O cinema iraniano sempre teve uma habilidade ímpar de colocar o dedo na ferida, e o jovem diretor Saeed Roustaee faz exatamente isso em seu novo longa, Mãe e Filho. Depois de enfrentar problemas pesados com a censura e chegar a ser condenado à prisão pelo seu filme anterior (Os Irmãos de Leila), o talentoso cineasta não se deixou intimidar e retorna com uma obra que disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2025.
O filme, que estreia no Brasil no dia 30 de abril, passa longe de ser um drama familiar perfeitinho. O que Roustaee nos entrega é um soco no estômago: um relato visceral sobre opressão, luto e até onde uma pessoa pode ir quando é empurrada contra a parede pela sociedade.
Sinopse
A trama acompanha Mahnaz (Parinaz Izadyar), uma enfermeira viúva de 40 anos que se desdobra para criar os dois filhos em meio a uma sociedade profundamente patriarcal. Sobrecaregada pelo trabalho e pelo luto, ela lida diariamente com a rebeldia de seu filho adolescente, o explosivo Aliyar (Sinan Mohebi), que vive causando problemas e sofrendo ameaças de expulsão na escola.
Tentando reconstruir sua vida afetiva, Mahnaz engata um noivado controverso com Hamid (Payman Maadi), um motorista de ambulância com ares de galanteador, mas cheio de segundas intenções. A situação atinge um ponto de ruptura durante o noivado, quando um trágico acidente envolvendo o filho vira o mundo da enfermeira de cabeça para baixo, desencadeando uma espiral de vingança, traições e dilemas morais.
Crítica do filme Mãe e Filho (2025)
De um retrato realista a um melodrama intenso
O que mais impressiona na narrativa construída por Roustaee é a forma como ele racha o filme em duas metades com atmosferas totalmente distintas. Nos primeiros 45 minutos, somos jogados em um naturalismo quase frio. O diretor apenas observa a rotina pesada de Mahnaz e as constantes tensões de classe média sem grandes alardes.
Porém, no dia em que o trágico acidente acontece, o longa vira a chave de forma drástica e mergulha de cabeça no melodrama. De repente, o espectador é tragado para um universo novelesco, repleto de gritos, reações extremas, desmaios e confrontos dolorosos. Essa quebra de expectativa é uma jogada muito ousada do roteiro e funciona perfeitamente para nos colocar no mesmo estado de desespero e confusão mental da protagonista.

Maternidade e a ambiguidade moral
Se você procura por uma “mãe coragem” imaculada, veio ao filme errado. O grande charme de Mãe e Filho é justamente a recusa em idealizar Mahnaz, tornando-a uma personagem moralmente complexa e ambígua. Ela comete erros absurdos. Ao invés de repreender os desvios de conduta do filho adolescente, ela passa pano para ele e ataca os professores.
Quando a tragédia bate à sua porta, suas atitudes ficam ainda mais questionáveis e irracionais. Consumida pela dor, ela sai em uma jornada de vingança quase cega contra os homens ao seu redor, chegando ao extremo de atropelar um professor e agredir o sogro com fúria após descobrir que ele usou um cinto contra Aliyar. O longa nos desafia o tempo todo: até que ponto o trauma justifica as ilegalidades e os excessos de uma mãe ferida?
O peso sufocante do patriarcado
Mesmo com todas as atitudes autodestrutivas de Mahnaz, o filme deixa muito claro que ela está lutando em um tabuleiro onde as regras foram feitas para beneficiar os homens. O noivo, Hamid, rapidamente se revela um canalha dissimulado: além de extorquir famílias sem-teto para dormirem em suas ambulâncias, ele acaba se interessando pela irmã mais nova de Mahnaz, Mehri (Soha Niasti).
Cada figura masculina — do noivo ao diretor da escola, passando pelo ex-sogro ranzinza — funciona como a engrenagem de um sistema sexista e opressor. Roustaee é brilhante ao ilustrar como essa dominação não se dá apenas nas leis do país, mas no silenciamento diário dentro das próprias casas e instituições. Sem poder para derrubar o sistema por completo, Mahnaz desconta sua fúria contra os homens que estão no seu raio de alcance.
Atuações viscerais e direção precisa
Nada dessa teia emocional teria o mesmo impacto sem o trabalho de elenco impecável. Parinaz Izadyar entrega uma performance de força absoluta, equilibrando a sobrecarga de uma trabalhadora com a fúria de um fantasma assombrado pela própria dor. Já o jovem Sinan Mohebi é uma verdadeira força da natureza; a rebeldia de Aliyar domina a tela com tamanha intensidade que, quando ele se ausenta, sentimos um vazio imediato na narrativa.
No quesito técnico, a direção de fotografia de Adib Sobhani merece muitos aplausos. Ele cria uma relação sofisticada com os ambientes — corredores de hospital, pátios e escolas —, coreografando as câmeras de maneira a enquadrar o isolamento e o desespero de seus personagens sem perder o frescor e a fluidez do momento.
Conclusão
Mãe e Filho não é um filme fácil de digerir; tem um sabor inegavelmente amargo. Saeed Roustaee prova, mais uma vez, sua maestria em explorar a fundo o lado mais frágil e corrosivo das relações humanas. Ao se recusar a entregar conclusões mastigadas ou lições de moral sobre quem está certo ou errado, a obra deixa um eco doloroso no espectador.
É um retrato visceral sobre os limites da maternidade e as consequências de se viver sob a constante pressão da sociedade iraniana, revelando como as falhas e o sofrimento se espalham, feito um vírus, destruindo a todos pelo caminho.
Onde assistir ao filme Mãe e Filho?
O filme estreia nesta quinta-feira, 30 de abril de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.
Trailer de Mãe e Filho (2025)
Elenco do filme Mãe e Filho
- Parinaz Izadyar
- Payman Maadi
- Soha Niasti


















