O espetáculo do estrelato sempre alimentou o cinema com narrativas de ascensão, decadência e obsessão. Contudo, em Mother Mary, o cineasta David Lowery recusa os clichês das cinebiografias tradicionais para construir um psicodrama gótico e hipnótico sobre a dor da criação, a destruição do ego e os fantasmas do passado. Produzido pela A24, o longa coloca Anne Hathaway no papel de uma megaestrela da música em colapso existencial e Michaela Coel como a estilista e ex-confidente responsável por moldar sua identidade pública.
Inspirado na estética de grandes turnês de estádio — como a Reputation Stadium Tour de Taylor Swift —, no clássico Bram Stoker’s Dracula de Francis Ford Coppola e no documentário McQueen, o filme não é uma adaptação nem baseado em uma história real. Trata-se de um roteiro original assinado pelo próprio David Lowery, que utiliza o universo da moda e da música pop como uma alegoria para explorar feridas emocionais não cicatrizadas e a perda do próprio eu sob os holofotes.
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A história do filme Mother Mary
A trama acompanha a superestrela Mother Mary (Anne Hathaway), um ícone global da música pop cuja carreira é marcada por performances grandiosas e um culto quase religioso em torno de sua imagem. Após sofrer um grave e traumático acidente no palco — quando despencou de uma plataforma elevada durante um show, evento que a imprensa e os fãs especulam ter sido uma tentativa de suicídio —, Mary tenta engrenar seu retorno aos palcos.
Entretanto, durante as sessões de prova de figurino para seu show de comeback, a cantora é tomada por um ataque de pânico sufocante. Incapaz de vestir as roupas preparadas por sua equipe e sentindo-se uma estranha dentro da própria persona, Mary abandona tudo e foge para o interior da Alemanha. Ela vai ao encontro de Sam Anselm (Michaela Coel), uma renomada estilista de moda que vive isolada em um ateliê sombrio.
As duas compartilham um passado complexo e intimamente entrelaçado. Anos antes, foi Sam quem desenhou os figurinos icônicos e moldou toda a mitologia visual que transformou Mary em um fenômeno. Contudo, à medida que a cantora alcançou o topo da indústria, Sam foi gradativamente apagada de seu círculo íntimo e privada do devido crédito autoral, gerando um rompimento traumático.
Sem avisar, Mary surge na porta de Sam em uma noite de tempestade e faz um pedido desesperado: que ela crie um vestido inédito para seu show de retorno em um prazo quase impossível de três dias. Sam, tomada por uma amargura contida, aceita o desafio sob a condição de que Mary enfrente tudo o que deixou para trás e vista exatamente o que for criado — com a única exigência da cantora de que a roupa não contenha a cor vermelha.
Fechadas no claustrofóbico ateliê, as conversas entre as duas reabrem ressentimentos profundos sobre dependência criativa, apropriação emocional e um amor queer não resolvido. É nesse ambiente de alta tensão que elementos sobrenaturais emergem: ambas revelam ter sido assombradas por uma mesma entidade — o “Espírito Vermelho”, uma figura espectral feita de tecido fluido que simboliza o trauma compartilhado.
Em um clímax divisor de águas, Sam conduz Mary por um ritual de exorcismo estético e corporal. Mary utiliza uma tesoura de costura para cortar o próprio esterno, permitindo que Sam puxe de seu peito a densa massa de tecido vermelho que a sufocava. Liberta da culpa, Mary pede perdão a Sam e corre para o palco, onde se despoja de suas armaduras visuais para cantar de forma crua e autêntica, enquanto Sam transforma aquele mesmo tecido vermelho no vestido final.
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Crítica do filme Mother Mary (2026)
Química eletrizante entre Anne Hathaway e Michaela Coel
O maior triunfo de Mother Mary reside no duelo atuações promovido por Anne Hathaway e Michaela Coel. Hathaway entrega uma de suas interpretações mais vulneráveis e magnéticas em anos, transitando com maestria entre a imponência inalcançável de uma diva de estádio e o desespero cru de uma mulher emocionalmente estilhaçada. Suas rotinas de dança em silêncio e suas falas trêmulas revelam o peso de interpretar uma criação que acabou por engolir sua própria humanidade.
Por sua vez, Michaela Coel brilha com uma atuação contida, firme e carregada de dor silenciosa. Ela encarna Sam não apenas como uma estilista injustiçada, mas como a única figura capaz de enxergar Mary além do produto comercial. A dinâmica entre as duas atrizes transborda uma tensão palpável que passeia entre o ressentimento profissional, o carinho profundo e o desejo reprimido.
A estética sufocante e a direção de David Lowery
O diretor David Lowery demonstra mais uma vez sua recusa em entregar um cinema de respostas fáceis. Auxiliado pela direção de fotografia de Andrew Droz Palermo e Rina Yang, o filme estabelece um contraste visual impressionante entre os shows em arenas lotadas — com iluminação vibrante e escala épica — e o confinamento soturno do ateliê de Sam.
Trabalhando no limite entre o melodrama, o horror gótico e o filme de ensaio, Lowery filma o processo de confecção de uma peça de alta costura com a mesma gravidade e tensão de uma sessão de espiritismo ou de um ritual de possessão. A trilha sonora instrumental de Daniel Hart, aliada às canções originais compostas por Jack Antonoff, Charli XCX e FKA Twigs, confere ao longa uma identidade sonora única e hipnotizante.
Onde o filme acerta e onde tropeça
O filme acerta em cheio ao abordar a autoria emocional na arte e a forma como a indústria do entretenimento consome o corpo e a psique das mulheres. Contudo, a obra eventualmente tropeça em sua própria ambição metafórica.
Em diversos momentos do segundo ato, o excesso de simbolismos e abstrações ameaça sufocar o conflito humano que sustentava a narrativa, tornando o ritmo arrastado e potencialmente frustrante para quem busca uma narrativa linear convencional.

Final explicado do filme Mother Mary, com Anne Hathaway
O que realmente representa a mulher de vermelho
O “Espírito Vermelho” — ou a entidade de tecido vermelho que surge ao longo do filme — é a representação física do trauma não processado, do ressentimento acumulado e da culpa entre Mary e Sam. Sam encontra o espírito pela primeira vez após uma crise de ciúmes e raiva ao assistir a um show de Mary sem sua presença; a amargura acumulada faz com que ela quebre um dente e, após a extração, a ferida libere a entidade no mundo.
Já Mary é assombrada pelo espírito após uma sessão espírita com sua equipe e a fã Imogen (FKA Twigs), em que sua mão é cortada. O fantasma tenta entrar em seu corpo através das feridas abertas, culminando na sua queda no palco. O espírito vermelho é, portanto, a dor compartilhada pelas duas mulheres que se recusavam a conversar abertamente sobre suas mágoas.
O ritual das tesouras e a transmutação do trauma
No terceiro ato, Sam entende que a única forma de libertar Mary e a si mesma é canalizar essa dor para a criação. O ritual no ateliê funciona como um parto ou uma cirurgia estética violenta: ao cortar o próprio peito com as tesouras de costura, Mary abre espaço para que Sam extraia fisicamente a entidade espectral de seu corpo.
A entidade deixa de ser uma assombração e se transforma em um pedaço de tecido inofensivo. Ao costurar esse mesmo tecido e dar origem ao vestido vermelho final, Sam pega todo o sofrimento da relação e o transmuta em arte pura.
A queda no palco: acidente, possessão ou tentativa de suicídio?
O filme mantém uma ambiguidade intencional sobre o que realmente causou a queda de Mary do palco no passado. A narrativa oferece três interpretações simultâneas:
- Um acidente físico provocado pelo desorientamento no show.
- Uma possessão literal da entidade que a puxou para a borda.
- Um ato inconsciente de desespero e tentativa de suicídio devido ao exaustão e à depressão.
Essa incerteza reflete a própria perda de identidade da cantora, que viveu tanto tempo interpretando uma persona que já não sabia mais onde terminava o espetáculo e onde começava sua vida real.

Polêmicas nos bastidores da produção
A produção de Mother Mary foi marcante e complexa. As filmagens duraram cerca de 14 meses — entre maio de 2023 e julho de 2024 —, enfrentando interrupções e obtendo uma licença especial do sindicato durante a greve do SAG-AFTRA para continuar gravando em locação.
A grande maioria do filme foi rodada na Alemanha, na região de Colônia e Bonn. O ateliê sombrio de Sam, que parece uma mansão na zona rural inglesa, foi gravado nos estábulos de Burg Adendorf, um castelo do século XIII cercado por um fosso na cidade de Wachtberg. Já os números musicais de estádio foram registrados no Hyde Park, em Londres, e em estúdios de som altamente tecnológicos.
Para construir a mitologia da estrela pop com verossimilhança, a equipe realizou dez anos de desenvolvimento artístico em apenas seis meses. A coreógrafa Dani Vitale trabalhou ao lado de Anne Hathaway para definir cada etapa da carreira de Mary, incluindo o catálogo de álbuns fictícios, o funcionamento de sua gravadora e a estética de suas turnês. Além disso, Hathaway gravou seus próprios vocais para sete faixas inéditas, incluindo as canções Burial e My Mouth Is Lonely for You.
Quem está no elenco do filme Mother Mary
O longa-metragem conta com um elenco estelar composto por grandes nomes do cinema, da moda e da música:
- Anne Hathaway como Mother Mary
- Michaela Coel como Sam Anselm
- Hunter Schafer como Hilda (a assistente de Sam)
- FKA Twigs como Imogen (fã e médium)
- Kaia Gerber como Nikki
- Jessica Brown Findlay como Tessa
- Alba Baptista como Miel
- Sian Clifford como Jade
- Atheena Frizzell como Emily
- Isaura Barbé-Brown como Kyla
Mother Mary é baseado em fatos reais ou em alguma adaptação?
Não. Mother Mary é uma história totalmente fictícia e original escrita e dirigida por David Lowery. As inspirações vieram de fenômenos pop reais como Taylor Swift, Lady Gaga e Beyoncé, além de referências ao universo da alta costura e ao cinema gótico.
Mother Mary terá uma continuação?
Não. A produção foi concebida como uma obra fechada e autofinanciada no aspecto psicológico, sem qualquer plano para sequências ou derivados.
Tem cena pós-créditos em Mother Mary?
Não há cenas após o encerramento completo dos créditos. Contudo, durante a primeira parte dos créditos finais, é exibida uma performance no palco da canção Dark Cradle, acompanhada por ilustrações do livro de croquis de Sam e do vestido vermelho final.
Onde assistir ao filme Mother Mary?
Distribuído mundialmente nos cinemas pela A24, o longa-metragem está disponível no catálogo de streaming da HBO Max no Brasil.
Trailer do filme Mother Mary (2026)
Ficha técnica
| Parâmetro | Detalhes |
|---|---|
| Título Original | Mother Mary |
| Ano de Lançamento | 2026 |
| Direção | David Lowery |
| Roteiro | David Lowery |
| Produção | A24, Sailor Bear, augenschein Filmproduktion, Homebird Productions, Topic Studios |
| Elenco Principal | Anne Hathaway, Michaela Coel, Hunter Schafer, FKA Twigs, Kaia Gerber, Alba Baptista |
| Direção de Fotografia | Andrew Droz Palermo, Rina Yang |
| Design de Figurino | Bina Daigeler (peças de cena por Iris van Herpen) |
| Trilha Sonora Instrumental | Daniel Hart |
| Canções Originais | Jack Antonoff, Charli XCX, FKA Twigs |
| Duração | 112 minutos (1h 52min) |
| Orçamento | US$ 20 milhões |
| Gênero | Psicodrama, Suspense Sobrenatural, Musical Gótico |
Com seu visual arrebatador, atuações marcantes e uma atmosfera que mescla o espetáculo dos estádios ao terror psicológico, Mother Mary se consolida como uma das produções mais instigantes e discutidas do cinema recente. Uma obra ousada que exige ser sentida em toda a sua intensidade.
O que você achou do desfecho do filme? O “Espírito Vermelho” funcionou para você como metáfora? Conte para a gente nos comentários e compartilhe esta crítica! 🎬✨














