Há cidades que se deixam engolir pelo cotidiano de seus edifícios e asfaltos, e há São Paulo quando chega outubro: uma metrópole que suspende a pressa para caber inteira no feixe de luz de uma sala de projeção. Em 2026, esse ritual ganha contornos de jubileu de ouro. A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo atinge a sua emblemática 50ª edição entre os dias 15 e 29 de outubro, espalhando 391 títulos (entre longas, curtas e séries) de 93 países por 57 salas, centros culturais e CEUs da capital paulista.
Como bem refletiu a diretora da Mostra, Renata de Almeida, em suas memórias reunidas no livro Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo: se o festival nasceu em 1977 pelas mãos de Leon Cakoff em meio ao “deserto” imposto pela censura civil-militar, hoje vivemos em um “oceano” onde quase tudo parece ao alcance, porém disperso e sem peso. A Mostra, portanto, permanece sendo aquele amigo que puxa pelo braço no escuro da sala e aponta para o mistério do mundo. Durante duas semanas, São Paulo volta a ser a capital incontestável da cinefilia global.
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Mostra de SP 2026: noite de abertura e beijo desenhado por James Gray
A celebração tem início oficial na quarta-feira, 14 de outubro, em sessão solene para convidados na Sala São Paulo. O filme escolhido para inaugurar a edição é Tigre de Papel (Paper Tiger), drama dirigido pelo cineasta nova-iorquino James Gray, que competiu no último Festival de Cannes e conta com produção da brasileira RT Features, comandada por Rodrigo Teixeira. Estrelado por Miles Teller, Adam Driver e Scarlett Johansson, o longa mergulha na ruína moral de dois irmãos enredados pela máfia russa ao perseguirem a ilusão do sonho americano.
Antes do longa, a abertura exibe a estreia nacional de Sul de Teerã, curta-metragem dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, concebido a convite do Festival de Nova York, que registra reflexões do mestre iraniano Jafar Panahi sobre censura, exílio e cinema.
A ligação de James Gray com o cinquentenário da Mostra é visceral: além de comparecer pessoalmente à capital paulista, o diretor desenhou o cartaz oficial da 50ª edição — um traço em preto e branco que eterniza o beijo cinematográfico. James Gray recebe o prestigioso Prêmio Leon Cakoff e participa de uma conversa aberta com o cineasta Walter Salles no dia 15 de outubro, na Sala Petrobras na Mostra, montada no Solar Fábio Prado. Na mesma data, a 3ª Mostrinha abre suas portas na Sala São Paulo com a estreia mundial da animação brasileira Clarice Vê Estrelas, de Letícia Pires, sob a bênção visual de um pôster desenhado pelo mestre Ziraldo.
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O encerramento da Mostra de SP 2026
Diferente de festivais que consagram um único título ficcional em suas últimas horas, a organização da Mostra dedica tradicionalmente o encerramento, agendado para o dia 29 de outubro, à apoteose de sua cerimônia de premiação. É quando o júri oficial anuncia os vencedores do cobiçado Troféu Bandeira Paulista, escultura criada pela artista plástica Tomie Ohtake.
Na Competição Novos Diretores (reservada a cineastas em seu primeiro ou segundo longa-metragem), a avaliação deste ano está sob a responsabilidade de um júri de peso: o cineasta e músico estadunidense Boots Riley (que também exibe seu novo trabalho, I Love Boosters), o iraniano Ali Asgari (representado na programação por Um Pouco de Esperança), o colombiano César Augusto Acevedo e a realizadora brasileira Laís Bodanzky. Além da láurea principal, a noite de 29 de outubro entrega prêmios estratégicos de mercado, como o Prêmio Netflix (para aquisição global de um título nacional sem contrato de streaming), o Prêmio Paradiso (de fomento à distribuição comercial), o Prêmio BRADA (de melhor direção de arte) e o Prêmio Prisma Queer.
O cinema brasileiro na Mostra de SP 2026
A produção nacional ocupa mais de 70 títulos (ultrapassando uma centena quando somadas coproduções internacionais e séries), espelhando um momento de vigor criativo e relevância política.
O grande destaque de ficção é Feito Pipa (também conhecido como O Mundo de Gugu), dirigido pelo cearense Allan Deberton. Consagrado no Festival de Berlim com o Urso de Cristal na seção Generation Kplus, o filme traz o jovem Yuri Gomes ao lado de Lázaro Ramos e Teca Pereira, narrando o comovente cotidiano de um garoto de 11 anos que enfrenta a pobreza e o avanço do Alzheimer da avó.
A seleção brasileira destaca ainda obras aclamadas no circuito exterior, como London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli (vencedor do Leão Queer na Semana da Crítica de Veneza), A Margem do Rio, de Enock Carvalho e Matheus Farias (Prêmio Especial do Júri em Locarno), Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira (premiado em Brasília e exibido em Berlim), e Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins. Há também o ousado horror gore Privadas de Suas Vidas, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, laureado no Festival de Brasília, o provocador Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco, o retorno de André Klotzel à comédia dramática com Sem Pai Nem Mãe, e a exibição póstuma do documentário Quase da Família, último registro da realizadora Joyce Prado sobre a trajetória de Laudelina de Campos Mello e a luta das trabalhadoras domésticas.
O cinema documental e biográfico brasileiro comparece com uma galeria de ícones culturais de tirar o fôlego:
- Alucinação, de Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano, sobre a obra-prima musical de Belchior;
- Fernanda, de Pedro Waddington, um mergulho íntimo na vida e na arte de Fernanda Montenegro;
- Elza, de Eryk Rocha, tributo sensorial à trajetória de Elza Soares;
- Ney por Trás das Máscaras, de Esmir Filho e Thais Guisasola, desnudando as facetas de Ney Matogrosso;
- Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?, ficção de Hugo Prata e Felipe Novaes estrelada por José Loreto como o cantor Chorão;
- 100 Dias, de Carlos Saldanha, sobre a travessia oceânica de Amyr Klink;
- Cavalcanti, de Jairo Neto e Graubi Garcia, resgatando o pioneiro cineasta Alberto Cavalcanti;
- Zé, de Paulo Caldas, sobre a fúria cênica de Zé Celso Martinez Corrêa;
- Di Cavalcanti, no qual a veterana Ana Carolina perfila o grande pintor modernista;
- Vitória da Paz, de Ricardo Kalil, Fábio Gusmão e Dudu Levy, resgatando a história da mulher que arriscou a vida para filmar o crime de sua janela.
Nas coproduções, o festival apresenta o premiado La Perra (Chile/Brasil), de Dominga Sotomayor, estrelado por Selton Mello, Glaxo, do argentino Benjamín Naishtat, e nas narrativas seriadas, o pré-lançamento de Sócrates Brasileiro, série de Walter Salles sobre o icônico capitão da democracia corintiana, além de Leve Chico, de Marianna Brennand.

Destaques internacionais da Mostra de SP 2026
Se o cinema brasileiro pulsa, a colheita estrangeira reúne o ápice do circuito autoral contemporâneo. Da Romênia vem Fjord, do consagrado Cristian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2026, com atuações de Renate Reinsve e Sebastian Stan em um drama sobre fundamentalismo religioso e laços familiares. De Veneza desembarca Mulher Desconhecida, de May el-Toukhy, que levou o Leão de Ouro e a Coppa Volpi para a atriz Mathilde Arcel.
A lista internacional prossegue com obras fundamentais:
- Amor Possível, o aguardado retorno do mestre sul-coreano Lee Chang-dong, vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza;
- Minotauro, potente drama político do russo exilado Andrey Zvyagintsev, vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes;
- A Terra do Meu Pai (Fatherland), do polonês Pawel Pawlikowski, premiado pela direção em Cannes e protagonizado por Sandra Hüller e Hanns Zischler;
- O Sentido da Vida, do japonês Ryûsuke Hamaguchi, com elenco liderado por Virginie Efira e Tao Okamoto;
- O Outro Lado das Redes, continuação de A Rede Social escrita por Aaron Sorkin, reunindo no elenco Jeremy Strong, Jeremy Allen White e Mikey Madison;
- Primetime, produção da A24 dirigida por Lance Oppenheim e estrelada por Robert Pattinson, explorando as entranhas sensacionalistas da televisão americana;
- Look Back, do mestre japonês Hirokazu Kore-eda;
- O Ser Querido, do espanhol Rodrigo Sorogoyen, com Javier Bardem;
- Musk, minucioso e implacável documentário investigativo de Alex Gibney sobre a figura de Elon Musk;
- Ray Gunn, ambiciosa animação retrofuturista para adultos concebida por Brad Bird.
O resgate histórico é outro alicerce deste cinquentenário. A programação exibe a cópia restaurada de Aurora (1927), clássico expressionista de F.W. Murnau, em duas sessões no Teatro Cultura Artística acompanhadas ao vivo pela Orquestra Jazz Sinfônica. Há retrospectivas reverenciando o produtor português Paulo Branco (com títulos de Manoel de Oliveira, Raúl Ruiz e Wim Wenders), o cineasta chileno Marco Bechis (agraciado com o Prêmio Humanidade e exibindo Retorno a Buenos Aires), o indiano S.S. Rajamouli (apresentando seu fenômeno RRR: Revolta, Rebelião, Revolução), o centenário do mestre polonês Andrzej Wajda, as três partes de A Batalha do Chile, do saudoso Patricio Guzmán, e oito filmes recuperados do vanguardista armênio Artavazd Pelechian.

Radar do Oscar: 21 concorrentes na Mostra de SP 2026
A 50ª Mostra converte-se no principal termômetro sul-americano para a temporada de premiações de Hollywood. Graças às regras da Academia que aceitam submissões diretas dos países ou contemplam títulos laureados nos festivais de primeira linha, 21 longas presentes na seleção paulistana estão habilitados para concorrer a uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027.
O representante do cinema brasileiro nessa maratona é Feito Pipa, de Allan Deberton. Ele medirá forças com gigantes já premiados pelo júri internacional:
- Fjord (Cristian Mungiu) — Romênia;
- Minotauro (Andrey Zvyagintsev) — França;
- Mulher Desconhecida (May el-Toukhy) — Dinamarca;
- A Terra do Meu Pai (Pawel Pawlikowski) — Polônia;
- Amor Possível (Lee Chang-dong) — Coreia do Sul;
- O Sentido da Vida (Ryûsuke Hamaguchi) — Japão;
- Everytime (Sandra Wollner) — Alemanha;
- Elefantes na Névoa (Abinash Bikram Shah) — Nepal (coprodução com o Brasil);
- Quem Matou Narciso? (Marcelo Martinessi) — Paraguai;
- Variações Sobre um Tema (Jason Jacobs e Devon Delmar) — África do Sul;
- Vergonha e Dinheiro (Visar Morina) — representante qualificado via Festival de Sundance;
- Angh (Theja Rio) — representante qualificado via Festival de Toronto;
- Furies (Rami Kodeih) — Líbano;
- Como se Divorciar Durante a Guerra (Andrius Blaževičius) — Lituânia;
- Na Terra de Arto (Tamara Stepanyan) — Armênia;
- Filipiñana (Rafael Manuel) — Filipinas;
- Não Me Largue (Myrsini Aristidou) — Chipre;
- 17 (Kosara Mitić) — Macedônia do Norte;
- A Morte Não Tem Dono (Jorge Thielen Armand) — Venezuela;
- Roqia (Yanis Koussim) — Argélia;
- A Aventura Sonhada (Valeska Grisebach) — Bulgária.

Os 10 melhores filmes da Mostra de SP 2026
Diante de um oceano de quase quatrocentos títulos, o ranking analítico elaborado pelo guia do festival (portal Spoiler) mapeou os filmes indispensáveis que justificam cada minuto em frente à tela:
Aurora (direção: F.W. Murnau)
Obra monumental do cinema mudo que transcende o tempo, apresentada com a magnitude de uma partitura viva executada no Teatro Cultura Artística.
Mistérios de Lisboa (direção: Raúl Ruiz)
O testamento narrativo de um mestre do folhetim barroco, integrando a merecida homenagem à trajetória do produtor Paulo Branco.
Amor Possível (direção: Lee Chang-dong)
O retorno aguardado do cineasta de Em Chamas, compondo em Veneza uma dolorosa autópsia da fragilidade dos encontros contemporâneos.
O Retorno (direção: Andrey Zvyagintsev)
A estreia arrebatadora que arrebatou o Leão de Ouro em 2003, exibida em cópia restaurada em comunhão com sua obra recente.
Era Uma Vez em Nova York (direção: James Gray)
O melodrama em estado de graça estética, iluminando a retrospectiva dedicada ao autor que desenhou a alma desta 50ª edição.
Fjord (direção: Cristian Mungiu)
A Palma de Ouro irretocável que disseca o rigor ético, a crença e a hipocrisia nas fraturas da Europa do norte.
Minotauro (direção: Andrey Zvyagintsev)
Um mergulho asfixiante na Rússia de 2022, onde o totalitarismo dissolve qualquer distinção entre crime passional e colapso institucional.
Everytime (direção: Sandra Wollner)
Grande vencedor da mostra Um Certo Olhar em Cannes; uma jornada hipnótica e perturbadora sobre o luto e o tempo em uma viagem à ilha de Tenerife.
A Cidade dos Piratas (direção: Raúl Ruiz)
Projeção rara em película 35mm deste delírio poético e surrealista de 1983, pérola lapidada pela produção independente europeia.
Francisca (direção: Manoel de Oliveira)
O apogeu da literatura transfigurada em cinema límpido, outro marco indelével resgatado da parceria com Paulo Branco.
Ingressos, salas e logística da Mostra de SP 2026
Navegar pela Mostra exige um plano de viagem pela geografia paulistana. As sessões dividem-se em múltiplos circuitos:
- Circuito de salas de arte e comerciais: Cine Belas Artes, CineSesc, Reserva Cultural, Cinesystem Frei Caneca, Espaço Petrobras de Cinema, Cinesala, Cinemateca Brasileira, MIS, IMS Paulista (com primeira sessão do dia gratuita) e a Sala Petrobras na Mostra (no Solar Fábio Prado).
- Circuito a preços populares: Circuito Spcine Olido e Centro Cultural São Paulo (CCSP – Sala Paulo Emílio).
- Circuito gratuito: Bulevar do Rádio (Sesc Paulista), Cinusp, Itaú Cultural, Teatro Sérgio Cardoso e os 26 Centros Educacionais Unificados (CEUs) com exibições da Mostrinha.
Preços e modalidades de ingressos
- Ingressos avulsos:
- Segunda a quinta-feira: R$ 26,00 (inteira) e R$ 13,00 (meia-entrada).
- Sexta, sábado e domingo: R$ 32,00 (inteira) e R$ 16,00 (meia-entrada).
- Circuito Spcine CCSP e Olido: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia-entrada).
- Permanentes e pacotes (vendas abertas desde 10 de outubro):
- Permanente Integral (livre acesso para todos os dias, horários e sessões especiais): R$ 640,00.
- Permanente Especial (sessões de segunda a sexta-feira até as 17h55): R$ 160,00.
- Pacote de 40 ingressos: R$ 440,00.
- Pacote de 20 ingressos: R$ 270,00.
Onde comprar e regras de agendamento
A compra e a reserva de ingressos devem ser efetuadas pelo aplicativo oficial da Mostra (disponível para Android via Google Play e iOS via App Store) ou pelo site da Velox Tickets.
Para credenciados e portadores de permanentes, o agendamento no sistema abre com 5 dias de antecedência para cada sessão. Para a compra de ingressos avulsos, a liberação ocorre 4 dias antes de cada sessão.
O sistema da plataforma faz reserva instantânea no carrinho ao selecionar o assento para evitar bloqueios após o preenchimento dos dados. No dia da sessão, uma cota residual de ao menos 10% é disponibilizada presencialmente na bilheteria física de cada cinema. O cancelamento de ingressos pode ser realizado até 4 horas antes da exibição.
Serviço: Mostra Internacional de Cinema de SP 2026
| Informação | Detalhes e especificações |
|---|---|
| Evento | 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo |
| Período oficial | 15 a 29 de outubro de 2026 (abertura oficial para convidados em 14 de outubro) |
| Dimensão da programação | 391 títulos (longas, curtas e séries) de 93 países |
| Circuito exibidor | 57 salas de cinema, centros culturais e CEUs da cidade de São Paulo |
| Filme de abertura oficial | Tigre de Papel (James Gray, EUA/Brasil) e o curta Sul de Teerã (Kleber Mendonça Filho, Brasil/EUA) |
| Filme de abertura (Mostrinha) | Clarice Vê Estrelas (Letícia Pires, Brasil) |
| Cerimônia de encerramento | 29 de outubro de 2026, com premiação do Troféu Bandeira Paulista e prêmios parceiros |
| Homenageados especiais | James Gray (Prêmio Leon Cakoff), Paulo Branco (Prêmio Leon Cakoff), S.S. Rajamouli (Prêmio Leon Cakoff) e Marco Bechis (Prêmio Humanidade) |
| Júri da Competição Novos Diretores | Boots Riley, Ali Asgari, César Augusto Acevedo e Laís Bodanzky |
| Filme brasileiro no radar do Oscar | Feito Pipa (Allan Deberton) |
| Canais de venda e agendamento | Aplicativo oficial da Mostra (Google Play e App Store) e site da Velox Tickets |
| Central de atendimento presencial | Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073) e ponto de apoio no Solar Fábio Prado |



























