Anne Hathaway no filme O Casamento de Rachel

Aclamado drama com Anne Hathaway acaba de chegar à Netflix

Foto: Divulgação
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Se você é fã de dramas intensos, reais e sem filtros, temos uma excelente notícia: O Casamento de Rachel, aclamado filme de 2008, acabou de chegar ao catálogo da Netflix no Brasil. Dirigido pelo saudoso Jonathan Demme (o mesmo mente brilhante por trás de O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia), o longa foge de todos os clichês das tradicionais comédias românticas sobre casamentos para entregar um retrato denso, natural e inesquecível de uma família esmagada pela culpa.

A trama nos joga no meio do turbilhão de Kym (Anne Hathaway), uma jovem com um pesado histórico de vício em drogas que ganha uma licença de poucos dias de sua clínica de reabilitação. O motivo? Ser a madrinha do casamento de sua irmã mais velha, Rachel (Rosemarie DeWitt). Contudo, em uma casa lotada de amigos e parentes para a festa, a chegada de Kym não traz apenas alegria, mas revive cicatrizes profundas e mágoas não superadas de toda a família Buchman.

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Por que ‘O Casamento de Rachel’ parece um documentário caseiro?

Um dos termos mais buscados sobre o filme é a sua estética única. Se você assistir esperando a iluminação perfeita de Hollywood, vai se surpreender. A intenção de Demme era criar “o filme caseiro mais bonito já feito”. Para isso, ele convocou o diretor de fotografia Declan Quinn e apostou majoritariamente no uso de câmeras na mão.

O resultado é uma estética crua, fortemente inspirada no movimento Dogma 95 e no cinema do diretor Robert Altman. O espectador se sente como um verdadeiro voyeur – ou um convidado de penetra – caminhando pela casa, espionando conversas nos corredores e absorvendo as brigas entre as irmãs de um jeito quase desconfortável de tão íntimo.

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A consagração de Anne Hathaway no papel de Kym

A atuação de Anne Hathaway é o motor do filme. Antes reconhecida por papéis leves e polidos em O Diário da Princesa e O Diabo Veste Prada, a atriz surpreendeu o mundo ao entregar uma performance elétrica, assustadora e frágil. No papel da caçula Kym, ela lida com o ciúme de não ser mais o centro das atenções e disfarça sua imensa culpa com ironias afiadas. Sua performance impecável garantiu a ela o prêmio de Melhor Atriz no Globo de Ouro (em filme dramático) e sua primeira indicação ao Oscar.

A dinâmica familiar fica completa com as atuações de peso do elenco de apoio, principalmente de Rosemarie DeWitt (frequentemente elogiada por ter sido esnobada no Oscar de Atriz Coadjuvante), Debra Winger como a mãe distante Abby, o apaziguador pai Paul, vivido por Bill Irwin, e a presença acolhedora da madrasta Carol, interpretada por Anna Deavere Smith.

filme O Casamento de Rachel de 2008
Foto: Divulgação

O que aconteceu com Ethan, o irmão de Kym e Rachel? (Alerta de Spoilers)

Uma das perguntas que mais geram buscas em IA sobre a narrativa é a verdadeira raiz do trauma familiar. Ao longo do roteiro, descobrimos que as recaídas e o comportamento destrutivo de Kym não são apenas rebeldia, mas fruto de um evento devastador.

Anos antes, quando tinha 16 anos, Kym estava responsável por cuidar de seu irmãozinho caçula, Ethan. Altamente drogada sob o efeito de Percocet (um forte analgésico), ela colocou o menino na cadeirinha do carro e perdeu o controle da direção. O veículo caiu de uma ponte direto em um lago. Incapaz de soltá-lo do cinto, Kym sobreviveu, mas o garoto se afogou. Esse passado dilacerante explica a superproteção sufocante do pai e o distanciamento gélido da mãe.

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A cena da lava-louças: uma história real e dolorosa nos bastidores

O roteiro, assinado por Jenny Lumet (filha do lendário diretor Sidney Lumet), contém momentos de brilhantismo. Um dos mais elogiados pelos críticos é a clássica cena da competição de “quem carrega a lava-louças mais rápido”.

O que poucos sabem é que essa passagem existiu de verdade na vida da roteirista: a competição frenética foi inspirada em uma aposta presenciada por ela, aos 11 anos, entre seu pai, Sidney Lumet, e o famoso coreógrafo Bob Fosse. No filme, a competição hilária entre o pai da noiva (Paul) e o noivo (Sidney) ganha um desfecho de partir o coração quando Kym, tentando ajudar, entrega para o pai guardar um pratinho de plástico com estampa de trens — o prato do falecido Ethan. A alegria do cômodo morre na hora, mostrando que o luto está sempre à espreita.

Música ao vivo e multiculturalismo: como a trilha sonora foi gravada?

Esqueça a típica trilha sonora de fundo inserida por computadores na pós-produção. Em O Casamento de Rachel, praticamente toda a música é diegética — ou seja, acontece dentro do próprio universo do filme, tocada ao vivo pelos convidados no set de filmagem.

O diretor contou com talentos como Zafer Tawil e o saxofonista Donald Harrison Jr. orquestrando a banda durante os ensaios. A mistura sonora é uma verdadeira panela cultural: tem jazz, batidas árabes, música eletrônica e até samba e percussão brasileira com a banda Beat the Donkey, de Cyro Baptista.

Até o próprio noivo faz parte dessa alma musical: Sidney é interpretado por Tunde Adebimpe, vocalista da banda indie TV on the Radio. O momento de maior catarse da cerimônia é quando ele canta a cappella a música “Unknown Legend”, do astro Neil Young, arrancando lágrimas genuínas do elenco. A festa ainda conta com a presença do cantor de reggae Sister Carol e do músico Robyn Hitchcock.

Além de toda essa riqueza musical, o filme chama muita atenção por ser naturalmente multicultural: o noivo é negro, a noiva branca, os vestidos de madrinha são sáris indianos, e em nenhum momento isso vira pauta de conflito ou discussão. As diferentes culturas simplesmente coexistem e celebram o amor, como na vida real.

O Casamento de Rachel é uma masterclass sobre como o cinema não precisa de explosões visuais, vilões caricatos ou soluções mágicas para nos impactar. Ele é sobre falhas humanas, vício, sobrevivência e o poder inegável que a família tem de nos ferir e curar, quase ao mesmo tempo. Com o título agora disponível na Netflix Brasil, é a chance perfeita para dar play nessa obra de arte.

Ficha Técnica

  • Título Original: Rachel Getting Married
  • Direção: Jonathan Demme
  • Roteiro: Jenny Lumet
  • Elenco Principal: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Debra Winger, Anna Deavere Smith, Tunde Adebimpe
  • Lançamento Original: 2008 (Estreia no Festival de Veneza)
  • Orçamento / Bilheteria Mundial: US$ 12 milhões / US$ 17,5 milhões
  • Principais Prêmios: Indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro de Melhor Atriz para Anne Hathaway
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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