Confira a crítica do filme "Maré Alta", drama com Marco Pigossi que estreou em 20 de março de 2025 nos cinemas.

‘Maré Alta’ encanta os olhos, mas não o coração

Foto: LD Entertainment / Divulgação
Compartilhe

Em um cenário onde o cinema LGBTQIAPN+ vem buscando novas formas de contar histórias de afeto, deslocamento e pertencimento, o filme “Maré Alta” surge como uma proposta intimista e sensível. Dirigido por Marco Calvani e protagonizado por Marco Pigossi, o longa tem como pano de fundo a vila de Provincetown, nos Estados Unidos — local historicamente associado à resistência e ao refúgio da comunidade queer.

A obra mistura ficção e elementos autobiográficos, tanto do diretor quanto do ator principal, e tenta articular questões urgentes como imigração, sexualidade e identidade através do olhar de um homem que busca reencontrar a si mesmo. No entanto, entre cenas visualmente belíssimas e uma atuação de destaque, o filme oscila entre a contemplação e a superficialidade, entregando uma experiência que encanta em partes, mas não mergulha com a profundidade que promete.

Frete grátis e rápido! Confira o festival de ofertas e promoções com até 80% OFF para tudo o que você precisa: TVs, celulares, livros, roupas, calçados e muito mais! Economize já com descontos imperdíveis!

Sinopse do filme Maré Alta

Em “Maré Alta”, acompanhamos Lourenço (Marco Pigossi), um imigrante brasileiro que vive em Provincetown, Massachusetts — uma vila costeira que serviu de abrigo à comunidade gay durante os anos mais sombrios da crise da AIDS. Recém-saído de um relacionamento e com o visto prestes a vencer, ele tenta reconstruir a própria vida em um lugar onde ainda se sente estrangeiro.

É nesse contexto que conhece Maurice (James Bland), um enfermeiro de Nova York que está de passagem antes de embarcar para uma missão médica na África.

O encontro entre os dois homens desencadeia em Lourenço uma busca por pertencimento, autodescoberta e aceitação, enquanto lida com cobranças da família no Brasil, os resquícios de amores antigos e a pressão de viver uma vida que não lhe cabe mais.

Você também pode gostar disso:

+ Humor cartunesco é o diferencial do divertido ‘Novocaine – À Prova de Dor’

+ ‘Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa’ entrega a magia da infância em cada cena

+ ‘Revelações’, quando a fé é o disfarce do abismo

Crítica de Maré Alta (2025)

Desde os primeiros minutos, o oceano se impõe como personagem em “Maré Alta”. Ele não apenas aparece como cenário, mas também como metáfora para o estado emocional de Lourenço. O diretor e roteirista Marco Calvani acerta ao construir uma narrativa que respeita os silêncios, os vazios e os momentos de pausa que marcam o cotidiano de quem está à deriva.

A fotografia de Oscar Ignacio Jiménez é outro trunfo do longa, explorando luz natural e sombras com precisão quase poética. As cenas na praia, nos quartos abafados ou durante os passeios com Maurice reforçam o senso de intimidade e a sensação de suspensão no tempo.

Pigossi em cena: uma âncora emocional

Marco Pigossi entrega uma atuação que vai além da performance — é vivência. Sua composição de Lourenço carrega uma angústia silenciosa, expressa com intensidade contida. O olhar perdido, o sorriso hesitante e a postura vacilante constroem um personagem que, embora deslocado, insiste em se conectar.

É nítido o cuidado com que Calvani filma Pigossi — não apenas por serem parceiros na vida real, mas porque o roteiro oferece ao ator espaço para respirar e para habitar o personagem sem pressa. Essa liberdade se traduz em momentos de pura verdade cênica.

Quando a maré vira: o peso das intenções mal resolvidas

Apesar de sua força sensível, “Maré Alta” tropeça ao tentar abarcar temas demais com profundidade de menos. O filme propõe discussões relevantes — imigração, identidade, racismo estrutural, sexualidade —, mas os trata de forma muitas vezes rasa e didática, como se estivesse cumprindo uma cartilha. A crítica social aparece mais como ilustração do que como substância.

Além disso, o terceiro ato revela certa insegurança narrativa. Ao buscar conflitos mais evidentes, o roteiro abandona o tom contemplativo que vinha sustentando com sucesso. As tensões se tornam artificiais, os diálogos mais expositivos e as situações, convenientes. Há uma tentativa de emocionar o espectador que, paradoxalmente, esvazia a emoção genuína construída até então.

Um retrato LGBTQIAPN+ que oscila entre autenticidade e ingenuidade

A representatividade que “Maré Alta” tenta alcançar é louvável — e em muitos momentos, alcançada. A forma como Maurice é retratado, por exemplo, foge de estereótipos e oferece uma imagem complexa e sensível do homem negro e queer. Há cenas de rara beleza emocional, como a do chuveiro, que comunicam mais do que palavras jamais conseguiriam.

Por outro lado, a jornada sexual de Lourenço parece tratada com certa ingenuidade, destoando da complexidade das experiências reais. Sua autodescoberta é encenada como se fosse uma epifania adolescente, o que não condiz com o contexto do personagem nem com o panorama atual do cinema queer — que tem avançado em profundidade e autenticidade.

Conclusão

“Maré Alta” é, antes de tudo, um filme de boas intenções. Ele deseja falar sobre pertencimento, afetos e a complexidade de ser quem se é num mundo que nem sempre acolhe. Em parte, consegue. Seus momentos mais silenciosos e sinceros, ancorados na atuação de Pigossi e na direção sensível de Calvani, são belas cápsulas de humanidade.

No entanto, quando tenta dizer mais do que pode, afoga-se em suas próprias ambições. O que poderia ter sido um estudo emocional profundo se torna uma experiência superficial, ainda que visualmente envolvente. O mar, que no início convida ao mergulho, acaba apenas molhando os pés.

Siga o Flixlândia nas redes sociais

+ Instagram

+ Twitter

+ TikTok

+ YouTube

Onde assistir ao filme Maré Alta?

O filme estreou no dia 20 de março de 2025 nos cinemas.

Trailer de Maré Alta (2025)

YouTube player

Elenco do filme Maré Alta

  • Marco Pigossi
  • James Bland
  • Marisa Tomei
  • Bill Irwin
  • Sean Mahon
  • Mya Taylor
  • Bryan Batt
  • Todd Flaherty

Ficha técnica de Maré Alta

  • Título original: High Tide
  • Direção: Marco Calvani
  • Roteiro: Marco Calvani
  • Gênero: drama, romance
  • País: Estados Unidos
  • Duração: 105 minutos
  • Classificação: 16 anos
Escrito por
Giselle Costa Rosa

Navegando nas águas do marketing digital, na gestão de mídias pagas e de conteúdo. Já escrevi críticas de filmes, séries, shows, peças de teatro para o sites Blah Cultural e Ultraverso. Agora, estou aqui em um novo projeto no site Flixlândia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados
Somos Todos Estranhos filme 2026
Críticas

‘Somos Todos Estranhos’ e a poética das fragilidades humanas num dos filmes mais emocionantes do ano

Ao caminhar pelas calçadas reluzentes de uma metrópole verticalizada como Singapura, a...

Contos Paralelos crítica do filme Festival do Rio 2026
Críticas

‘Contos Paralelos’ aposta em grandes atuações, mas se perde em um roteiro confuso

O cineasta Asghar Farhadi construiu sua reputação entregando dramas familiares complexos e...

Seven Snipers filme 2026 (1)
Críticas

‘Seven Snipers’ resgata a tensão crua do cinema de ação

No isolamento quase claustrofóbico do outback australiano, a vastidão da paisagem rural...

filme Garotas Só Querem Vingança 2026
Críticas

‘Garotas Só Querem Vingança’: o perturbador retrato do hedonismo e da vingança feminina

Existe um desconforto silencioso que antecede toda tragédia contemporânea. No cinema de...

Cleo Pires, Gloria Pires, Tony Ramos e Rafa Infante no filme Se Eu Fosse Você 3
Críticas

‘Se Eu Fosse Você 3’ aposta na nostalgia, mas esbarra na falta de coragem para inovar (SPOILERS)

Vinte anos depois do primeiro fenômeno, a franquia que redefiniu a comédia...

filme Velha Louca 2025
Críticas

‘Velha Louca’ transforma demência em terror histórico

O cinema de confinamento sempre encontrou no espaço doméstico seu terreno mais...

Naza filme documentário 2026 (1)
Críticas

‘Naza’ expõe as engrenagens burocráticas e tecnológicas da guerra em Gaza

Naza é um documentário de 2026 dirigido pelos jornalistas e cineastas israelenses...

PROTOCOLO DE EXTERMÍNIO DIAMOND FILMS crítica elenco onde assistir trailer filme 2026
Críticas

‘Protocolo de Extermínio’: um pouco de guerra e um pouco de fetiche

Chega aos cinemas brasileiros nessa quinta 01 de outubro, o filme Protocolo...