Jogada de Risco série brasileira de 2026 do Globoplay

‘Jogada de Risco’ e o apito final: o caos, a redenção e a surpresa que salvou o vestiário

Foto: Globoplay / Divulgação
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Se você deu o play em Jogada de Risco esperando ver um retrato fiel e comportado do futebol brasileiro, provavelmente levou um susto logo de cara. A série original do Globoplay, idealizada e protagonizada por Cauã Reymond, usou os gramados apenas como um belo pretexto para chutar a porta e invadir um submundo barulhento de agiotagem, traições, sexo explícito e chantagem.

No final da primeira temporada, que culminou nos episódios Quem ri por último, ri melhor (episódio 7) e A esperança é a última que morre (episódio 8), o drama deixou de ser uma simples disputa de mercado para se transformar em uma tragédia familiar de proporções shakespearianas.

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O jogo por trás do jogo: quando o inimigo dorme ao lado

No fechamento da temporada, o protagonista Maurício (Cauã Reymond) descobre que a maior punhalada não veio de seu rival declarado, Fernando Veiga (Marcelo Adnet), mas de dentro de sua própria casa. Seu pai, o trambiqueiro profissional Valdemar (Marcos Frota), aliado ao miliciano e agiota Walter (Ricardo Teodoro), estava operando um esquema pesado de manipulação de apostas esportivas, subornando jogadores jovens da agência de Maurício — como o lateral Vítor (Cauê Campos) — para forçar cartões em campo.

A dinâmica que se desenha no desfecho é de uma tensão asfixiante. Ao descobrir a fraude e tirar Vítor da escalação minutos antes do jogo para proteger a reputação de sua empresa, Maurício provoca um prejuízo financeiro colossal para o perigoso Walter. É essa decisão ética e tardia que aciona o gatilho da violência final: o sequestro de Valdemar e o acerto de contas sangrento em um antigo campo de futebol de terra batida, que termina com o pai do protagonista baleado.

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O milagre de Valdemar: por que Marcos Frota sobreviveu?

Se você sentiu que o roteiro deu uma “amolecida” ao salvar Valdemar da morte no hospital, há um motivo de bastidor fascinante para isso. Originalmente, o personagem de Marcos Frota — que retornou à TV após dez anos afastado — morreria após o tiro de Walter. No entanto, o diretor artístico Bruno Safadi revelou que a entrega, a honestidade e o carisma avassalador de Marcos Frota apaixonaram tanto a equipe que o final foi alterado apenas uma semana antes da gravação.

Essa mudança acabou sendo um dos pontos mais fortes do encerramento. A dolorosa e franca reconciliação entre Maurício e seu pai na maca do hospital, lavando a alma de anos de ressentimentos mútuos, deu à série uma densidade dramática que o futebol sozinho jamais conseguiria entregar. Marcos Frota provou que o talento de veterano é insubstituível.

Jogada de Risco série brasileira do Globoplay de 2026
Foto: Globoplay / Divulgação

Chute contra o preconceito e o final feliz de Geraldo

No meio de tanta sujeira, mentiras e chantagens, o desfecho de Geraldo (Breno Ferreira) foi o sopro de humanidade e coragem que a série precisava. Depois de passar a temporada inteira sob a paranoia de ter sua sexualidade exposta e ver sua vida amorosa controlada por vídeos falsos arquitetados por Maurício e pela cafetina Rita (Leticia Colin), o craque decide dar um basta na hipocrisia.

Após marcar um gol decisivo pelo Atlântico, Geraldo assume publicamente seu namoro com Caio (Gabriel Caon) diante das câmeras, em um protesto contundente contra a homofobia no esporte. Com uma proposta irrecusável para brilhar no futebol inglês, ele e Caio terminam as malas prontas para a Europa. É, sem dúvidas, o arco mais bem resolvido e emocionante de toda a produção, tratado com uma delicadeza rara para um meio tão machista.

Onde a série brilha nos vestiários e escorrega na bola rolando

Embora o saldo de Jogada de Risco seja extremamente positivo, coroando o projeto de autor de Cauã Reymond com o posto de série original mais assistida da história do Globoplay, o desfecho também escancarou os limites da produção.

O calcanhar de Aquiles: os efeitos visuais dentro de campo

Se no extracampo a série é ágil, tensa e muito bem dirigida, a bola rolando deixa bastante a desejar. Quando a ação migra para dentro das quatro linhas, as partidas de futebol parecem artificiais. A computação gráfica e a decupagem das cenas de jogo carecem de realismo físico. Fica difícil comprar a emoção do “esporte mais popular do mundo” quando a textura do gramado e a dinâmica das jogadas parecem saídas de um videogame antigo. Faltou a organicidade que vemos em documentários esportivos reais.

Além disso, a obsessão da série em chocar o telespectador com cenas de nudez frontal, sexo e uso de drogas — que renderam à produção a classificação indicativa de 18 anos — por vezes flertou com o gratuito. Algumas cenas pareciam “copiadas e coladas” de produções como a norte-americana Euphoria, usando excessos estéticos para mascarar buracos em um roteiro que, às vezes, preferia o impacto visual imediato à coerência da narrativa.

A bomba final: quem é Javier?

O encerramento oficial da temporada foi cirúrgico ao plantar ganchos gigantescos para um possível segundo ano (cuja renovação a Globo deve decidir até outubro). Quando Maurício e sua parceira Cris (Mariana Sena) — que agora finalmente consolidou seu papel na agência exigindo 25% de sociedade — acham que a poeira vai baixar, a jornalista esportiva Regiane (Maria Bopp) vaza as investigações sobre a fraude de cartões, colocando a licença profissional deles na corda bamba.

E, nos segundos finais, a maior surpresa: um garoto misterioso chamado Javier (Guilherme Cabral) surge na agência e se apresenta como filho de Maurício. A revelação encerra a temporada com um nó na cabeça do público. Maurício, que passou a vida tentando expiar os pecados de seu pai, agora se vê diante do desafio de aprender a ser pai. Será que o ciclo de erros e manipulações familiares vai se repetir?

Jogada de Risco terminou de forma excessiva, espalhafatosa e sem medo do melodrama. É um prato cheio de puro entretenimento que sabe fisgar o espectador. Se as cenas de futebol real decepcionam, o drama dos bastidores de poder joga bonito e vence o campeonato do streaming com folga.

Ficha técnica

  • Título Original: Jogada de Risco
  • Plataforma de Distribuição: Globoplay (Série Original)
  • Idealização e Criação: Cauã Reymond, Sofia Maria e Thiago Dottori
  • Roteiro Final: Thiago Dottori
  • Supervisão de Texto: Lucas Paraizo
  • Direção Artística: Bruno Safadi (codireção de Cauã Reymond no episódio 3)
  • Direção de Gênero (Dramaturgia): José Luiz Villamarim
  • Produção Executiva: Isabela Bellenzani e Cauã Reymond
  • Elenco: Cauã Reymond (Maurício), Mariana Sena (Cris), Marcos Frota (Valdemar), Leticia Colin (Rita), Marcelo Adnet (Fernando Veiga), Ricardo Teodoro (Walter), Breno Ferreira (Geraldo), Cauê Campos (Vítor), Juan Paiva (Luan), Maria Bopp (Regiane), Mauricio Mattar (Paulo Costa), Ramiro Martinez (Nacho), Gabriel Caon (Caio), Bruna Griphao (Daniele), Guilherme Cabral (Javier), Nabiyah Be (Alessia Bright)
  • Número de Episódios: 8 episódios (Lançados semanalmente entre 23 de julho e 13 de agosto de 2026)
  • Classificação Indicativa: Não recomendado para menores de 18 anos (contém cenas de sexo explícito, nudez, drogas e violência)
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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