Crítica do filme Totto-chan A Menina na Janela (2023) - Flixlândia

‘Totto-chan: A Menina na Janela’ é comovente, agridoce e incrivelmente humano

Foto: Sato Company / Divulgação
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Mais de quatro décadas após se tornar um dos maiores fenômenos literários do Japão, Totto-chan: A Menina na Janela chega às telas em uma animação sensível e comovente. Baseado no livro de memórias de Tetsuko Kuroyanagi, o filme resgata a história de uma infância marcada pela curiosidade, pela energia incontrolável e pela busca por um lugar de pertencimento, tudo isso em meio ao contexto sombrio da Segunda Guerra Mundial.

A adaptação, dirigida por Shinnosuke Yakuwa, não apenas homenageia o material de origem, mas também prova, mais uma vez, o domínio da animação japonesa em traduzir emoções e complexidades de forma delicada e poderosa. A escolha pela animação, em vez de um “live-action”, é um acerto magistral, pois permite que o filme transcenda a realidade e explore o universo onírico da infância com uma liberdade que o cinema tradicional jamais conseguiria.

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Sinopse

O filme nos apresenta a Totto-chan, uma menina de sete anos tão cheia de vida e de questionamentos que sua excitação se torna um problema para a escola tradicional que frequenta. Após causar uma grande distração ao chamar uma banda de rua pela janela da sala de aula, ela é expulsa.

Sua mãe, então, a matricula em uma nova e peculiar instituição, a Tomoe Gakuen, administrada pelo visionário diretor Sōsaku Kobayashi. A escola, cujas salas de aula são vagões de trem adaptados, tem uma filosofia de ensino que valoriza a individualidade e a curiosidade de cada aluno.

Nesse ambiente acolhedor, Totto-chan finalmente floresce, encontrando em seus colegas e no diretor um espaço onde sua singularidade é celebrada. Ela faz amizade com Yasuaki, um menino que sofre de poliomielite, e juntos, eles exploram um mundo de descobertas e inocência.

No entanto, a efervescência da infância e a tranquilidade da escola começam a ser gradualmente afetadas pela crescente tensão da Segunda Guerra Mundial. À medida que a sociedade japonesa se militariza, a vida de Totto-chan e seus amigos se transforma, forçando-os a confrontar a perda e o amadurecimento em um cenário de destruição iminente.

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Crítica

Totto-chan: A Menina na Janela é uma verdadeira obra de arte visual. A direção de Shinnosuke Yakuwa, veterano de filmes do Doraemon, mostra um salto de maturidade, utilizando a animação para explorar a dualidade entre o mundo interior da protagonista e a realidade externa.

Há uma sutileza na forma como a ambientação muda conforme a guerra avança: o céu, antes claro e vibrante, se torna cinzento; os soldados e as bandeiras imperiais se tornam cada vez mais presentes nas ruas, e a escassez de alimentos se reflete nas marmitas simples dos alunos. Essa linguagem visual, que dispensa diálogos expositivos, é um dos pontos mais fortes do filme.

Momentos de pura imaginação são ilustrados com sequências fantásticas que mudam o traço da animação, assumindo um aspecto onírico e delicado, como se fossem desenhados com lápis de cor. Vemos a sala de aula se transformar em um trem em movimento e Totto-chan imaginando-se ao lado de Yasuaki, livre das limitações físicas de sua doença. Essas cenas, que dão voz ao mundo interior das crianças, são de uma beleza tocante e reforçam a ideia de que a fantasia é um refúgio para as durezas da realidade.

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O poder de uma amizade inocente

No coração da narrativa está a amizade pura e inspiradora entre Totto-chan e Yasuaki. O filme constrói essa relação com um capricho notável, mostrando como Totto-chan, com sua energia e empatia, ajuda o amigo a superar as barreiras de sua deficiência, e como ele, por sua vez, amplia a visão de mundo dela.

A cena em que Totto-chan, com esforço e dedicação, ajuda Yasuaki a subir em uma árvore para que ele possa experimentar o mundo de uma nova perspectiva é um dos ápices emocionais do filme. A inocência dos personagens é retratada sem pudor, como na cena em que nadam nus na piscina da escola, um momento que celebra a liberdade e a falta de malícia da infância. Essa amizade se torna um farol de esperança e bondade em um mundo que gradualmente perde a sua humanidade.

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Infância roubada pela guerra

O filme opera de maneira sutil e devastadora ao retratar como a guerra, mesmo sem estar no primeiro plano, rouba a inocência das crianças. As mudanças são graduais e por isso mais dolorosas: a proibição de palavras em inglês, a escassez de comida, o sumiço dos pais que são convocados para o exército.

No entanto, a cena mais cruel é quando um grupo de meninos mais velhos caçoa de Yasuaki, ridicularizando sua deficiência e dizendo que ele jamais poderia lutar na guerra. É a primeira vez que a crueldade do mundo adulto, fomentada pelo nacionalismo, atinge diretamente a bolha de segurança da Tomoe Gakuen.

O ponto de ruptura é a sequência final, onde Totto-chan, após um evento traumático, corre pela cidade, deixando para trás o cenário bucólico e mergulhando em um ambiente urbano sujo e desolador. Internamente, sua imaginação, antes colorida e alegre, se torna sombria e distorcida.

A cena em que ela, ainda em sua fuga, encontra crianças brincando de guerra, soldados feridos e uma mãe chorando a perda do filho, é um soco no estômago. O clímax é alcançado quando Totto-chan, finalmente, não consegue mais fugir da “sujeira do mundo”, caindo em uma poça d’água e chorando. É o fim da inocência, um momento de perda irreversível que, embora doloroso, é contado com uma honestidade brutal.

Conclusão

Totto-chan: A Menina na Janela é um filme comovente, agridoce e incrivelmente humano. Baseado em uma história real, ele celebra a resiliência e a curiosidade de uma menina que, contra todas as expectativas, encontrou um lugar que a aceitou por quem ela era.

O filme se alinha a outras grandes obras que abordam a perda da inocência infantil em tempos de guerra, como O Império do Sol e O Túmulo dos Vagalumes, mas o faz com um toque de delicadeza e poesia visual que o torna único. A animação se mostra a escolha perfeita para traduzir a sensibilidade do material original, permitindo que a fantasia da infância conviva com a dura realidade do amadurecimento.

Ao final, a história de Totto-chan é um lembrete de que, mesmo em meio à destruição e à dor, a esperança pode ser encontrada na capacidade humana de amar, de se adaptar e de, acima de tudo, abrir a janela para a alegria, não importa o quão difícil a vida se torne.

Onde assistir ao anime Totto-chan: A Menina na Janela?

O filme estreou nesta quinta-feira, 9 de outubro de 2025, exclusivamente nos cinemas brasileiros.

Quem está no elenco do filme Totto-chan: A Menina na Janela (2023)?

  • Liliana Ôno
  • Kôji Yakusho
  • Shun Oguri
  • Anne Watanabe
  • Karen Takizawa
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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