cineasta Luiz Carlos Barreto

Morre Luiz Carlos Barreto: conheça o grande legado do ‘Barretão’ para o cinema brasileiro

Foto: Divulgação
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Morreu nesta quarta-feira (22), no Rio de Janeiro, aos 98 anos, o cineasta, fotógrafo e produtor Luiz Carlos Barreto, conhecido carinhosamente por toda a comunidade artística e pelo público como Barretão. Um dos maiores e mais influentes nomes da história do audiovisual brasileiro, ele ajudou a redefinir radicalmente as formas de produzir, financiar e distribuir filmes no país ao longo de mais de seis décadas de dedicação contínua à arte.

Luiz Carlos Barreto estava internado no Hospital Copa Star, localizado em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele tratava uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia. De acordo com informações prestadas por sua filha, a produtora Paula Barreto, o estado de saúde do pai vinha se deteriorando gradativamente desde 2024, após sofrer uma queda durante uma viagem ao Ceará.

O velório do cineasta será realizado nesta quinta-feira (23), a partir das 11h, no Palácio da Cidade, em Botafogo. Após as homenagens e a despedida de familiares, amigos e admiradores, o corpo de Barretão será cremado no Memorial do Caju.

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“O cinema é uma coisa útil, e não uma coisa fútil.”

Luiz Carlos Barreto

Qual é o legado de Luiz Carlos Barreto para o cinema brasileiro?

Em nota oficial de pesar divulgada nesta quarta-feira, o Ministério da Cultura prestou sua homenagem ao produtor e ressaltou a dimensão histórica de sua obra:

“O Ministério da Cultura manifesta profundo pesar pelo falecimento do cineasta, fotógrafo e produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ocorrido nesta madrugada (22). Um dos mais importantes nomes da história do cinema brasileiro, Luiz Carlos Barreto dedicou mais de seis décadas ao audiovisual nacional.”

A nota do ministério complementa destacando sua atuação decisiva: “Ao lado de Lucy Barreto, fundou a LC Barreto, produtora responsável por algumas das obras mais marcantes do cinema nacional e pela projeção internacional da produção brasileira […] e contribuiu de forma decisiva para a consolidação da indústria cinematográfica brasileira.”

Ao lado de sua esposa, a produtora Lucy Barreto — com quem esteve casado por 71 anos —, ele fundou a LC Barreto (também registrada como L.C. Barreto Ltda.), empresa responsável por viabilizar mais de 150 produções, entre curtas e longas-metragens, garantindo a projeção do cinema feito no Brasil em festivais e mercados internacionais.

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Do jornalismo na revista O Cruzeiro ao encontro com Orson Welles

Nascido na cidade de Sobral, no Ceará, em 20 de maio de 1928, Luiz Carlos Barreto Borges mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro em 1947. Antes de escrever seu nome na história das telas grandes, graduou-se em Letras pela Universidade Sorbonne, em Paris, e construiu uma carreira marcante no jornalismo impresso.

Foi repórter e fotógrafo da prestigiada revista O Cruzeiro entre os anos 1950 e 1963. Atuando como correspondente da publicação na Europa nos anos de 1953 e 1954, cobriu eventos internacionais e fotografou personalidades mundiais como o cantor Frank Sinatra, o líder cubano Fidel Castro e a atriz Marilyn Monroe.

Sua fascinação pela imagem em movimento, porém, havia sido despertada muito tempo antes, ainda na infância. O primeiro contato de Barretão com o cinema ocorreu durante a visita do lendário diretor norte-americano Orson Welles (diretor de Cidadão Kane), que viajou ao Ceará para gravar um documentário sobre jangadeiros que iriam até Getúlio Vargas pedir a regulamentação da profissão.

“Eu nem sonhava, tinha 12 anos de idade. Eu ia tomar meu banho de mar e, daqui a pouco, chega aquela equipe de gringos e se instala ali. Eu fiquei olhando, encantado.”

Luiz Carlos Barreto, em entrevista ao programa Conversa com Bial.

Como Barretão revolucionou a estética do Cinema Novo?

O ingresso definitivo de Luiz Carlos Barreto no audiovisual aconteceu em 1961, quando trabalhou como coautor do roteiro e coprodutor do clássico O Assalto ao Trem Pagador (1962), dirigido por Roberto Farias — obra que alcançou enorme sucesso no Brasil e no exterior.

A transição para a direção de fotografia e o nascimento de sua parceria com o movimento do Cinema Novo ocorreu durante uma viagem de reportagem para a revista O Cruzeiro na Bahia. Na ocasião, conheceu Glauber Rocha durante as filmagens de Barravento.

Foi Glauber Rocha quem o convidou a assumir a câmera de Vidas Secas (1963), adaptação da obra de Graciliano Ramos dirigida por Nelson Pereira dos Santos. Em relato histórico, Barretão relembrou os bastidores do convite:

“O Glauber estava montando o Barravento com o Nelson Pereira dos Santos e chegou para mim: ‘Você tem que fotografar o Vidas Secas, não é, Nelson?’. ‘Vocês estão malucos, eu não sei fotografar a não ser com a minha Leica’.”

Luiz Carlos Barreto

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A insistência de Glauber Rocha abriu caminho para uma revolução visual na fotografia do cinema latino-americano. Barreto buscou fugir dos clichês estéticos para retratar o ambiente da seca com realismo:

“’Você vai fazer uma fotografia que ainda não foi feita no Nordeste. Todo filme, o Nordeste parece um jardim.’ Concordei com ele. ‘Eu quero mostrar a intensidade da luz, a luz como um personagem que destrói a plantação, que incomoda o homem’.”

Luiz Carlos Barreto

A partir dessa experiência, assinou a direção de fotografia de outro clássico do movimento: Terra em Transe (1967), obra-prima de Glauber Rocha. Além destas, esteve na produção de marcos como O Padre e a Moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade (exibido no Festival de Berlim), e Brazil Ano 2000 (1969), de Walter Lima Jr., agraciado com o Urso de Prata no Festival de Berlim de 1969.

🔎 O que foi o Cinema Novo?

O Cinema Novo foi um movimento cinematográfico brasileiro que surgiu no final dos anos 1950 e ganhou força nos anos 1960. Seu objetivo era mostrar a realidade social, política e econômica do Brasil, especialmente a pobreza e as desigualdades. Seu lema mais famoso era “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” — mostrando que, mesmo sem grandes recursos financeiros, era possível fazer filmes transformadores e de grande reflexão crítica.

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Quais foram os maiores sucessos de bilheteria e indicados ao Oscar da LC Barreto?

Consolidado como produtor, Barretão defendeu vigorosamente a tese de que era preciso “exportar o filme brasileiro para dentro do Brasil”, conquistando as salas de exibição no país.

À frente da LC Barreto, produziu um dos maiores sucessos de público da história do cinema nacional: Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976). Dirigido por seu filho Bruno Barreto, produzido por Lucy Barreto e estrelado por Sônia Braga, o filme bateu recordes de bilheteria e permaneceu por mais de três décadas como a produção brasileira mais vista nos cinemas. Outro fenômeno popular produzido pela casa foi Menino do Rio (1982), voltado para o público jovem.

Nas premiações internacionais, a família Barreto levou o Brasil duas vezes à disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro:

  • O Quatrilho (1995), dirigido por seu filho Fábio Barreto;
  • O Que É Isso, Companheiro? (1997), dirigido por seu filho Bruno Barreto.

A produtora também entregou obras históricas como Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade; Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues; e Memórias do Cárcere, adaptação de Graciliano Ramos dirigida por Nelson Pereira dos Santos.

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Família dedicada ao cinema, paixão pelo Flamengo e sonho olímpico

A trajetória de Luiz Carlos Barreto fundiu-se com a história de sua própria família. Seus três filhos com Lucy Barreto seguiram a carreira no audiovisual: Bruno Barreto e Fábio Barreto tornaram-se diretores, enquanto Paula Barreto formou-se em Comunicação Social e assumiu a produção. Uma tragédia marcou a família em 2019 com a morte de Fábio Barreto, falecido após passar 10 anos em coma devido a um acidente de carro ocorrido no Rio de Janeiro em 2009. Barretão deixa a esposa Lucy, 2 filhos vivos, 9 netos e 8 bisnetos.

O produtor costumava brincar sobre a dedicação da família à sétima arte:

“O cinema é uma doença que, quando dá, dá na família inteira. Eu costumo dizer que a minha é a ‘Família Titanic’: se não der certo, vai pro fundo.”

Luiz Carlos Barreto

Além da atuação no cinema, Barreto foi militante do Partido dos Trabalhadores (PT), leitor do pensador Antonio Gramsci, amigo próximo do poeta Mário Faustino e um dos sócios do Consórcio Brasil, que em parceria com a Globosat administra o Canal Brasil.

O apelido “Barretão” foi criado pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, seu amigo de vida e companheiro de estádio. Apaixonado pelo Clube de Regatas do Flamengo, Luiz Carlos quase foi atleta profissional na juventude:

“Eu era considerado craque. Era juvenil do Flamengo e fui convocado para a seleção que ia disputar a Olimpíada de Londres, em 1948. Éramos 30 atletas. Na época era o governo que financiava a delegação, e não tinha dinheiro para mandar todo mundo. Então fomos cortados, e eu perdi a minha oportunidade de ser um campeão olímpico.”

Luiz Carlos Barreto

Quem foi Luiz Carlos Barreto?

  • Nome completo: Luiz Carlos Barreto Borges
  • Nascimento: 20 de maio de 1928 (Sobral, Ceará)
  • Falecimento: 22 de julho de 2026 (Rio de Janeiro, RJ) — aos 98 anos
  • Causa da morte: Infecção pulmonar decorrente de pneumonia
  • Profissão: Fotojornalista, diretor de fotografia, roteirista e produtor cinematográfico
  • Cônjuge: Lucy Barreto (casados por 71 anos)
  • Filhos: Bruno Barreto, Fábio Barreto (in memoriam) e Paula Barreto
  • Reconhecimentos: Urso de Prata no Festival de Berlim (1969); 2 indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Destaques da LC Barreto, produtora do cineasta

  • O Assalto ao Trem Pagador (1962)
  • Vidas Secas (1963)
  • A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965)
  • O Padre e a Moça (1966)
  • Terra em Transe (1967)
  • Brazil Ano 2000 (1969)
  • Garrincha, Alegria do Povo
  • Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976)
  • Amor Bandido
  • Bye Bye Brasil (1979)
  • Menino do Rio (1982)
  • Índia, a Filha do Sol
  • Inocência
  • Memórias do Cárcere (1984)
  • Luzia Homem
  • Ele, o Boto
  • Romance da Empregada
  • O Quatrilho (1995)
  • O Que É Isso, Companheiro? (1997)
  • Bela Donna
  • Bossa Nova
  • 2000 Nordestes
  • A Paixão de Jacobina
  • O Caminho das Nuvens

Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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