Quando a fronteira entre a segurança pública, o crime organizado e a espetacularização midiática se dissolve, o que resta ao cidadão comum é a perplexidade. Lançado com exclusividade no catálogo da HBO Max e na grade do canal Space, o longa-metragem brasileiro Território do Crime propõe um mergulho sem concessões nas estruturas paralelas que disputam o controle territorial no país.
Sob a batuta do cineasta Gustavo Bonafé, a obra constrói um thriller denso sobre os limites da lealdade e o preço da ambição.
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Uma cidade partida: a história e a premissa central de Território do Crime
A narrativa se desenvolve em um território fictício ambientado no Norte do Brasil, polarizado pela influência de dois irmãos biológicos que operam em vertentes opostas da criminalidade. De uma ponta está Gilvan, figura de vida dupla que atua como apresentador de um programa policial sensacionalista na televisão e, nos bastidores, lidera uma violenta milícia armada. Na outra ponta surge Dino, criminoso veterano que ascendeu na hierarquia marginal até assumir a chefia das rotas e pontos de distribuição do tráfico de drogas da região.
A aparente estabilidade entre as duas facções racha quando a milícia comandada por Gilvan decide invadir as comunidades sob a gestão do irmão, instaurando uma guerra declarada pelo controle das ruas e dos negócios ilícitos. Inserida nesse caldeirão está a policial Andreia, profissional idealista escalada para atuar na repressão ao crime organizado. Ao notar que as incursões policiais servem deliberadamente para desmantelar o tráfico e abrir caminho para a ocupação das milícias, a investigadora decide romper o pacto de silêncio institucional e descobrir quem verdadeiramente se beneficia do derramamento de sangue.
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Recriação do Norte do país e a riqueza dos sotaques
Apesar de a narrativa situar sua ambientação no Norte do Brasil, a produção optou por não nomear um município específico, buscando sintetizar um painel mais amplo das contradições urbanas brasileiras.
Por razões logísticas e conceituais, as gravações foram realizadas no estado de São Paulo, aproveitando cenários das cidades de Santos e São Paulo para conceber a atmosfera realista e degradada da cidade fictícia.
O idealizador e produtor do projeto, Lucas Vivo García Lagos, pontua as ambições sociopolíticas da obra:
“A ideia sempre foi ir além do óbvio do gênero policial. Queríamos trazer um olhar profundo e realista sobre as complexas engrenagens que movem a disputa pelo controle territorial no Brasil”.
Para além da ambientação visual, a autenticidade sonora foi um dos pilares da direção. A produtora executiva Eliane Ferreira explicou a escolha estética de manter as raízes orais dos intérpretes:
“O Gustavo Bonafé queria reproduzir uma atmosfera que lembrasse a região Norte, mas sem especificar uma cidade. Para isso buscamos locações em Santos e São Paulo. A riqueza de cenários das cidades permitiu que criássemos uma ambientação complexa com um nível de realismo alto. Elencamos atores de diversas regiões do país, e deixamos que cada um mantivesse o seu próprio sotaque. Tudo isso vai surpreender e atrair o público neste filme surpreendente”.
A realização reúne a produtora independente INTRO Pictures em coprodução com o canal por assinatura Space, distribuição da Warner Bros. Discovery e associação da The End.

Elenco e personagens de Território do Crime
O filme aposta em um elenco estelar que equilibra veteranos da teledramaturgia e expoentes do cinema contemporâneo:
Jackson Antunes como Dino
O experiente chefe do tráfico de drogas local, cuja trajetória criminosa esbarra no confronto direto contra o próprio sangue.
Eucir de Souza como Gilvan
O dissimulado comunicador televisivo que utiliza o microfone para manipular a opinião pública enquanto articula ações paramilitares criminosas.
Thais Lago como Andreia
A policial de conduta íntegra que se recusa a ser massa de manobra no esquema de corrupção corporativa.
Pedro Wagner como Elvis
Agente policial corrupto designado para monitorar Andreia, mas que desenvolve um arco dúbio de cumplicidade e sobrevivência.
Raphael Logam como Sodré
Primeiro parceiro de Andreia, cuja presença breve se torna o gatilho central para toda a investigação.
César Ferrario como Ferrolho
Integrante da milícia e executor impiedoso nos bastidores da corporação.
Claudio Jaborandy
O comandante corrupto que assegura a blindagem institucional das operações ilegais.
O elenco conta ainda com participações de Mayana Neiva (como Sibele), Marcos de Andrade (como Henrique), Michelle Caprioli (como Solange), Gabriel Knoxx (como Juninho), Monica Augusto (como Isabela) e Elizeu Tozi (como Rino).
Território do Crime é uma adaptação ou história real?
Apesar do realismo cortante de suas sequências, Território do Crime não é baseado em uma história real específica, tampouco adapta uma obra literária prévia. Trata-se de um roteiro concebido a partir de argumentos de Lucas Vivo García Lagos, escrito em conjunto com Gustavo Rademacher, José Magalhães, Gabrielle Siqueira, Rubens Marinelli e o próprio diretor Gustavo Bonafé.
Entretanto, o enredo funciona como uma crônica alegórica e direta dos escândalos que habitam o noticiário político e policial do Brasil recente. O entrelaçamento explícito entre mandatos políticos, estúdios televisivos sensacionalistas e forças paramilitares evoca diretamente a anatomia das milícias contemporâneas.
O filme faz referências nítidas a movimentos reacionários que utilizam a moralidade pública para encobrir negócios espusos. O uso irônico da alcunha de “Homens de Bem” para designar os milicianos estabelece um diálogo imediato com o jargão dos “cidadãos de bem” da extrema-direita nacional.
Do mesmo modo, as relações espúrias entre autoridades e bandos armados remetem ao histórico de homenagens prestadas por parlamentares a agentes corruptos — como as conexões da família Bolsonaro com milicianos condecorados.

O labirinto da corrupção: resumo da trama
A espiral de violência tem início durante uma incursão ostensiva em uma comunidade dominada pelo narcotráfico. Durante a ação, o policial Sodré, parceiro de Andreia, juntamente com o agente Ferrolho, rende um grupo de criminosos locais. Em vez de conduzi-los à delegacia, os policiais executam sumariamente os suspeitos desarmados. Temendo que Sodré hesite ou perca o controle sobre a narrativa da operação, Ferrolho assassina o próprio colega fardado a sangue frio. A morte de Sodré é então forjada perante a opinião pública e a corregedoria como um ato heroico de resistência diante de uma suposta reação armada dos traficantes.
Tomada pela dor e desconfiada das versões oficiais, Andreia jura descobrir a verdade sobre a morte do parceiro. Percebendo o risco iminente de uma apuração independente, a cúpula corrupta da polícia e os chefes milicianos decidem colocar o agente Elvis, sabidamente venal, ao seu lado. O propósito era duplo: controlar seus passos e, no momento oportuno, neutralizá-la.
Contudo, a convivência diária faz com que Elvis desenvolva uma afeição genuína pelo senso ético da nova colega. O policial decide abrir o jogo: confessa a Andreia que recebeu ordens expressas para assassiná-la, mas recusa-se a cumprir o contrato e passa a colaborar secretamente com a apuração. Paralelamente, os choques armados entre as milícias de Gilvan e os traficantes leais a Dino fogem ao controle, transformando as vielas da periferia em um rastro de carnificina mútua.
Final explicado do filme Território do Crime
O encontro dos irmãos e a execução no chão
Acossado pelas perdas territoriais e pelo cerco que se fecha, o miliciano Gilvan percebe que sua posição pública e financeira está em colapso e decide propor uma trégua desesperada com Dino. O encontro clandestino entre os dois irmãos, entretanto, é interrompido pela chegada surpresa de Andreia e Elvis.
Encurralado, Gilvan tenta atacar Andreia, mas a policial reage prontamente e o neutraliza com um disparo certeiro no ombro. Enquanto o apresentador miliciano jaz ferido e dominado sob a mira da investigadora, Dino surge empunhando sua arma. Para surpresa de todos, o alvo do traficante não é a policial, mas seu próprio irmão. Sentenciando friamente a quebra definitiva dos laços consanguíneos com a frase “Eu não tenho irmão”, Dino dispara e executa Gilvan ali mesmo.
Em seguida, o chefe do tráfico sinaliza que deixará o armamento de lado, afirmando que abandonará a cidade e a vida do crime para sempre. Quando Dino vira as costas para partir e ignora a ordem de parada dada por Andreia, Elvis saca sua pistola e o alveja mortalmente pelas costas. O ato de Elvis não tem qualquer relação com o cumprimento do dever policial: trata-se da eliminação metódica da última testemunha viva capaz de ligar a corporação ao submundo.
Ao contemplar os cadáveres dos dois irmãos estirados, Elvis ironiza a hipocrisia das condecorações da segurança pública com a frase: “Provavelmente a gente vai receber uma medalha”. O diálogo ecoa a entrega real da Medalha Tiradentes promovida no passado por Flávio Bolsonaro ao miliciano Adriano da Nóbrega na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A tomada final e o significado da resistência de Andreia
A trama recusa o conforto moral de uma redenção institucional. Na sequência de encerramento, vemos que Elvis, longe de responder pelos crimes cometidos, é promovido dentro da engrenagem do crime fardado, assumindo um posto de liderança nas negociações diretas entre milicianos e novos bandos da região.
Do alto de um ponto estratégico, porém, surge Andreia empunhando uma câmera fotográfica. Ao registrar detalhadamente as reuniões clandestinas do ex-parceiro com os criminosos, a policial encerra a obra com uma declaração contundente: “Agora a guerra é minha”. A obra não possui cenas pós-créditos, encerrando-se na sobriedade de sua mensagem principal.
Território do Crime 2: filme vai ter continuação? O futuro da guerra de Andreia
A declaração final de Andreia escancara as portas conceituais e narrativas para uma sequência. O encerramento em aberto transforma o arco da personagem em uma caçada solitária contra a milícia agora capitaneada por Elvis.
No entanto, a realização de um eventual segundo filme não possui confirmação oficial imediata por parte da Warner Bros. Discovery ou da INTRO Pictures. A viabilização de uma continuação depende fundamentalmente do desempenho de audiência, engajamento e retenção conquistados por Território do Crime nas semanas seguintes à sua chegada à plataforma de streaming da HBO Max.
Crítica do filme Território do Crime (2026)
A potência do elenco e a sufocante atmosfera claustrofóbica
Ao encarar Território do Crime, deparo-me com uma produção que exibe excelentes intenções sociais e uma musculatura técnica admirável. A direção de Gustavo Bonafé, alinhada à direção de fotografia de Luciana Baseggio, impressiona pela condução das tomadas de perseguição nas vielas estreitas da comunidade. A escolha por enquadramentos fechados e cortes secos provoca no espectador uma incômoda e bem-vinda sensação de claustrofobia.
Contudo, é no trabalho de seu trio de protagonistas que o longa encontra seu alicerce dramático mais consistente. Eucir de Souza constrói um Gilvan repulsivo e verossímil, cuja empáfia nos estúdios dialoga de forma muito próxima com escândalos verídicos, lembrando de imediato a série documental Bandidos na TV, da Netflix. Contrapondo essa energia, Jackson Antunes confere ao traficante Dino uma contenção cansada, transformando o arquétipo do criminoso em uma figura trágica.
Também salta aos olhos a presença magnética de Thais Lago, que imprime à policial Andreia uma firmeza moral distante da ingenuidade tola. Entre os coadjuvantes, celebro a precisão de Claudio Jaborandy no papel do superior carcomido pelo corporativismo e o trabalho multifacetado de Pedro Wagner, cujo personagem equilibra com perfeição o cinismo do policial corrupto e o afeto protetor que dedica à colega. Merece menção honrosa Raphael Logam: embora desfrute de escasso tempo em cena, o ator atua como a espinha dorsal de todo o conflito que move a trama.
A armadilha do didatismo e o peso das frases de efeito
Se as atuações e a atmosfera elevam o nível do projeto, o desenvolvimento narrativo peca por tropeçar em conveniências dramáticas excessivas. O roteiro muitas vezes subestima a capacidade dedutiva do público ao entregar diálogos excessivamente mastigados e repletos de frases de efeito que diminuem o impacto das situações de perigo.
A denúncia das contradições do discurso conservador — personificada na denominação do esquadrão miliciano como “Homens de Bem” — é uma sacada pertinente, mas a condução do texto a escancara de forma tão evidente que o subtexto perde a sutileza. Ainda assim, quando pondero as concessões comerciais da fórmula, considero que a contundência da mensagem contra a ascensão das milícias e a excelência de seu elenco fazem de Território do Crime uma obra cinematográfica necessária e envolvente.
Onde assistir ao filme Território do Crime?
O espectador tem à disposição duas opções principais para conferir o filme:
Streaming (HBO Max / UOL Play): o filme entrou no catálogo da HBO Max a partir do dia 12 de outubro de 2026, estando acessível tanto pelo aplicativo oficial da plataforma quanto pela integração sob demanda para assinantes do UOL Play.
Televisão por assinatura (Space): a exibição linear oficial ocorreu na mesma segunda-feira, 12 de outubro de 2026, na faixa das 22h30, na grade do canal por assinatura Space.
Trailer do filme Território do Crime (2026)
Ficha técnica
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título original | Território do Crime |
| Ano de lançamento | 2026 |
| Duração | 1h 36min (aproximadamente 100 minutos) |
| País de origem | Brasil |
| Gênero | Policial, Ação, Drama, Suspense |
| Direção | Gustavo Bonafé |
| Ideia original | Lucas Vivo García Lagos |
| Roteiro | Lucas Vivo García Lagos, Gustavo Rademacher, José Magalhães, Gabrielle Siqueira, Rubens Marinelli e Gustavo Bonafé |
| Produção executiva | Eliane Ferreira, Diana Almeida, Ana Yumi Barradas, Gabriela Pimentel e Daniela Conde |
| Produtores | Simoni de Mendonça, Lucas Vivo García Lagos e Eliane Ferreira |
| Empresas produtoras | INTRO Pictures, canal Space (coprodução) e The End (produção associada) |
| Distribuição | Warner Bros. Discovery |
| Direção de fotografia | Luciana Baseggio (ABC, DAFB) |
| Direção de arte | Maíra Suzuki |
| Montagem | Lucas Fazzio |
| Trilha sonora e supervisão | Amabis |
| Elenco principal | Jackson Antunes, Eucir de Souza, Thais Lago, Pedro Wagner, Raphael Logam, César Ferrario, Claudio Jaborandy, Mayana Neiva, Gabriel Knoxx, Marcos de Andrade, Michelle Caprioli, Monica Augusto e Elizeu Tozi |
| Classificação indicativa | Não recomendado para menores de 16 anos (A16) |
| Onde assistir | HBO Max, canal Space e UOL Play |














