Um Pouco de Esperança Kami nour crítica do filme Mostra de São Paulo SP 2026

‘Um Pouco de Esperança’ prova que a gentileza ainda é o maior ato de resistência no cinema

Foto: Divulgação
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A realidade é que desconhecemos o que ocorre no âmbito doméstico alheio e até mesmo no pensamento do próximo. No filme Um Pouco de Esperança (A Bit Of Light / Kami Nour), somos levados a refletir que essa limitação se estende a realidades de outros países.

A narrativa acompanha Arash, médico iraniano que, após uma prisão injusta e a perda da clínica e do registro profissional, é acometido por um profundo desânimo. Com a intenção de pôr fim à própria vida, ele planeja um último dia para se despedir dos irmãos e da mãe idosa. Contudo, o contato com o afeto, os cuidados e o cotidiano familiar o leva a reconsiderar sua decisão.

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Crítica do filme Um Pouco de Esperança (2026)

É difícil expressar o impacto emocional deixado pelo filme. Embora a reflexão sobre a morte seja desafiadora para a maioria das pessoas, a iminência do suicídio é apresentada com clareza, e a obra nos permite compreender essa experiência.

Frequentemente, o tema é abordado sem a transparência e a delicadeza aqui observadas. No início, Arash enxerga um beco sem saída, e sua convicção é questionada quando o irmão o confronta. Até então, sua preocupação se limita à gata e às plantas.

Cada integrante da família, três irmãos e a mãe, receberia um fragmento de seu legado. O irmão ficaria com a gata, embora sem experiência para cuidar dela, a mãe e as irmãs herdariam as plantas.

Em uma análise abrangente, observa-se que o apartamento de Arash transbordava vitalidade, sua intenção de se desfazer dessa energia, sem abandono, não é puramente egoísta, mas reflete o desespero decorrente dos eventos recentes.

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Um road movie sutil

Ao empreender a jornada de entregar seus pertences, Arash enfrenta obstáculos inesperados. Seu plano de autodestruição transforma-se em uma odisseia marcada por diálogos extensos, pelo apoio de seus pacientes e até pela intervenção do serviço secreto iraniano.

Embora o tema possa sugerir uma obra densa, carregada de melancolia ou depressão, o tom predominante é o da comédia. Embora a narrativa possa evocar filmes como A Vida é Bela, ela não é trágica; o roteiro transborda reflexões sobre a humanidade.

Cada pausa no ritmo permite uma contemplação mais profunda do passado, reforçando que nem todo fim é absoluto. A fotografia assume papel central: grande parte dos planos longos adota uma estética diurna e luminosa, enquanto o protagonista permanece nas sombras. Com o avanço do tempo e a chegada da noite, todos os personagens passam a ser iluminados.

Em um momento marcante, Arash assiste a uma peça teatral de seu sobrinho, cujo tema é o adeus à mãe. A obra é interativa e convida o espectador à participação; a cena é tão reflexiva que gera a sensação de iminente envolvimento, deixando o público em dúvida sobre como responder ao apelo de uma mãe desesperada que implora para que o filho não a abandone.

Afinal, despedir-se é um desafio universal, independentemente de se tratar de morte ou de separação em vida.

Gentileza gera gentileza

Ao longo da trajetória, compreende-se que o dom de Arash para a medicina não deriva de uma competência técnica superior, como um “Dr. House persa”, mas de sua gentileza intrínseca. Essa virtude o acompanha de forma espontânea, sem expectativa de retribuição.

Talvez a luz que se apaga no indivíduo, privando-o de esperança, encontre eco em outras pessoas, que se iluminam à medida que cada ação se concretiza.

O protagonista não é egoísta, como frequentemente se supõe em relação àqueles que tiram a própria vida; ele demonstra preocupação com o próximo e com todos ao seu redor, figurando como um dos personagens mais benevolentes já retratados no cinema.

Essa parece ser a mensagem mais inspiradora do filme, oferecendo um alento necessário em meio à abundância de produções sobre guerra e heróis salvadores do mundo. Trata-se de uma pessoa comum que busca fazer o bem em um cenário pragmático e marcado por conflitos reais, presentes não apenas em locais distantes, mas em todo o planeta.

Onde assistir ao filme Um Pouco de Esperança?

Para os interessados, a obra será exibida na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, de 15 a 29 de outubro. Informações detalhadas podem ser consultadas no site e no aplicativo oficiais do evento.

Trailer do filme Um Pouco de Esperança (2026)

YouTube player

Ficha técnica

CategoriaDetalhes
DireçãoAli Asgari
RoteiroAli Asgari, Shadmehr Rastin
FotografiaIman Tahsin
MontagemIman Tahsin
Desenho de SomVahid Moghadasi
MúsicaNavid Divan
ElencoMisagh Zareh, Sadaf Asgari, Forouzan Jamshidnejad, Ramtin Daghigh, Mina Rahimzadeh
ProduçãoMilad Khosravi, Afshin Salamian, Sholeh Alemi Fabbri, Lorenzo Cioffi, Giorgio Gampà, Francesco Melzi d’Eril, Gabriele Moratti, Sara Nasrabadi
Produzido porSeven Springs Pictures, Sunny Independent Pictures, Good Measure Productions, Zoe Films, HAURVATAT Film, MeMo Films, Salt For Sugar Films
DistribuiçãoImovision
World SalesSalaud Morisset
Contatofilm.festival@salaudmorisset.com
Escrito por
Elros Rocha

Radialista, comunicador e editor de imagens. Um vampiro baiano que vive em São Paulo e ama cinema como nenhuma outra pessoa já amou. Gosto do simples quando se trata da sétima arte e não me contento em apenas gostar de Shrek 2, preciso defendê-lo com unhas e dentes, literalmente, se for preciso.

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