Sabe aquele momento em que você acha que está vivendo o ápice de um romance de cinema, só para descobrir que a outra pessoa está lendo um roteiro completamente diferente? É exatamente nessa ferida dolorida e constrangedora que a diretora e roteirista Sophie Brooks decide cutucar em seu segundo longa, “Oi, Sumido!“.
O que começa com a promessa de ser mais uma daquelas comédias românticas indies fofas e aconchegantes rapidamente pisa no acelerador rumo ao caos absoluto, misturando humor ácido, um leve terror psicológico e verdades indigestas sobre como nos relacionamos hoje em dia. É um filme que te faz rir de nervoso, porque, no fundo, a situação é absurdamente real (tirando a parte do sequestro, claro).
Sinopse
Iris (Molly Gordon) e Isaac (Logan Lerman) parecem o casal perfeito nos primeiros meses de paixão. Eles estão a caminho de uma cabana isolada nas montanhas de Nova York para o primeiro fim de semana romântico juntos, cantando Dolly Parton no carro e exalando aquela química gostosa de início de namoro. O clima esquenta e eles decidem apimentar as coisas usando umas algemas que encontraram no chalé.
É aí, logo após o sexo e com Isaac ainda amarrado à cama, que a bomba cai: ele solta casualmente que não está procurando um relacionamento sério e que eles estão apenas “se divertindo”. Para Iris, que já estava apaixonada e crente de que eles eram exclusivos, o chão some. Em choque e se sentindo feita de trouxa, ela toma a decisão mais impulsiva e irracional possível: ela simplesmente se recusa a soltar Isaac das algemas até convencê-lo de que eles nasceram um para o outro.
Crítica do filme Oi, Sumido!
A desconstrução da “ex-namorada louca” e do “boy lixo”
Uma das coisas mais geniais de “Oi, Sumido!” é como o filme flerta descaradamente com filmes clássicos de suspense, como Louca Obsessão e Atração Fatal, mas subverte totalmente as expectativas. Nas décadas passadas, o cinema adorava retratar a mulher rejeitada como uma vilã histérica e puramente maluca. Aqui, Brooks usa esse estereótipo ao seu favor para criticar a própria mídia.
Iris age como uma louca? Sim. Mas nós entendemos a dor dela. A frustração de viver na era dos aplicativos de namoro, onde o afeto parece escasso e todo mundo tem pavor de compromisso, faz com que o surto dela, embora extremo, seja muito compreensível.
Por outro lado, o roteiro é inteligente o suficiente para não transformar Isaac no vilão caricato da história. Ele não estava fazendo “bombardeio de amor” de propósito para machucá-la; ele só estava sendo um cara legal que não percebeu que sua falta de clareza emocional estava dando sinais trocados. Nenhum dos dois é 100% inocente, e o filme não te obriga a escolher um lado, o que deixa a dinâmica muito mais rica.

Atuações que seguram a barra da insanidade
Se o filme funciona emocionalmente, é graças ao talento absurdo da dupla principal. Molly Gordon entrega uma performance que vai do doce ao caótico em questão de segundos. É impressionante como ela consegue te fazer sentir pena dela enquanto a personagem passa por um colapso nervoso digno de pena, mas sem nunca perder o charme.
Logan Lerman também tem uma tarefa ingrata: passar a maior parte do filme amarrado, pelado e com medo. Ainda assim, ele traz uma sinceridade e um carisma para Isaac que nos impede de odiá-lo. A química entre eles no início do filme é tão real que a traição de expectativas dói até em quem está assistindo.
Um terceiro ato que perde o tom
Apesar de uma premissa excelente e diálogos afiados, o filme dá umas tropeçadas quando tenta sair do conflito centrado apenas no casal. Quando Iris chama sua melhor amiga Max (Geraldine Viswanathan) e o namorado dela, Kenny (John Reynolds), para ajudarem a resolver o sequestro acidental, o tom da história muda drasticamente.
O que era um retrato incômodo e cru sobre falha de comunicação vira uma farsa meio pastelão, e isso quebra o ritmo. A diretora decide inserir uma subtrama de feitiçaria e poção de esquecimento da memória que, honestamente, parece ter vindo de outro filme.
Essas cenas absurdas não casam muito bem com o humor observacional e aterrador das cenas anteriores, e deixam a sensação de que a história daria um excelente curta-metragem, mas precisou de “enchimento” para virar um longa.
Conclusão
“Oi, Sumido!” passa longe de ser uma comédia romântica açucarada com final feliz. A própria diretora já confirmou que, depois de uma bagunça dessas, seria impossível Isaac e Iris terminarem juntos. E é justamente por não oferecer respostas fáceis que o filme se destaca.
Mesmo com uma reta final mais fraca e divagações que não funcionam tão bem, a obra entrega uma reflexão brutalmente honesta sobre as mentiras que contamos a nós mesmos em nome do amor e o desespero por conexão em tempos de relações líquidas. É o filme perfeito para assistir e debater depois — só talvez não seja a melhor escolha para ver no seu primeiro fim de semana viajando com o contatinho.
Elenco do filme Oi, Sumido! (2025)
- Molly Gordon
- Logan Lerman
- Geraldine Viswanathan
- John Reynolds
- David Cross


















