Minha Querida Senhorita crítica do filme da Netflix 2026 - Flixlândia

Crítica | ‘Minha Querida Senhorita’ se divide entre a sutileza e o didatismo

Foto: Netflix / Divulgação
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Sabe aquela sensação de assistir a um filme que tem tudo para ser grandioso, mas que acaba tropeçando nas próprias pernas? É exatamente esse o gosto que o remake de Minha Querida Senhorita deixa na boca. A nova aposta da Netflix, produzida pela Suma Content (produtora da badalada dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi, os “Javis”), é uma adaptação livre do clássico espanhol de 1972 dirigido por Jaime de Armiñán, que chegou a ser indicado ao Oscar.

Com direção de Fernando González Molina e roteiro de Alana S. Portero, o filme de 2026 assume a difícil missão de atualizar uma obra que, na época do franquismo, precisou usar entrelinhas para falar sobre intersexualidade, trazendo agora o tema para o centro do palco de forma explícita.

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Sinopse

A trama acompanha Adela (interpretada pela estreante Elisabeth Martínez), uma jovem de 25 anos, filha única de uma família conservadora, que divide seus dias entre o antiquário da família e as aulas de catequese que leciona em uma paróquia de Pamplona, no final do ano de 1999. O que ela não sabe é que sua mãe e os médicos esconderam um segredo desde a sala de parto em 1976: Adela é uma pessoa intersexo.

Presa em um corpo e uma vida moldados por contratos médicos e dogmas religiosos que ela não escolheu, a chegada de uma nova fisioterapeuta chamada Isabel (Anna Castillo) e de um padre recém-chegado (Paco León) acabam servindo de estopim para uma jornada de autodescoberta. Adela decide deixar tudo para trás e foge para Madrid, buscando entender quem ela realmente é e abraçar sua nova identidade.

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Crítica do filme Minha Querida Senhorita, da Netflix

A coragem da representatividade

O maior trunfo do filme é, sem dúvida, a sua honestidade e a quebra de silêncio sobre a intersexualidade. Enquanto o filme de 1972 precisou de um “álibi médico” para fugir da censura e escalou um ator cisgênero (José Luis López Vázquez), a versão de 2026 aposta de forma acertada em Elisabeth Martínez, que é uma mulher intersexo na vida real.

Essa escolha de elenco traz uma sensibilidade e uma sinceridade enormes para a personagem, sendo não apenas o maior risco que o filme tomou, mas também a sua grande alma. A roteirista Alana S. Portero acerta em cheio ao retirar o tom patológico que antes envolvia o tema, construindo o longa como um coming of age (história de amadurecimento) tardio para uma pessoa que teve sua narrativa corporal roubada na infância.

Minha Querida Senhorita 2026 crítica do filme da Netflix - Flixlândia
Foto: Netflix / Divulgação

Uma obra partida ao meio

Apesar da premissa fortíssima, o longa sofre com um problema claro de ritmo e estrutura. Parece que estamos assistindo a dois filmes completamente diferentes colados à força. A primeira metade da história, ambientada em Pamplona, beira a perfeição em sua atmosfera de drama costumbrista. O diretor consegue filmar brilhantemente a repressão, os olhares tortos da mãe e o peso da paróquia na formação moral de Adela.

Porém, quando a protagonista se muda para Madrid e passa a se apresentar como A.D., o filme perde a mão e sofre uma queda brusca de qualidade. O tom naturalista dá lugar a uma linguagem quase de sitcom e a uma desfile excessivo de participações especiais (cameos) gratuitas. A sensação é de que essa segunda parte soa moderna demais e não se encaixa na ambientação dos anos 2000, parecendo mais um esforço comercial da Netflix para agradar a um público jovem do que uma evolução natural da trama.

Didatismo e roteiro acelerado

Outro problema grave da segunda metade do longa é o seu didatismo excessivo. Parece que o roteiro não confia na inteligência do público e precisa explicar tudo através de discursos artificiais. O personagem do padre gay, vivido por Paco León, por exemplo, embora divertido para alguns, resulta anticlimático e surreal para o tom que a história tentava estabelecer.

A trama romântica com Isabel também sofre do mal da pressa. A conexão profunda entre elas é estabelecida quase do nada, em diálogos apressados, fazendo com que um amor arrebatador surja após se verem apenas três vezes em dez dias. É o famoso “emocionar de forma fácil”, muito comum no audiovisual atual, mas que aqui acaba esvaziando a complexidade da jornada de Adela. Felizmente, o filme se redime ao não adotar a saída típica e utópica para conflitos familiares, recusando o final excessivamente feliz e deixando a protagonista com questões em aberto diante de sua mãe e de seu passado.

Conclusão

No fim das contas, Minha Querida Senhorita (2026) não é exatamente um filme ruim, mas esbarra na mediocridade por tentar abraçar o viés comercial das plataformas de streaming enquanto adapta um clássico de peso. O longa tem ótimas atuações — com destaque para o brilho sutil de Elisabeth Martínez e Anna Castillo — e levanta discussões essenciais e contemporâneas sobre cirurgias infantis não consentidas.

Contudo, o excesso de explicações e a disparidade gritante entre os tons de suas duas metades o impedem de alcançar a força transgressora e inesquecível da obra original que o inspirou. Vale a pena dar o play pelo debate social que promove, mas vá sabendo que é uma viagem com algumas turbulências no meio do caminho.

Onde assistir ao filme Minha Querida Senhorita?

Trailer de Minha Querida Senhorita (2026)

YouTube player

Elenco de Minha Querida Senhorita, da Netflix

  • Elisabeth Martínez
  • Anna Castillo
  • Paco León
  • María Galiana
  • Nagore Aranburu
  • Eneko Sagardoy
  • Manu Ríos
  • Lola Rodríguez
  • Delphina Bianco
Escrito por
Juliana Cunha

Editora na ESPN Brasil e fã de cultura pop, Juliana se classifica como uma nerd saudosa dos grandes feitos da Marvel.

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