Feras no Jardim crítica do filme 2024 HBO Max - Flixlândia (1)

‘Feras no Jardim’ e o colapso colonial visto pelos olhos de uma criança

Foto: Divulgação
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Sabe a Embeth Davidtz? Aquela atriz que marcou a infância de muita gente como a doce Srta. Honey no filme Matilda ou apareceu em clássicos como A Lista de Schindler? Pois bem, ela decidiu ir para trás das câmeras e o resultado é o filme Feras no Jardim. Baseado no livro de memórias de Alexandra Fuller, o longa marca a estreia de Davidtz na direção de longas-metragens, e ela já chega com os dois pés na porta.

O filme nos transporta para um momento histórico muito específico e turbulento: o final da Rodésia e o nascimento do Zimbábue, tudo isso sob a ótica de uma família branca que se recusa a largar o osso, mesmo estando, como a história provou, “do lado errado”. Mas não espere uma aula de história maçante; aqui o foco é a experiência humana, crua e muitas vezes confusa.

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Sinopse

Estamos em 1980. Bobo (interpretada pela estreante Lexi Venter) é uma garota de oito anos que vive em uma fazenda na Rodésia durante a violenta Guerra Civil, ou “Bush War”. Enquanto seus pais, Nicola (a própria Embeth Davidtz) e Tim (Rob van Vuuren), lutam — literal e figurativamente — para manter suas terras diante da inevitável transição para o governo negro e a eleição de Robert Mugabe, Bobo vive uma infância meio “bicho do mato”.

Carregando uma espingarda de chumbinho e fumando cigarros escondida, ela tenta entender seu lugar no mundo. Sua mãe, Nicola, lida com o alcoolismo e a depressão maníaca, assombrada pela perda de outros filhos. Nesse cenário de desmoronamento, a conexão mais forte e genuína de Bobo acaba sendo com Sarah (Zikhona Bali), a empregada negra da família, criando uma dinâmica de afeto que desafia as regras raciais da época.

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Crítica do filme Feras no Jardim

Uma pequena “fera” em cena

O grande trunfo do filme é, sem dúvida, a pequena Lexi Venter. É difícil acreditar que essa menina nunca tinha atuado antes. A diretora a encontrou através de um anúncio no Facebook e decidiu apostar em uma criança que não fosse “treinada”, buscando algo mais natural. E funcionou demais. A performance de Venter é descrita por muitos como “feral” e absolutamente autêntica.

Ela entrega aquela curiosidade genuína de quem pergunta para a mãe: “Nós somos racistas?” com a mesma naturalidade que pediria um copo d’água. Davidtz, sabiamente, dirigiu a menina quase como se fosse uma brincadeira, capturando momentos espontâneos (até quando a menina engasga com gelo ou brinca com os dedos do pé) e costurando tudo na edição para criar uma narrativa coesa. É uma atuação que carrega o filme nas costas, lembrando até um jovem Christian Bale em Império do Sol.

Feras no Jardim crítica do filme HBO Max 2024 - Flixlândia (1)
Foto: Divulgação

A complexidade do “vilão”

Embeth Davidtz tinha um desafio enorme: interpretar a mãe da protagonista, uma mulher racista, alcoólatra e mentalmente instável, sem transformá-la em uma caricatura de vilã da Disney. O roteiro não tenta passar pano para as atitudes de Nicola — ela é mostrada como alguém profundamente falha e produto de um sistema injusto —, mas tenta dar a ela uma dimensão humana.

Nicola ama a terra de uma forma obsessiva, quase doentia, chegando a dizer que enterraria seus filhos ali, o que torna a inevitável perda da fazenda um golpe devastador para sua sanidade. É um retrato de alguém que se beneficiou de um sistema brutal, mas que também carrega suas próprias tragédias pessoais e doenças mentais.

A relação entre Bobo e Sarah

O coração emocional do filme bate na relação entre a menina branca e a empregada negra, Sarah. Zikhona Bali entrega uma performance que bate de frente com a das protagonistas, trazendo uma profundidade silenciosa para a personagem. No entanto, o filme caminha por uma linha tênue aqui.

Embora mostre o amor genuíno entre as duas, a realidade do apartheid se impõe de forma cruel no final. Há uma crítica válida de que o desfecho, onde Bobo imagina Sarah como uma espécie de entidade mística ou deusa ao se despedirem, pode cair no tropo do “Magical Negro” (o personagem negro que existe apenas para o crescimento espiritual do branco). Ainda assim, a dor da separação e a injustiça de Sarah ser deixada para trás enquanto a família branca parte é palpável e triste.

Direção e atmosfera

Para uma estreia na direção, Davidtz mostra muita segurança. O filme tem um visual “sujo” e desgastado que combina perfeitamente com a atmosfera de fim de festa do colonialismo.

Destaque para a cena final do “pôr do sol”, que foi meticulosamente planejada para capturar um flare solar específico, criando um momento visualmente poético que traduz a visão de mundo da criança. É um filme sensorial, que nos faz sentir o calor, a poeira e a tensão constante daquele ambiente.

Conclusão

Feras no Jardim não é um filme fácil. É denso, às vezes lento e trata de temas espinhosos sem oferecer respostas fáceis ou finais felizes tradicionais. Não é um filme de “plot”, mas sim um estudo de personagem delicado e brutal ao mesmo tempo.

Apesar de ser contado a partir de uma perspectiva privilegiada e branca — na qual me incluo, inclusive, o que naturalmente acaba limitando o entendimento completo da dor da população negra local —, a obra consegue ser honesta sobre as falhas dessa mesma branquitude.

Com atuações estelares, especialmente da pequena Lexi Venter, é uma estreia corajosa que vale a pena ser vista, nem que seja para nos lembrar de como as crianças absorvem e reinterpreta, à sua maneira mágica e trágica, as guerras criadas pelos adultos.

Onde assistir ao filme Feras no Jardim?

Trailer de Feras no Jardim (2024)

YouTube player

Elenco do filme Feras no Jardim

  • ⁦⁨Lexi Venter⁩
  • ⁨Embeth Davidtz⁩
  • ⁨Rob van Vuuren⁩
  • ⁨Zikhona Bali⁩
  • ⁨Shilubana N Fumani⁩
  • ⁨Anina Reed⁩⁩
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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