Sabe aquela série que a gente assiste para aquecer o coração, mas que de repente decide jogar todo mundo no olho do furacão? É exatamente isso que a 3ª temporada de Com Carinho, Kitty (da Netflix) faz. Depois de duas temporadas nos conquistando com o charme de Katherine “Kitty” Song Covey (Anna Cathcart) desbravando a Coreia do Sul, a série chega ao seu último ano no colégio internacional K.I.S.S. provando que crescer é, acima de tudo, uma baita bagunça.
Com a nova showrunner Valentina Garza assumindo o projeto, a narrativa abandona boa parte da leveza inicial para mergulhar de cabeça em dilemas muito mais intensos, desconfortáveis e reais.
Sinopse
A trama começa com Kitty traçando o plano perfeito para o seu tão aguardado último ano escolar: construir memórias inesquecíveis com os amigos, conectar-se profundamente com sua herança e família coreana, e decidir de vez seu futuro universitário na NYU. De quebra, ela finalmente engata um namoro real e oficial com Min Ho (Sang Heon Lee).
Mas como a vida raramente segue o roteiro planejado, revelações bombásticas, inseguranças e falhas de comunicação jogam todas as relações da protagonista para o escanteio. Em meio a crises financeiras de amigos, dúvidas sobre a carreira e até um falso alarme de gravidez, Kitty precisa encarar que a juventude está acabando e a vida adulta bate à porta sem pedir licença.
Crítica da temporada 3 de Com Carinho, Kitty
O peso do amadurecimento (e a bagunça que vem junto)
Se nas temporadas passadas o foco de Kitty era dar uma de casamenteira e descobrir sua própria sexualidade, agora o bicho pega com temas consideravelmente mais densos. A série acerta em cheio ao traduzir a angústia de estar à beira da vida adulta, mostrando que as escolhas agora carregam consequências pesadas.
Vemos personagens lidando com falência, pressão familiar e até com enredos de gravidez adolescente que tiram os estudantes de suas zonas de conforto. Essa atmosfera cria um “campo minado emocional” onde o amadurecimento não acontece de forma bonita ou limpa.
Ver a Kitty controladora perdendo as rédeas do seu próprio mundinho traz uma camada de vulnerabilidade excelente para a série, sustentada pela atuação cada vez mais afiada de Anna Cathcart.

O romance central: química x clichês cansativos
Vamos falar do elefante na sala: Kitty e Min Ho (o famigerado ship #MoonCovey). O casal, que os fãs tanto queriam, finalmente acontece nos primeiros episódios, mas a fase de lua de mel acaba num piscar de olhos. O maior tropeço do roteiro aqui é a dependência preguiçosa do velho clichê de “falta de comunicação”.
O relacionamento implode quando Kitty, motivada por inseguranças, tira conclusões precipitadas e deduz que Min Ho engravidou a amiga Eunice, sem sequer ouvi-lo. É o tipo de conflito artificial que se resolveria com cinco minutos de conversa honesta, o que acaba arrastando o meio da temporada de um jeito meio frustrante.
Alguns críticos chegaram a apontar que, no processo de virar o “namorado perfeito”, Min Ho perdeu um pouco da sua personalidade ácida e cativante, virando quase um “quadro em branco” — um erro bem parecido com o que ocorreu com Dae na primeira temporada.
Contudo, a dor da separação serve um propósito claro: forçar os dois a evoluírem sozinhos. O arco em que Min Ho se afasta do pai controlador para encontrar a própria voz produzindo música é uma das melhores jornadas individuais do ano.
A força (e a lotação) do elenco de apoio
Sinceramente, na maior parte do tempo, quem rouba a cena nessa temporada não é a protagonista. Os arcos dos personagens secundários são, muitas vezes, mais envolventes do que o drama central. A trajetória de Yuri (Gia Kim) é espetacular; após perder toda a sua riqueza, ela reconstrói sua identidade e brilha num desfile de moda focado no conceito da superação de sua própria queda. Outro destaque é Q (Anthony Keyvan), que enfrenta o caos do retorno de seu ex-ficante, Marius, colocando o namoro com Jin à prova de forma muito honesta.
O grande problema é que a série agora tem gente demais para pouco tempo de tela. Com as novas adições ao elenco, a narrativa não consegue dar espaço para todos. Figuras como Praveena, Madison e Mihee viram meras ferramentas de roteiro, aparecendo apenas para solucionar problemas de outros personagens ou gerar um drama rápido e descartável. Essa lotação acaba poluindo a história.
A Sombra de Lara Jean e o Fator Nostalgia
Como um grande presente para quem acompanha o universo desde Para Todos os Garotos Que Já Amei, Lana Condor faz um retorno triunfal como Lara Jean. Trazê-la de volta foi uma sacada emocional muito boa para mostrar a força da irmandade das Covey, especialmente no momento em que Kitty mais precisava de um choque de realidade sobre amores imperfeitos.
No entanto, a direção pesou a mão nos “easter eggs” da franquia de filmes originais. Seja tocando a música “About Love” da Marina, focando na mesma caneta comprada por Peter Kavinsky na 2ª temporada, ou fazendo Kitty soltar exatamente os mesmos bordões de sua irmã. Em muitos momentos, o excesso de nostalgia faz a série tropeçar na sua própria identidade, impedindo que a história ande com as próprias pernas.
Conclusão
No fim das contas, a 3ª temporada de Com Carinho, Kitty é uma bagunça perfeitamente calculada e altamente viciante. Apesar de sofrer com excesso de núcleos dramáticos e reciclar desentendimentos românticos bobos, a recompensa emocional vale a pena.
A cena final entrega tudo o que o fã do gênero procura: uma corrida dramática na estação de trem, uma canção original escrita por Min Ho, declarações de amor e os dois sentados juntinhos num avião rumo a Portland. Esta temporada deixa claro que Kitty já não é apenas uma adolescente intrometida organizando namoros alheios, mas sim uma jovem descobrindo que a beleza da vida adulta está justamente em abraçar o inesperado.
Trailer da temporada 3 de Com Carinho, Kitty
Elenco da 3ª temporada de Com Carinho, Kitty
- Anna Cathcart
- Choi Min-yeong
- Gia Kim
- Sang Heon Lee
- Anthony Keyvan
- Regan Aliyah
- Peter Thurnwald
- Philippe Lee
- Audrey Huynh
















