de uma condescendência paternalista, o filme acompanha jovens livres que vivem suas individualidades de forma plena. Eles sentem medo, vestem roupas bonitas, dançam em baladas e experimentam os prazeres e as dores do romance juvenil.
A dinâmica do novo núcleo de amigos é simplesmente contagiante. É impossível não rir com a marra de valentão de Igor, que tenta se comunicar com os vilões em um “portunhol” hilário, mas morre de medo de borboletas. A espontaneidade de Letícia contrasta perfeitamente com as inseguranças de Márcio e os medos reais enfrentados por Fernanda, que lida com o pavor do escuro herdado da perda da mãe. O carisma desses atores é a força motriz do filme; fica evidente na tela que eles se divertiram muito gravando, e essa energia passa para o espectador de forma leve e acolhedora.

Estética de Wes Anderson no Pampa
Do ponto de vista estético, Marcelo Galvão tomou uma decisão ousada e plasticamente belíssima. Ao se deparar com um orçamento inferior ao do primeiro longa, o cineasta adotou uma linguagem fortemente inspirada no estilo do aclamado diretor Wes Anderson. Isso se traduz em planos extremamente simétricos, lentes abertas, enquadramentos rigorosos e poucos movimentos de câmera, capturando a paisagem do pampa gaúcho e as praias de Punta del Este com uma atmosfera lúdica e de livro de contos de fadas.
Para estruturar esse tom de fábula, há também a presença de uma voz de narrador que conduz os espectadores pelas descobertas de cada um dos personagens. O problema é que, ao contrário do clássico primeiro longa que contava com a icônica narração de Lima Duarte, aqui a condução sonora às vezes pesa a mão no didatismo. Em vários momentos, o storytelling se torna excessivamente explicativo, narrando sentimentos e ações que o público já é perfeitamente capaz de compreender apenas observando as atuações expressivas do elenco.
Roteiro em descompasso com o brilho dos atores
Apesar do inegável valor social e estético, Colegas e o Herdeiro tropeça consideravelmente na sua amarração dramática. O filme tenta abraçar o mundo em apenas 85 minutos de duração, o que resulta em uma colcha de retalhos narrativa com sérios problemas de ritmo. Há duas tramas centrais que parecem brigar por espaço e dificilmente se comunicam de forma fluida: a road trip do grupo de amigos fugindo no avião de carga e a disputa judicial/emocional pela herança do hotel uruguaio.
O núcleo do hotel, protagonizado pelo ótimo Henrique Fernandes como Magrelo, é um dos pontos que mais sofre com essa divisão. A rivalidade entre ele e Stallone pelo hotel, que é de longe a proposta de conflito mais interessante, acaba ficando em segundo plano. O roteiro, por sua vez, resolve seus conflitos com extrema rapidez e conveniência, diminuindo o peso emocional que a jornada de amadurecimento dos personagens merecia ter. Além disso, a continuação adota caminhos questionáveis ao “vilanizar” levemente Stallone e Aninha na primeira metade e ao tratar de forma um tanto descuidada certas tramas paralelas românticas, as quais são resolvidas de maneira abrupta e sem o cuidado textual que o roteirista demonstrou no clássico de 2012.
Filme Colegas 2 é bom?
No final das contas, Colegas e o Herdeiro é uma comédia familiar que atinge seu objetivo primordial: entreter com afeto e arrancar sorrisos sinceros. Embora as arestas de seu roteiro truncado fiquem visíveis e impeçam o longa de alcançar o mesmo impacto dramático e de crítica que seu predecessor de 2012, o valor do projeto ultrapassa qualquer avaliação fria de sua estrutura cinematográfica.
Ao colocar mais de 70 pessoas com deficiência no set, o diretor Marcelo Galvão não está apenas fazendo cinema; ele está quebrando barreiras sistemáticas de uma indústria que ainda insiste em fechar portas para a neurodivergência. O carisma avassalador do novo elenco e a belíssima estética visual do longa fazem da sessão um passeio agradável e uma excelente oportunidade para famílias conversarem sobre inclusão com leveza. Como o próprio diretor costuma pontuar, o que falta a esses jovens não é talento, mas sim oportunidade. E isso, felizmente, Colegas e o Herdeiro entrega de sobra.
Trailer do filme Colegas e o Herdeiro
Elenco de Colegas e o Herdeiro (2026)
- Ariel Goldenberg (como Stallone)
- Breno Viola (como Márcio)
- Rita Pokk (como Aninha)
- João Vitor de Paiva Bittencourt (como Duda)
- Rafaela Fontanetti (como Fernanda)
- Luiza Godoi (como Letícia)
- Gabriel Deliberali Lazzari (como Igor)
- Henrique Fernandes (como Magrelo)
- Amélia Bittencourt (In memoriam)
- Deto Montenegro
- Thogun Teixeira
- Fafy Siqueira
Ficha técnica
- Título Original: Colegas e o Herdeiro
- Ano de Lançamento: 2026
- Duração: 85 minutos
- País de Origem: Brasil
- Classificação Indicativa: 12 anos
- Gênero: Comédia Familiar, Road Movie
- Direção: Marcelo Galvão
- Roteiro: Marcelo Galvão
- Produção: Rafael Yoshida e Marcelo Galvão
- Coprodução: Globo Filmes
- Distribuição: H2O Films
- Direção de Fotografia: Rodrigo Tavares (AIP) e Eduardo Makino
- Direção de Arte: Zenor Ribas
- Música Original: Ed Côrtes
- Desenho de Som e Mixagem: Pedro Lima
- Montagem: Marcelo Galvão
- Produção Executiva: Marçal Souza e Rafael Yoshida















