Como Água Para Chocolate temporada 2 episódio 6 crítica do final da série - Flixlândia

Entre fósforos e cinzas: o fim ardente (e problemático) de ‘Como Água Para Chocolate’

Foto: Divulgação / HBO Max
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Chegamos ao fim da jornada. O último episódio da segunda temporada de Como Água Para Chocolate, da HBO Max, finalmente foi ao ar, trazendo o desfecho da turbulenta e sofrida história de amor entre Tita e Pedro. Depois de duas temporadas acumulando frustrações, tensões e dramas familiares, a série tinha a difícil missão de amarrar todas as pontas soltas e entregar um final satisfatório.

E olha, eles entregaram um encerramento visualmente poético e fiel à essência do realismo mágico, mas que não escapou de decisões criativas um tanto questionáveis e momentos de pura vergonha alheia. Vamos destrinchar o que funcionou e o que desandou nessa receita.

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Sinopse

O episódio começa com Tita vestida de noiva, a um passo de se casar com o gentil Dr. John Brown. Guiada pelo espírito de Nacha, ela percebe que não consegue seguir em frente e abandona o médico no altar. John, provando ser o cara mais maduro da série, aceita a situação e dá a ela um último presente: uma caixinha de fósforos de prata, com um aviso sobre o perigo de acender todos de uma vez.

O caos se instaura e Rosaura tenta impedir que Tita e Pedro fiquem juntos. É então que Tita toma a decisão mais importante da sua vida: ela faz um acordo com a irmã, aceitando ir embora do rancho e se afastar de Pedro, contanto que Rosaura quebre a tradição e deixe a pequena Esperanza ser livre para viver sua vida.

Vinte anos se passam. Rosaura morre consumida pela própria amargura e Gertrudis chora a morte de seu marido, Juan Alejandrez, que caiu em batalha. Finalmente, no dia do casamento de Esperanza com Alex (o filho do Dr. Brown), Tita e Pedro se reencontram sem amarras.

Eles vão para a antiga cabana de Tita, se entregam à paixão e, num êxtase literal e mágico, os fósforos internos de ambos se acendem de uma vez, provocando um incêndio que consome os dois. Das cinzas, apenas o livro de receitas de Tita sobrevive, encontrado por Esperanza, revelando que a voz feminina da família resistiu ao tempo.

Crítica do episódio 6, final da temporada 2 de Como Água Para Chocolate

Um herói romântico ou só um cara encostado?

Vamos ser sinceros: se tem algo que esse final deixou claro, é que o Pedro passou a série inteira sendo um belo de um covarde. Tita jogou para o alto a chance de ter um casamento tranquilo com o Dr. Brown — um homem que realmente a escolheu e a amava de forma saudável — para ficar suspirando por um cara que tomou a péssima decisão de casar com a irmã dela lá no começo da história.

Quando Rosaura joga na cara dele que tudo isso foi culpa da sua própria falta de atitude na juventude, a gente quase tem vontade de aplaudir. Pedro passa duas temporadas culpando o mundo pelo seu sofrimento, como se não fosse o grande arquiteto da própria tragédia. Pelo menos a série deu a Tita um pingo de dignidade ao fazê-la escolher a própria liberdade e a da sobrinha, partindo do rancho e deixando o “tibio” do Pedro para trás por vinte anos.

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O fogo, a festa e os delírios do realismo mágico

A mudança no destino final dos protagonistas foi, de longe, o maior acerto da adaptação. Diferente do livro e do filme de 1992, onde Pedro morre de susto no meio do ato sexual e Tita engole fósforos para se suicidar, a série optou por uma morte mútua e extasiante. O incêndio acidental gerado pela combustão da paixão reprimida por décadas funcionou perfeitamente como metáfora. O fogo purificou o passado de dor.

Por outro lado, o realismo mágico da festa de casamento da Esperanza passou um pouco do ponto. Para mostrar que a tradição opressora de Mamá Elena e Rosaura havia morrido, a cena mostra os convidados consumidos pelos sentimentos da comida de Tita, tirando as roupas e ficando uns com os outros. A intenção era mostrar liberdade, mas a execução pareceu libertinagem gratuita e gerou um momento bem desconfortável de se assistir.

O tempo é cruel (mas só para quem a maquiagem permite)

Outro detalhe que tira a gente da imersão é a caracterização dos personagens após o salto temporal de vinte anos. A produção pesou a mão de um jeito bizarro: Tita e Pedro envelheceram décadas e pareciam exaustos pelo peso de não estarem juntos, o que até faz sentido poeticamente, mas visualmente ficou exagerado.

Em compensação, Gertrudis reaparece jovial como se tivesse bebido da fonte da juventude, e o penteado escolhido para a Esperanza no casamento não a valorizou em nada. São detalhes técnicos que quebram o clima de uma superprodução.

O verdadeiro legado não vira cinzas

Apesar dos deslizes, o simbolismo construído em torno da caixa de fósforos do Dr. Brown foi brilhante. A ideia de que todos nascemos com uma caixa interna de fósforos e precisamos de oxigênio (amor/paixão) para acendê-la permeou a jornada de Tita. Quando ela e Pedro finalmente se libertam, eles acendem todos os fósforos de uma vez, sendo consumidos pela própria intensidade.

Mas o grande triunfo da história não é o romance tóxico em si, e sim a sobrevivência do livro de receitas. Enquanto o corpo físico desaparece, a sabedoria e a resistência das mulheres da família De La Garza continuam vivas nas mãos de Esperanza, garantindo que o ciclo de abuso materno termine ali.

Conclusão

O final de Como Água Para Chocolate é amargo e doce na mesma medida, exatamente como as receitas de Tita. A série entregou um desfecho um pouco corrido e não poupou o espectador de sentir raiva pelas escolhas da protagonista, que sacrificou a chance de um amor sereno por uma dependência emocional disfarçada de romance épico.

Ainda assim, a quebra das correntes geracionais e a mensagem de que a tradição tóxica precisava virar cinzas para que uma nova vida nascesse fechou a história com chave de ouro. Com acertos metafóricos belíssimos e alguns tropeços técnicos de roteiro e maquiagem, a produção se despede honrando a obra original e nos lembrando que um amor pela metade simplesmente não serve.

Elenco da segunda temporada de Como Água Para Chocolate

  • Irene Azuela
  • Azul Guaita
  • Ana Valeria Becerril
  • Andrea Chaparro
  • Andres Baida
  • Ángeles Cruz
  • Mauricio García Lozano
  • Ari Brickman
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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