“Nós Acreditamos em Vocês” é um filme de drama que acompanha uma mulher em uma batalha judicial pela guarda dos filhos. A disputa, por si só, já é desgastante, mas ganha contornos ainda mais dolorosos quando as crianças acusam o próprio pai de abuso sexual.
Em entrevista exclusiva ao Flixlândia, a diretora belga Charlotte Devillers compartilhou sua visão sobre o longa, que recebeu uma Menção Especial de Melhor Primeiro Longa-Metragem na Berlinale 2025 e estreou nos cinemas brasileiros em 2 de julho, com distribuição da Filmes do Estação.
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Sobre o que é o filme Nós Acreditamos em Vocês?
Na trama, Alice (Myriem Akheddiou) está diante de uma juíza e não há margem para erro. Com a guarda dos filhos sendo colocada em questão, ela precisa encontrar forças para falar por eles. Será que conseguirá protegê-los do próprio pai antes que seja tarde demais?
A crença nas vítimas
Ao longo da conversa, a cineasta Charlotte Devillers explicou como buscou aproximar o espectador da experiência vivida por Alice, refletiu sobre as falhas do sistema judicial diante de denúncias de abuso infantil e comentou a importância de transformar o ato de acreditar nas vítimas em uma responsabilidade coletiva.
Desde os primeiros minutos, o filme coloca o público ao lado de Alice. A câmera permanece próxima de seu rosto, acompanhando o medo, o esgotamento e a sensação de impotência provocados por um processo que parece nunca terminar. Para Charlotte, essa escolha nasceu ainda na preparação da protagonista.
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O filme acompanha quase toda a história pelo olhar de Alice. Como você construiu essa perspectiva e o que queria que o público sentisse?
– Durante a preparação com Myriem, conversamos muito sobre a natureza animalesca dessa mãe protetora. Ela logo imaginou uma loba defendendo suas crias e trouxe pinturas que retratavam esse animal. Foi fascinante buscar inspiração em outra forma de arte para discutir a personagem e seu estado emocional. A partir disso, enriquecemos o roteiro com descrições e imagens ligadas ao universo animal para transmitir essa intensidade.
Como enfermeira, também era importante para mim manter um forte foco no corpo e nas sensações físicas: o medo, a raiva, a falta de ar, a sensação de perder o fôlego. Juntas, analisamos todas as etapas que Alice enfrentou até chegar à audiência em que finalmente poderia se expressar. Esse foi um processo essencial para a construção da personagem.
Decidimos manter a câmera em seu rosto o máximo possível e explorar o que acontece fora de quadro, aproximando o espectador daquilo que ela sente.
Crítica ao funcionamento da Justiça
Mais do que retratar um caso específico, “Nós Acreditamos em Vocês” também faz uma crítica ao funcionamento da Justiça. No filme, a demora do processo prolonga o sofrimento da família e evidencia como o sistema pode falhar justamente com quem mais precisa de proteção.

O filme mostra que o próprio ritmo da Justiça pode se tornar uma nova forma de violência. Por que era importante retratar esse aspecto?
– O incesto é um fenômeno generalizado e sistemático, mas continua amplamente invisibilizado e minimizado. Quando uma criança revela um abuso, suas palavras deveriam ser acolhidas com seriedade e responsabilidade coletiva. No entanto, muitas vezes, a primeira reação não é tentar compreender o que ela viveu, mas duvidar de seu relato.
Essa dúvida não é neutra: ela traz consequências concretas. Atrasa os processos, alimenta suspeitas de que a mãe esteja manipulando ou alienando a criança e faz com que ela própria se torne alvo da investigação. Enquanto isso, a criança fica em segundo plano, como acontece no filme.
Hoje, parece haver mais preocupação com a possibilidade de uma falsa acusação do que com o risco de deixar uma criança enfrentar o abuso sozinha. O que falta é uma estrutura clara e ambientes seguros, onde crianças possam falar de uma forma que realmente respeite suas necessidades.
Contraste entre os pais
Outro aspecto que chama atenção é o contraste entre os dois pais. Enquanto Alice demonstra exaustão e desespero para proteger os filhos, o pai mantém uma postura calma e chega a afirmar que não se reconhece nas acusações. Para a diretora, essa oposição também nasce da própria dinâmica do processo judicial.
O contraste entre Alice e o pai é muito marcante. O que essa diferença revela sobre a história?
– Como o processo judicial é tão demorado, o genitor protetor — geralmente a mãe — pode chegar a um estado de extrema fragilidade e vulnerabilidade, parecendo instável ou até disfuncional. Isso acontece porque, como Alice diz no filme, é simplesmente impensável imaginar que um filho esteja passando por uma situação dessas. É algo capaz de levar qualquer pessoa ao limite.
Ao mesmo tempo, os agressores frequentemente demonstram mecanismos muito fortes de negação. Eles aparentam tranquilidade, mostram-se surpresos e não se reconhecem nas acusações feitas contra eles, como acontece com o pai na história.
Do ponto de vista narrativo, essa audiência é fascinante porque apresenta reviravoltas e revela como cada personagem evolui — ou não — enquanto sustenta sua própria versão da verdade.
O que você espera que o público leve consigo após assistir ao filme?
– “Nós acreditamos em você” é uma frase muito poderosa. Foi esse o título que escolhemos e fizemos questão de manter. Ela tem força de slogan; já a vimos pichada e colada em muros. Também é uma homenagem às vítimas.
Para mim, dizer ‘nós acreditamos em você’ é um chamado à ação. Essa frase precisa vir acompanhada de outras: ‘nós protegemos você’, ‘nós apoiamos você’ e do compromisso de oferecer assistência às vítimas de traumas, como o incesto.
O que mais me importa é o momento em que Alice finalmente consegue falar. É quando as coisas começam a mudar. Talvez pela primeira vez, ela seja ouvida sem interrupções enquanto conta sua história e dá voz ao sofrimento vivido por sua família. De certa forma, o percurso que ela faz durante essa audiência também é um processo de cura.
A frase que resume tudo isso, para mim, é: “Quem gostaria de estar perto de seu estuprador? Ninguém. Então por que meus filhos são obrigados a fazer isso?”
O essencial é reconhecer as crianças como sujeitos de direitos, e não como meros objetos de um processo judicial.
Mensagem simples, mas necessária
“Nós Acreditamos em Vocês” não é um filme fácil de assistir. Sua proposta é justamente expor o peso de um processo que, muitas vezes, acaba ampliando o sofrimento de quem deveria proteger.
Ao final, fica uma mensagem simples, mas necessária: crianças precisam ser ouvidas e protegidas.












