Crítica do documentário 'Apocalipse nos Trópicos', filme da Netflix - Flixlândia

‘Apocalipse nos Trópicos’ e a crônica de uma teocracia anunciada

Foto: Netflix / Divulgação
Compartilhe

Se Democracia em Vertigem foi o atestado de um Brasil em convulsão, uma espécie de recibo para um país que já vivia no olho do furacão, “Apocalipse nos Trópicos”, que chegou recentemente ao catálogo da Netflix, representa um passo adiante, mais corajoso e investigativo, na filmografia de Petra Costa.

A cineasta abandona a postura de resumo dos acontecimentos para mergulhar nas raízes culturais e religiosas que nutriram a crise política brasileira. O resultado é um documentário que troca a repetição indignada pela pergunta incômoda, focando na complexa e explosiva relação entre a fé cristã e o poder, uma força tectônica que redefiniu o cenário nacional na última década.

➡️Frete grátis e rápido! Confira o festival de ofertas e promoções com até 80% OFF para tudo o que você precisa: TVs, celulares, livros, roupas, calçados e muito mais! Economize já com descontos imperdíveis!

Sinopse

“Apocalipse nos Trópicos” investiga a ascensão do neopentecostalismo como força política dominante no Brasil. Partindo de um encontro revelador com o Cabo Daciolo no Congresso em 2016, Petra Costa inicia uma jornada para compreender como a fé se tornou um instrumento para um projeto de poder conservador.

O documentário elege o pastor Silas Malafaia como seu protagonista e fio condutor, obtendo um acesso privilegiado que permite mapear a ideologia, as estratégias e as ambições do movimento.

Através de entrevistas com figuras como o ex-presidente Lula, um vasto material de arquivo e a narração subjetiva que é sua marca registrada, Costa explora as origens dessa aliança, incluindo a influência norte-americana, e os seus efeitos devastadores sobre a laicidade do Estado.

➡️Acompanhe o Flixlândia no Google Notícias e fique por dentro do mundo dos filmes e séries do streaming

Crítica

A principal virtude de “Apocalipse nos Trópicos” reside na sua mudança de abordagem em relação ao seu antecessor. Enquanto Democracia em Vertigem parecia satisfeito em narrar o que muitos já sabiam, este novo filme é movido por uma “missão e uma curiosidade”.

Petra Costa não se contenta em apontar o sintoma; ela busca o patógeno. A escolha de Silas Malafaia como figura central é um acerto estratégico. Ele é o para-raios da tempestade, e ao dar-lhe voz, o filme permite que o arquiteto do projeto revele seus próprios planos.

As entrevistas com Lula, por exemplo, são notavelmente diferentes das que se viam no filme de 2019. Aqui, há uma pauta clara: investigar, direto na fonte, como as regras do jogo político e religioso mudaram, transformando o que era um cinema de constatação em um cinema de investigação.

➡️‘Alguém Especial Como Você’ e o amor nos tempos do algoritmo
➡️‘Os Bad Boas’: patrulha de clichês em um filme esquecível
➡️‘Brick’ é uma boa ideia aprisionada em um roteiro frágil

Cena do documentário 'Apocalipse nos Trópicos', filme da Netflix - Flixlândia (1)
Cena do documentário ‘Apocalipse nos Trópicos’, que está em cartaz na Netflix (Foto: Divulgação)

O protagonista e seu evangelho do poder

O documentário alcança um feito notável ao conseguir que Silas Malafaia não apenas participe, mas se desnude em frente à câmera. Ele se revela menos como um simples líder religioso e mais como um estadista de uma teocracia em construção, um aspirante a “Khomeini dos trópicos” que vê a democracia apenas como a vontade da maioria, desconsiderando a proteção das minorias.

O filme o retrata como a verdadeira força motriz por trás de Jair Bolsonaro, que surge quase como um “boneco de ventríloquo”. A narrativa expõe com clareza a “Teologia do Domínio” — a doutrina que prega a ocupação de espaços de poder pela Igreja — como o plano de fundo para a indicação de ministros “terrivelmente evangélicos” e para a pressão constante sobre o governo.

Ao permitir que Malafaia exponha seu pensamento, o filme entrega sua mais poderosa contribuição: a autoincriminação de uma ideologia pelo seu próprio idealizador.

Ambição e limites metodológicos

Apesar de sua coragem, o documentário por vezes “sucumbe ao peso de suas ambições”. A tentativa de abarcar um fenômeno tão complexo — desde a influência da CIA na ditadura até a Teologia da Prosperidade e as eleições de 2022 — resulta em uma análise que, embora extensa, corre o risco da superficialidade.

O filme soa “exaustivo, ainda que superficial”, deixando de fora elementos cruciais como o papel avassalador das redes sociais ou a ascensão de novas figuras como Nikolas Ferreira.

A falha metodológica mais incômoda, no entanto, é a surpreendente diferença de tratamento entre seus entrevistados. Enquanto Malafaia e Bolsonaro expõem suas ideias sem grande confronto, com a cineasta em uma posição de escuta plácida, as conversas com Lula são mais inquisitórias, colocando-o contra a parede.

Essa abordagem remete perigosamente à parcialidade de veículos de imprensa hegemônicos e enfraquece a credibilidade investigativa do filme, gerando um incômodo para espectadores de diferentes espectros políticos.

O “Eu” autoral como força e fraqueza

Como em toda a sua obra, a subjetividade de Petra Costa é onipresente. Sua narração em primeira pessoa, que admite ter lido a Bíblia pela primeira vez na preparação do filme, serve como uma porta de entrada afetiva para o espectador. Ela humaniza a investigação ao partir de uma perplexidade quase filosófica: “Onde foi parar o amor?”.

No entanto, esse cinema autocentrado também revela suas limitações. A confissão de que “não fazia ideia de que a religião era tão importante para tanta gente em pleno século XXI” sublinha um afastamento de classe, um “olhar de fora para dentro” que, por vezes, soa ingênuo.

No clímax do filme, a narrativa parece se resumir a um combate entre a voz autoritária e enérgica de Malafaia e a voz suave, por vezes “choramingas”, da diretora. Essa dualidade, embora poeticamente potente, deixa o filme pobre de outras visões, insistindo em contar a história apenas a partir do “eu”.

Conclusão

“Apocalipse nos Trópicos” é um documentário paradoxal. É uma obra essencial, corajosa e tecnicamente refinada, que enfrenta um dos temas mais urgentes do Brasil contemporâneo. Seu maior mérito é oferecer um palco para que o pensamento fundamentalista que sequestrou a política brasileira se revele em toda a sua ambição e perigo. Contudo, sua amplitude e as idiossincrasias de sua diretora o impedem de ser a análise definitiva que almeja.

Ao final, o filme não oferece respostas fáceis nem ferramentas claras para o combate, mas cumpre um papel fundamental ao evocar o que Santo Agostinho chamou de as duas filhas da esperança: a indignação, por nos ensinar a não aceitar as coisas como estão, e a coragem, por nos inspirar a mudá-las. Petra Costa entrega um poderoso diagnóstico, deixando a tarefa do prognóstico e do tratamento para a sociedade que ele tão bem inquieta.

➡️Quer saber mais sobre filmes, séries e streamings? Então acompanhe o trabalho do Flixlândia nas redes sociais pelo Instagram, X, TikTok e YouTube, e não perca nenhuma informação sobre o melhor do mundo do audiovisual.

Assista ao trailer do documentário Apocalipse nos Trópicos

YouTube player
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Procuram-se colaboradores
Procuram-se colaboradores

Últimas

Artigos relacionados
Zafari resenha crítica do filme 2026 Flixlândia
Críticas

Muito além do sobrenatural: o terror claustrofóbico de ‘Zafari’

Zafari é um filme de 2024 dirigido pela cineasta venezuelana Mariana Rondón...

Destruição Final 2 resenha crítica do filme 2026 Flixlândia
Críticas

‘Destruição Final 2’, o Éden lhe aguarda

“O fim do mundo está próximo!”, frase entoada por tantos “profetas” nas...

Os Malditos 2025 explicação do final do filme Flixlândia (1)
Críticas

‘Os Malditos’ transforma o inverno em tribunal moral, e faz do silêncio o mais cruel dos juízes

Todo filme ambientado na neve carrega a tentação de culpar o clima...

Dois Procuradores resenha crítica do filme 2026
Críticas

‘Dois Procuradores’ é um filme onde o silêncio e o papel são tão letais quanto uma arma de fogo

Dois Procuradores é um drama histórico e político dirigido pelo cineasta ucraniano...

Living The Land resenha crítica do filme 2026 (Sheng Xi Zhi Di), de Huo Meng - crédito Autoral Filmes
Críticas

‘Living The Land’ é um um registro poético de um tempo que não retorna

Living the Land é um drama épico chinês dirigido por Huo Meng....

Nossa Vizinhança resenha crítica do filme do Globoplay 2026 Flixlândia (1)
Críticas

A tensão realista e humana de ‘Nossa Vizinhança’

Sabe quando um filme chega na programação da TV aberta, muitas vezes...