O cinema de animação brasileiro vive um momento histórico de afirmação e maturidade. Com a chegada de Ana, en Passant às salas de exibição, o público é convidado a testemunhar um marco transformador: o primeiro longa-metragem animado dirigido por uma cineasta negra a receber lançamento comercial nos cinemas do país. Sob a direção refinada da mineira Fernanda Salgado, o longa se distancia das fórmulas padronizadas dos grandes estúdios para construir uma narrativa intimista, sensorial e profundamente conectada com as noções de pertencimento, luto e identidade.
Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, premiado com o Prêmio Zózimo Bulbul no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e aclamado com o prêmio do público na mostra Vanguard do Festival Internacional de Cinema de Vancouver, a obra sintetiza mais de uma década de pesquisa e dedicação artística. O resultado é um filme comovente sobre os laços invisíveis que conectam diferentes gerações de mulheres negras.
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A história de Ana, en Passant
A trama tem início em Paris, onde a jovem franco-brasileira Ana viveu cercada pelo afeto de sua avó Alice. Com o falecimento da matriarca, Ana se vê desorientada pelo luto e pela sensação de incompletude cultural. Entre os pertences deixados pela avó, a jovem encontra uma caixa enigmática contendo uma carta, fotos, objetos pessoais, duas chaves e um endereço em Belo Horizonte.
Movida pelo desejo de desvendar o passado familiar, Ana viaja para a capital mineira. Ao chegar ao apartamento indicado, depara-se com Alice, uma dançarina grávida em repouso por conta de uma gestação de risco. Espantosamente parecidas no rosto e nos trejeitos, as duas jovens passam a dividir o espaço e o tempo. A convivência transforma o imóvel em um território de trocas afetivas, no qual o mapeamento das memórias da avó se entrelaça com a busca de ambas pelo sentido de suas próprias existências.
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Crítica detalhada do filme
Experiência estética e linguagem visual
A riqueza técnica entre a rotoscopia e a colagem artesanal
O grande diferencial de Ana, en Passant reside em sua ambiciosa concepção estética. Sob a direção de animação de Camila Kater e a direção de arte de Marcella Tamayo, o filme combina múltiplos estilos visuais sem perder a coerência poética. A base da obra é a rotoscopia, técnica em que os movimentos dos atores reais — gravados durante quatro semanas no Polo de Cinema de Cataguases — são desenhados quadro a quadro. Esse recurso preserva a expressividade e a humanidade do elenco, conferindo um tom quase hipnótico ao caminhar e aos gestos dos personagens.
Ao redor das figuras rotoscopadas, o filme constrói cenários tridimensionais e táteis por meio de colagens, desenhos manuais em 2D, pinturas em vidro, aquarela e stop-motion. A cidade de Belo Horizonte ganha contornos de uma verdadeira “cartografia afetiva”, em que envelopes, selos e texturas de papelão ganham vida na tela. Há ainda o uso experimental de animação termossensível em papéis especiais. Essa mistura de texturas analógicas e digitais reflete a própria natureza da memória: incompleta, sobreposta e em contínua reconstrução.

Atuações de voz e presença cênica
A sensibilidade do elenco e o brilho de Jéssica Pierina, Zezé Motta e Carlos Francisco
A entrega do elenco vocal é um dos pontos altos da produção. A atriz Jéssica Pierina realiza um trabalho brilhante ao dar voz tanto à protagonista Ana quanto à jovem Alice. Essa escolha reforça a atmosfera do realismo mágico, sugerindo que as duas personagens podem ser manifestações complementares de uma mesma jornada de autodescoberta. Pierina imprime a cada uma delas nuances emocionais distintas, transitando com fluidez entre a melancolia de quem busca suas raízes e as incertezas de quem se prepara para a maternidade.
A presença da veterana Zezé Motta, dando voz à falecida avó Alice, traz um peso ancestral inestimável ao projeto. Cada intervenção de Zezé Motta carrega sabedoria e acolhimento. Já o consagrado ator mineiro Carlos Francisco interpreta o carteiro André, uma figura carismática que atua como guardião da memória do bairro e elo entre o passado e o presente. Carlos Francisco empresta ao seu personagem um calor humano singular, funcionando como um guia afetuoso para a caminhada de Ana.

Atmosfera sonora e ritmo narrativo
A trilha do Metá Metá e o tempo da contemplação
A identidade sonora de Ana, en Passant é refinada pela trilha sonora original assinada pelo trio paulistano Metá Metá, composto por Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França. Com arranjos que mesclam jazz, ritmos afro-brasileiros e sonoridades experimentais, a música atua como uma extensão dos sentimentos de Ana. O desenho de som assinado por Vitor Coroa valoriza os silêncios, os ruídos da cidade e a respiração das personagens, criando um ambiente imersivo.
Narrativamente, a diretora Fernanda Salgado faz uma opção clara pelo ritmo contemplativo. O filme recusa os conflitos artificiais e a velocidade acelerada comum ao cinema comercial de animação, preferindo se deter nos olhares, na dança corporal e nas conversas cotidianas. Embora essa cadência pausada possa soar um pouco arrastada no terço central para espectadores acostumados a tramas mais dinâmicas, a escolha reforça a proposta do filme de convidar o público à reflexão e à apreciação dos detalhes sutis da vida.
Onde assistir ao filme a Ana, en Passant
Com distribuição da Embaúba Filmes, empresa especializada em difusão do cinema autoral brasileiro, Ana, en Passant chega oficialmente aos cinemas brasileiros em 5 de novembro de 2026.
A coprodução internacional entre o estúdio mineiro Apiário Estúdio Criativo, a produtora portuguesa Sardinha em Lata e a francesa Midralgar conta ainda com vendas internacionais pela Miyu Distribution, garantindo a presença do longa em salas e festivais ao redor do mundo.
Ficha técnica
| Parâmetro | Detalhe |
|---|---|
| Título Original | Ana, en Passant |
| Ano de Lançamento | 2026 |
| Duração | 90 minutos (1h30) |
| Países de Origem | Brasil, Portugal, França |
| Gênero | Animação, Drama |
| Classificação Indicativa | 10 anos |
| Direção e Roteiro | Fernanda Salgado |
| Direção de Animação | Camila Kater |
| Direção de Arte | Marcella Tamayo |
| Fotografia | Safira Moreira |
| Montagem | Paula Santos |
| Trilha Sonora Original | Metá Metá (Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Thiago França) |
| Elenco de Vozes | Jéssica Pierina, Zezé Motta, Carlos Francisco, FLIP, Odilon Esteves, Felipe Oládélè |
| Produtoras | Apiário Estúdio Criativo, Sardinha em Lata, Midralgar |
| Distribuição Nacional | Embaúba Filmes |











