O cineasta Asghar Farhadi construiu sua reputação entregando dramas familiares complexos e moralmente ambíguos que o consagraram no cinema mundial. Por isso, as expectativas para Contos Paralelos (Histoires parallèles, 2026) eram altíssimas, especialmente com sua passagem pela disputa principal do Festival de Cannes e pela programação do Festival do Rio.
No entanto, o resultado final prova que até os grandes mestres podem tropeçar em suas próprias ambições.
Apesar de contar com uma premissa fascinante e um elenco estelar liderado pela sempre magnética Isabelle Huppert, o longa sofre com uma execução morna. A tentativa de misturar a arte da escrita com o voyeurismo acaba criando um labirinto narrativo que, em vez de prender o espectador, soa arrastado e excessivamente confuso.
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Sinopse
A trama acompanha Sylvie (Isabelle Huppert), uma consagrada escritora parisiense que atravessa uma severa crise criativa. Desesperada por inspiração para o seu novo romance, ela passa a usar um telescópio para espionar os moradores do prédio em frente, bisbilhotando a intimidade de figuras interpretadas por Vincent Cassel, Virginie Efira e Pierre Niney.
Para organizar sua rotina e auxiliar no processo do livro, Sylvie contrata Adam (Adam Bessa), um jovem misterioso que entra em sua vida de forma repentina. A chegada do rapaz atua como um catalisador perigoso: as linhas que separam a ficção que Sylvie escreve no papel e a interferência real na vida de seus vizinhos começam a desmoronar, desencadeando consequências imprevisíveis para todos os envolvidos.
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Ambição narrativa e confusão do roteiro
A ideia de investigar os limites da ética não é nova, e a própria estrutura da trama bebe assumidamente da fonte do célebre episódio Decálogo 6, do mestre polonês Krzysztof Kieślowski.
O problema de Contos Paralelos não é a falta de boas referências, mas a maneira como o roteiro decide amarrá-las.
O primeiro ato funciona bem ao estabelecer o clima de espionagem urbana e a paranoia de Sylvie. Porém, à medida que a história avança para o segundo e terceiro atos, a trama patina. A fusão entre o que é realidade e o que é invenção literária da protagonista se embaralha, deixando o público à deriva. Em vez de um clímax tenso e recompensador, o desfecho soa previsível e entrega um incômodo gosto de inacabado.
O que prometia ser um suspense psicológico instigante acaba se revelando uma obra entediante e bastante convencional.

Atuações que salvam do desastre absoluto
Se o roteiro se perde nas próprias pernas, o mesmo não se pode dizer do elenco. Isabelle Huppert e Adam Bessa são as verdadeiras âncoras da produção.
Huppert, com sua frieza calculada característica, consegue dar peso a uma personagem que poderia facilmente cair na caricatura da artista atormentada. Ela sustenta a tensão dramática quase que exclusivamente pelo olhar por trás da lente do telescópio.
Já Adam Bessa é a grande força imprevisível da história. A dinâmica entre seu personagem e a protagonista injeta a pouca energia vital que o filme tem. O núcleo de vizinhos — Cassel, Efira e Niney — também entrega um trabalho competente, embora sejam subaproveitados por um texto que não sabe muito bem o que fazer com eles no ato final.

Vale a pena assistir ao filme Contos Paralelos?
Para quem busca um suspense ágil e instigante, a resposta é não. Contos Paralelos é uma obra que exige muita paciência e oferece pouca recompensa no encerramento. No entanto, se você é um admirador incondicional do trabalho de Isabelle Huppert ou quer acompanhar as novidades dos festivais de cinema, o filme ainda serve como um exercício interessante de atuação. É uma escorregada na carreira brilhante de Asghar Farhadi, mas que, graças ao talento de seu elenco, consegue evitar o rótulo de perda de tempo total.
Contos Paralelos no Festival do Rio 2026
Um dos títulos de maior apelo autoral do circuito internacional desembarca no Festival do Rio 2026 com status de evento imperdível. A passagem de Contos Paralelos pela capital fluminense e região metropolitana é marcada pela presença ilustre do próprio diretor, o iraniano Asghar Farhadi, que acompanha de perto as primeiras exibições do longa em solo brasileiro e participa de encontros diretos com cinéfilos e realizadores locais.
A programação especial teve início no tradicional Cine Odeon — Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, na Cinelândia, palco da sessão de gala com tapete vermelho e debate com Farhadi. O cineasta também marcou presença no Armazém Utopia, na Zona Portuária, em uma concorrida aula aberta gratuita sobre processo criativo e direção de atores, além de cruzar a baía para prestigiar o público no Reserva Cultural Niterói.
Para quem perdeu as primeiras datas, o festival oferece novas oportunidades de conferir o filme na tela grande: a obra passa pelo circuito da Zona Sul com exibições no Kinoplex São Luiz e no Estação Claro Gávea, permitindo que o público tire suas próprias conclusões sobre a nova e divisiva empreitada do realizador.
Programação no Festival do Rio 2026
Os ingressos podem ser adquiridos no portal oficial do evento: Festival do Rio – Histoires Parallèles
| Data | Horário | Evento / Sessão | Local | Observações |
| 02/10 (Sexta-feira) | 19h00 | Sessão de Gala | Cine Odeon — Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro | Presença do diretor Asghar Farhadi |
| 03/10 (Sábado) | 11h00 | Aula Aberta com Asghar Farhadi | Armazém Utopia | Gratuito (distribuição 1h antes; sujeito à lotação) |
| 03/10 (Sábado) | 18h30 | 2ª Sessão | Reserva Cultural Niterói 1 | Presença do diretor Asghar Farhadi |
| 04/10 (Domingo) | 21h45 | 3ª Sessão | Kinoplex São Luiz 2 | Exibição regular |
| 06/10 (Terça-feira) | 16h00 | 4ª Sessão | Estação Claro Gávea 3 | Exibição regular |
Trailer do filme Contos Paralelos (2026)
Ficha técnica
| Categoria | Detalhe |
| Título original | Histoires Parallèles |
| Título em português | Contos Paralelos |
| Direção | Asghar Farhadi |
| Roteiro | Asghar Farhadi, Saeed Farhadi, Krzysztof Kieślowski |
| Produção | Alexandre Mallet-Guy |
| Direção de Fotografia | Guillaume Deffontaines |
| Direção de Arte | Philippe Cord’homme |
| Figurino | Khadija Zeggaï |
| Som | Matthieu Michaux, Axel Steichen |
| Montagem | Hayedeh Safiyari |
| Gênero | Drama / Suspense |
| Países de Origem | França, Itália, Bélgica, Arábia Saudita, EUA |
| Ano de Lançamento | 2026 |
| Formato | Cor |
| Duração | 139 minutos |
| Classificação Indicativa | A definir |
| Elenco | Isabelle Huppert, Vincent Cassel, Virginie Efira, Pierre Niney, Catherine Deneuve, Adam Bessa, India Hair |














