Quatro anos após encantar o público e a crítica com o aclamado Marte Um, o cineasta mineiro Gabriel Martins retorna às telas com uma obra ainda mais densa, corajosa e profunda. Produzido pela Filmes de Plástico em parceria com a Netflix, o longa-metragem Vicentina Pede Desculpas consolida o diretor como um dos nomes mais expressivos do audiovisual contemporâneo.
Consagrado no Festival do Rio 2026 — onde conquistou o Troféu Redentor de Melhor Filme pelo júri popular, Melhor Direção e Melhor Roteiro —, além de ter sido exibido nos prestigiados festivais internacionais de Toronto e San Sebastián, o filme coloca no centro dos holofotes a monumental atuação da atriz Rejane Faria. Em uma narrativa que recusa respostas fáceis, o público é convidado a acompanhar a jornada de uma mulher que decide carregar nos ombros o fardo da expiação em nome de seu filho.
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A história de Vicentina e a busca pelo perdão
A trama de Vicentina Pede Desculpas tem início em uma manhã comum na capital mineira. Um ônibus urbano lotado cruza um viaduto em Belo Horizonte quando, de forma repentina e violenta, desvia da pista e despenca sobre a avenida inferior. O trágico acidente resulta na morte do motorista e de quase todos os passageiros, deixando apenas um sobrevivente em estado grave.
O condutor do veículo era Wesley, interpretado por Renato Novaes, filho de Vicentina, uma professora aposentada de 75 anos vivida por Rejane Faria. Conforme as investigações avançam e as imagens das câmeras de segurança ganham espaço nos noticiários e programas policiais sensacionalistas, começam a surgir fortes especulações de que a queda do coletivo não teria sido um mero defeito mecânico, mas sim um ato intencional de suicídio.
Aterrorizada pela dúvida e devastada pela dor da perda, a protagonista é tomada por uma sufocante sensação de responsabilidade materna. Movida pela inquietação moral de quem se questiona se falhou na criação do filho, a idosa, que caminha lentamente com o auxílio de uma bengala, decide buscar o contato das famílias de cada uma das vítimas. Sua intenção é bater de porta em porta para pedir desculpas em nome do rapaz e tentar encontrar algum sentido em meio aos escombros da tragédia.
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Crítica do filme Vicentina Pede Desculpas
A força do luto e a dor da culpa
O grande mérito de Gabriel Martins em Vicentina Pede Desculpas reside em sua capacidade de abordar um drama profundamente íntimo sem perder de vista o contexto social e coletivo.
O filme não busca solucionar o mistério por trás do acidente nem emitir um julgamento definitivo sobre a conduta de Wesley. Em vez disso, o roteiro concentra suas energias na observação das reações humanas diante da perda irreparable.
A atuação avassaladora de Rejane Faria
Se o filme se sustenta com tamanha potência ao longo de seus 148 minutos, isso se deve em grande parte ao trabalho de Rejane Faria. A atriz mineira, que já havia brilhado em trabalhos como Temporada, Marte Um e Cinco Tipos de Medo, entrega aqui a atuação mais impressionante de sua carreira.
Aos 60 anos de idade na vida real, a artista encarna uma mulher de 75 anos com uma precisão corporal e emocional hipnotizante. O envelhecimento da personagem não se apoia apenas em caracterização visual ou maquiagem, mas se manifesta no caminhar pesado, na hesitação da fala, no olhar marejado e na rigidez dos ombros.
Rejane Faria constrói Vicentina com contenção e dignidade, evitando qualquer traço de caricatura da idosa vulnerável e oferecendo uma personagem complexa, teimosa e profundamente humana.

Entre a repetição da dor e a ternura das relações
A estrutura narrativa do longa se organiza como uma peregrinação em que a protagonista visita familiares das vítimas do acidente em diferentes pontos de Belo Horizonte. Naturalmente, essa dinâmica de encontros sucessivos carrega um tom repetitivo, já que a motivação da visita é sempre a mesma. No entanto, o filme encontra seu frescor na diversidade de reações que o pedido de desculpas provoca.
Enquanto alguns enlutados acolhem a idosa com chá, calma e empatia — reconhecendo que a mãe não deve pagar pelos atos do filho —, outros reagens com indignação, fúria ou frieza. Há também momentos de respiro cômico proporcionados por Joana, a expansiva vizinha e melhor amiga de Vicentina, interpretada por Maíra Azevedo (a Tia Má). A cumplicidade entre as duas atrizes injeta uma necessária dose de afeto e vitalidade em meio à atmosfera melancólica da obra.
Estética visual, som e ambientação em Belo Horizonte
Tecnicamente, Vicentina Pede Desculpas exibe um rigor formal notável. A direção de fotografia de Leonardo Feliciano explora os contrastes entre as casas populares da periferia e a frieza dos bairros nobres da capital mineira, tratando a geografia urbana como uma extensão do estado de espírito dos personagens.
A trilha sonora composta pelo baiano Tiganá Santana atua com sobriedade, complementando o desenho de som minucioso assinado por Tiago Bello e Gustavo Fioravante. A inclusão da clássica canção Tocando em Frente, de Renato Teixeira e Almir Sater, logo no início do filme, estabelece um instigante contraponto entre o lirismo da vida cotidiana e a imprevisibilidade do destino.
Inspiração real ou ficção: de onde surgiu a ideia do filme?
Embora Vicentina Pede Desculpas apresente um realismo quase documental, o filme não é a adaptação direta de uma história real específica ou de uma biografia. Trata-se de uma ficção original concebida por Gabriel Martins, cujo desenvolvimento levou mais de dez anos.
Apesar de ser uma narrativa ficcional, a trama foi fertilizada por acontecimentos marcantes e reflexões pessoais do cineasta:
- O acidente do Voo Germanwings 9525 (2015): A tragédia aérea na qual o copiloto derrubou deliberadamente um avião contra os Alpes franceses fez o diretor refletir sobre o peso carregado pelos familiares de alguém acusado de provocar uma catástrofe coletiva.
- O documentário Ônibus 174: A imagem da mãe de Sandro Barbosa do Nascimento, o sequestrador do ônibus no Rio de Janeiro, velando o filho completamente sozinha diante do caixão, deixou uma marca profunda no imaginário do realizador sobre a solidão materna.
- Vivências no transporte público: Como morador da Região Metropolitana de Belo Horizonte e de Contagem, Gabriel Martins passou anos utilizando ônibus urbanos, observando as dinâmicas de conexão e afastamento entre trabalhadores e passageiros.
- Homenagem familiar: O nome da protagonista foi inspirado na avó paterna do diretor, Vicentina, cujo falecimento quando ele tinha apenas 12 anos representou o seu primeiro contato marcante com a morte e o luto.

Bastidores surpreendentes e os desafios de produção
A realização de Vicentina Pede Desculpas marcou um passo inédito para a Filmes de Plástico. Conhecida por produções independentes de menor porte, a produtora mineira firmou uma parceria de coprodução com a Netflix para viabilizar um projeto de maior escala.
Entre os momentos de destaque dos bastidores, destaca-se a filmagem da cena do acidente. Para registrar a queda do ônibus de forma realista, a produção optou por utilizar efeitos práticos em vez de computação gráfica, o que exigiu uma complexa operação de interdição de viadutos e vias urbanas em Belo Horizonte.
Em entrevista e debates promovidos antes da estreia, o diretor Gabriel Martins garantiu que, apesar do investimento e do suporte da gigante do streaming, manteve total liberdade criativa. O cineasta chegou a declarar que o roteiro do filme representa “um insulto ao algoritmo”, por recusar fórmulas prontas de entretenimento rápido e apostar em um ritmo contemplativo focado no drama humano.
Elenco plural e atuações marcantes
Além do show de atuação de Rejane Faria, o filme reúne uma galeria de talentos que reforça o compromisso da Filmes de Plástico com a diversidade e a representatividade no cinema nacional:
- Rejane Faria como Vicentina
- Maíra Azevedo (Tia Má) como Joana
- Renato Novaes como Wesley / Bruno (interpretando os dois filhos da protagonista)
- Giovanna Heliodoro como Gisele
- Grace Passô como Isabel
- Flávio Bauraqui como Luiz
- Giovanni Venturini como Fred
- Thalma de Freitas como Cleide
- Karine Teles em participação especial
- Bárbara Colen como Amélia
- Carlos Francisco como Antônio
- Fábio Leal como Victor
- Fernanda Vianna como Marta
- Clébia Sousa como Solange
- Marisa Revert como Vera
- Docy Moreira como Marluce
- Apresentando Miguelzinho do Cavaco como ele mesmo
Onde assistir ao filme Vicentina Pede Desculpas
O público brasileiro conta com duas opções para conferir o novo longa-metragem de Gabriel Martins:
- Cinemas: O filme estreou em salas selecionadas de diversas capitais brasileiras (como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e Brasília) em 5 de novembro de 2026, com distribuição da Malute.
- Streaming: Para quem prefere assistir em casa, Vicentina Pede Desculpas chega ao catálogo global da Netflix no dia 20 de novembro de 2026, com lançamento simultâneo em mais de 190 países.
Trailer do filme Vicentina Pede Desculpas
Ficha técnica
| Informação | Detalhe |
|---|---|
| Título original | Vicentina Pede Desculpas |
| Direção | Gabriel Martins |
| Roteiro e História Original | Gabriel Martins |
| Elenco principal | Rejane Faria, Maíra Azevedo, Renato Novaes, Giovanna Heliodoro, Grace Passô, Flávio Bauraqui, Giovanni Venturini, Thalma de Freitas, Karine Teles, Bárbara Colen, Carlos Francisco |
| Produção | Thiago Macêdo Correia, Matheus Gyordano |
| Companhia produtora | Filmes de Plástico |
| Distribuição | Netflix / Malute |
| Direção de fotografia | Leonardo Feliciano |
| Montagem | Gabriel Martins, Thiago Ricarte |
| Trilha sonora | Tiganá Santana |
| Edição e mixagem de som | Tiago Bello |
| País de origem | Brasil |
| Idioma original | Português |
| Ano de lançamento | 2026 |
| Duração | 148 minutos (2h28min) |
| Classificação indicativa | 12 anos |
| Principais prêmios | Festival do Rio 2026 (Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Direção, Melhor Roteiro); Indicado do Brasil ao Prêmio Goya 2027 |

















