‘Joy’ é um tributo às pioneiras da ciência e ao sonho de ser mãe
Taynna Gripp23/11/20243 Mins de Leitura318
Foto: Netflix / Divulgação
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“Joy” é um filme que transcende sua narrativa histórica para tocar em questões profundamente humanas, como o desejo de formar uma família, as barreiras impostas pelo conservadorismo e o papel das mulheres na ciência.
Com direção de Ben Taylor, o longa aborda o nascimento da fertilização in vitro (FIV), uma das maiores conquistas científicas do século XX. No entanto, seu maior mérito está em trazer à tona a figura de Jean Purdy, uma heroína cujas contribuições foram por muito tempo subestimadas.
A trama acompanha o trabalho árduo de Robert Edwards (James Norton), Patrick Steptoe (Bill Nighy) e Jean Purdy (Thomasin McKenzie), o trio responsável por tornar a FIV uma realidade.
Enfrentando ceticismo da comunidade científica, críticas religiosas e ataques da mídia, os três cientistas dedicam anos de suas vidas a um objetivo comum: ajudar casais inférteis a realizarem o sonho de ter filhos.
O filme se passa principalmente entre Cambridge e Oldham, locais emblemáticos para o desenvolvimento dessa técnica pioneira, culminando no nascimento histórico de Louise Brown, o primeiro “bebê de proveta”, em 1978.
“Joy” se destaca por sua abordagem sensível e equilibrada, oferecendo um retrato honesto das dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores. Thomasin McKenzie brilha como Jean Purdy, conferindo à personagem uma mistura de determinação e vulnerabilidade que captura a essência de sua jornada pessoal e profissional.
Apesar da pouca idade, McKenzie consegue transmitir a maturidade exigida por uma história que atravessa mais de uma década. Ao seu lado, Bill Nighy, com sua habitual elegância cínica, dá vida ao cirurgião Patrick Steptoe, enquanto James Norton interpreta o idealista Robert Edwards com paixão convincente.
O roteiro equilibra momentos de humor, dor e superação, mas tropeça ao incorporar elementos dramatizados, como o conflito religioso entre Purdy e sua mãe. Embora esses detalhes ampliem a dimensão pessoal da narrativa, eles podem soar forçados para quem conhece os fatos históricos. Ainda assim, o filme oferece uma reflexão relevante sobre o papel das mulheres na ciência, destacando como as contribuições de Purdy foram ignoradas por décadas.
A atmosfera dos anos 1970 é capturada com precisão, desde as cores desbotadas da fotografia até as tensões sociais e morais que permeiam a trama. No entanto, o foco limitado nas pacientes que participaram dos testes da FIV deixa um vazio emocional. Enquanto os dilemas científicos e éticos são explorados em profundidade, a ausência de uma conexão mais significativa com essas mulheres impede que o filme alcance todo o seu potencial emotivo.
Outro ponto forte é a química entre os protagonistas. O trio transmite uma sensação genuína de parceria, especialmente nos momentos de frustração e celebração. As cenas em que eles compartilham refeições simples em restaurantes de beira de estrada ou discutem os próximos passos do projeto refletem a humanidade por trás do avanço científico.
“Joy” é um filme que celebra a persistência e o trabalho coletivo, destacando o impacto duradouro de uma descoberta que mudou milhões de vidas. Embora peque em alguns aspectos narrativos, sua força reside nas performances dos atores e na homenagem tardia, mas merecida, à cientista Jean Purdy. É um lembrete de que, por trás de cada marco científico, há histórias de sacrifício, resiliência e luta por reconhecimento.
Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.