Leia a crítica do filme Limpa, da Netflix (2025) - Flixlândia

O mundo silencioso de ‘Limpa’

Foto: Netflix / Divulgação
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Chega à Netflix “Limpa”, um filme chileno que se estabelece como um dos retratos mais contundentes e inquietantes das tensões sociais e emocionais que permeiam a vida doméstica na América Latina. Dirigido pela aclamada Dominga Sotomayor e baseado no premiado romance de Alia Trabucco Zerán, o longa não é apenas uma adaptação, mas uma verdadeira “adoção” do universo literário, traduzindo para a tela uma história de dependência, afeto e poder.

Com um enredo que navega entre o drama psicológico e o suspense, o filme se aprofunda na relação complexa entre uma empregada doméstica e a criança que ela cuida, transformando um microcosmo familiar em um espelho das profundas desigualdades de classe e da negligência emocional. Longe de ser um drama passivo, “Limpa” é um filme que incomoda, questiona e desafia o espectador, provando que as maiores violências muitas vezes se escondem na invisibilidade do cotidiano.

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Sinopse

O filme nos apresenta a um universo íntimo e tenso, focado na rotina de Estela, uma empregada doméstica que mora na casa de uma família rica de Santiago. Seu dia a dia se resume a cuidar de Julia, uma menina de seis anos que, apesar de viver em um ambiente de luxo, sofre com a profunda indiferença de seus pais, que estão sempre ausentes, ocupados com suas carreiras. A relação entre Estela e Julia floresce em meio a esse abandono. Elas constroem um mundo particular, repleto de rituais e cumplicidades que as isolam do restante da casa e criam um laço que transcende a relação de trabalho.

No entanto, essa conexão, que em um primeiro momento parece terna, é permeada por sutil desdém de classe e uma dependência que se torna cada vez mais tóxica. A vida de Estela, sem tempo para cuidar de sua própria família, é consumida pela necessidade da menina e de seus patrões.

A narrativa avança através de uma série de “gestos mínimos e situações incômodas”, que acumulam a tensão até um ponto de ruptura. Quando um “incidente trágico” irrompe essa dinâmica, a frágil cumplicidade entre as duas é quebrada, levando a um desfecho inevitável que expõe as consequências brutais de um sistema socialmente e emocionalmente quebrado.

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Crítica

Uma das maiores forças de “Limpa” é a forma como o filme explora a violência não como um ato explícito, mas como uma constante sutil e corrosiva. A diretora Dominga Sotomayor, com sua estética observacional, posiciona a câmera de forma a nos fazer sentir como voyeurs. Por trás de janelas ou em reflexos, a câmera espelha a posição de Estela: uma espectadora e, ao mesmo tempo, uma figura invisível dentro de uma casa que não é sua.

O filme mostra que o classismo não se manifesta apenas em agressões diretas, mas em um sistema de desídia e na expectativa de disponibilidade permanente dos patrões. São os pequenos desdém, as urgências pessoais de Estela que são ignoradas, a culpa performática dos patrões que tentam parecer corretos enquanto se aproveitam da situação. Esse tom é um reflexo direto da voz autoral de Sotomayor, que já em sua filmografia anterior demonstrava um fascínio pelas rupturas sociais a partir da intimidade do lar.

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Adaptação que se torna ‘adoção’

O filme de Dominga Sotomayor é um exemplo primoroso de como uma adaptação pode se libertar do material original para encontrar sua própria voz. A diretora não se limitou a traduzir o premiado romance de Alia Trabucco Zerán, mas o adotou, imprimindo sua assinatura pessoal na narrativa. Enquanto o livro se estrutura como uma confissão ambígua de uma narradora não confiável, o filme de Sotomayor opta por uma abordagem mais visual e sensorial.

O contexto da “explosão social” de 2019 no Chile, que no romance serve como um pano de fundo político explícito, é aqui transformado em uma tensão social subjacente, que se manifesta no isolamento e na opressão dentro das paredes da casa. Essa escolha narrativa permite que a tensão do thriller se alimente das consequências psicológicas, e não apenas de um enredo policial, tornando a experiência mais imersiva e perturbadora.

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Elenco e desfecho divisivo

A atuação é o pilar central de “Limpa”. A performance de María Paz Grandjean no papel de Estela é magnética e cheia de nuances. Ela é capaz de transmitir toda a frustração e invisibilidade de sua personagem com gestos e olhares que dizem mais que qualquer diálogo.

A química com a jovem Rosa Puga Vittini, que interpreta Julia, é um dos pontos altos do filme. A menina é uma revelação, e o laço que as duas constroem em tela, misturando cumplicidade e crueldade, é dolorosamente real. No entanto, é o desfecho que, sem dúvida, irá gerar as reações mais fortes.

Após um longo período de acúmulo de tensões, o filme opta por um quiebre narrativo drástico e chocante. Essa reviravolta, que para alguns pode soar como uma concessão que dilui a força do que foi sugerido anteriormente, para outros, é um fechamento contundente e necessário para expor a escalada de um horror que se escondia sob a superfície. A ousadia de Sotomayor em tomar uma posição tão forte no final é o que torna “Limpa” inesquecível.

Conclusão

Com a chancela da produtora Fabula, conhecida por títulos como Uma Mulher Fantástica, e um lançamento estratégico na Netflix, “Limpa” não é apenas um filme chileno, é uma obra com ambição global. Dominga Sotomayor confirma seu status como uma das vozes mais importantes do cinema contemporâneo, e o filme se posiciona como um potente comentário social sobre as fraturas de classe e as dinâmicas invisíveis de poder.

O que perdura após os créditos é a força perturbadora da história, que nos faz questionar o que se esconde por trás das portas fechadas e como a negligência emocional e o classismo se manifestam nas relações humanas mais básicas. “Limpa” é um filme para se ver com atenção, para se sentir o desconforto e para refletir sobre as complexas camadas de uma sociedade que se esfacela por dentro.

Onde assistir ao filme Limpa (2025)?

O filme está disponível para assistir na Netflix.

Quem está no elenco de Limpa, da Netflix?

  • María Paz Grandjean
  • Rosa Puga Vittini
  • Ignacia Baeza
  • Benjamin Westfall
  • Rodrigo Palacios
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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