O cinema de terror sul-americano, especialmente na região rioplatense (Argentina e Uruguai), tem nos presenteado com obras incrivelmente densas nos últimos anos. É impossível não lembrar do sucesso do brutal O Mal que Nos Habita. Pegando carona nessa ótima fase criativa e compartilhando até alguns produtores com esse fenômeno, chega até nós O Sussurro (El Susurro).
O filme é o mais novo longa do cineasta uruguaio Gustavo Hernández Ibáñez, um cara que já tem o nome consolidado no gênero graças ao hit A Casa Muda (que inclusive teve um remake hollywoodiano) e outras obras como Não Dormirás e Vírus 32.
Com a nova aposta, premiada em festivais de peso como Sitges na Espanha, Mórbido no México e o Buenos Aires Rojo Sangre (onde levou o prêmio de Melhor Filme e Direção), o diretor prova novamente que sabe criar suspense de primeira linha. Prepare-se para uma montanha-russa que atira para todos os lados.
Sinopse
A trama já começa lá em cima, jogando o espectador no meio da confusão sem muitas explicações iniciais. Acompanhamos a jovem Lucía (interpretada pela atriz Ana Clara Guanco Aguilera) e o seu irmão caçula Adrián (vivido por Marcelo Michinaux), um garotinho que, por conta de um trauma, não fala e se comunica apenas por linguagem de sinais. Os dois estão em fuga desesperada de um pai violento e muito bizarro chamado Víctor (Luciano Cáceres), buscando abrigo em uma velha e isolada casona de campo.
A situação, que já não era boa, vai por água abaixo de vez por causa do gato da casa, batizado de Jackson. O bichano, que carrega uma microcâmera no corpo, volta dos seus passeios com um dedo humano decepado e ensanguentado.
Ao checar as gravações do gatinho, Lucía descobre que os vizinhos não são nada pacíficos: trata-se de uma rede criminosa que sequestra adolescentes para gravar violentos snuff movies (filmes de mortes e torturas reais). E, como se lidar com maníacos fosse pouco, os irmãos logo se veem cercados por maldições familiares e seres sobrenaturais.
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Crítica do filme O Sussurro
Uma salada mista de subgêneros
O aspecto mais chamativo – e talvez o mais polêmico – no roteiro escrito por Juma Fodde Roma em parceria com o diretor é a ambição de querer abraçar o mundo do terror em uma única tacada. Assistir a El Susurro às vezes dá a sensação de ver uns quatro filmes de gêneros diferentes colados à força: tem a vibe angustiante do terror realista dos snuff movies, a pegada rural do folk horror, invasão domiciliar, crianças com poderes e, pasmem, até vampirismo.
É inegável que o roteiro acaba ficando um pouco lotado e caprichoso, o que dá uma sensação rebuscada. As reviravoltas parecem um tanto arbitrárias quando as peças já estão no tabuleiro. Mesmo assim, Hernández tem tanto ofício e estilo que, incrivelmente, ele consegue segurar essa mistura louca. O filme acaba sendo extremamente divertido para os fãs do gênero extremo, especialmente pelo terror mundano (a ameaça humana dos vizinhos criminosos), que gera uma ansiedade tão real que te deixa grudado na cadeira.

A inovação do “found footage” felino
Precisamos bater palmas para a ideia mais genial do filme: o uso da câmera no gato Jackson. Inserir uma pegada de found footage através das andanças despreocupadas do animal de estimação é uma sacada narrativa deliciosa e formalmente muito inventiva.
A cena em que vemos Lucía, no escuro de seu quarto, paranoica e fixada na tela do laptop assistindo ao que o gato registrou – enquanto percebe que o perigo está ali ao lado –, é de um terror genuíno. É uma sequência fantástica, que ecoa a paixão do cineasta Brian De Palma pela metalinguagem (o famoso “filme dentro do filme”), e honestamente já vale o ingresso.
Atmosfera e atuações que seguram a onda
Mesmo com as derrapadas estruturais da trama, tecnicamente o longa é brilhante. A fotografia assinada por Santiago Guzmán é um dos grandes destaques do cinema de terror sul-americano recente: ela é lindamente sombria e densa.
O filme é inteligente o suficiente para esconder os detalhes mais nojentos, evitando focar muito nas atrocidades para fazer a nossa cabeça trabalhar e imaginar o pior. E a direção de Hernández domina a tensão como ninguém, conseguindo arrancar calafrios de nós com simples movimentos repetitivos de câmera (paneos) e um desenho de som incrivelmente opressivo.
No elenco, a dupla central dá um show. Guanco Aguilera está ótima, carregando todo o peso dramático de uma jovem que precisa se tornar uma “mãe leoa” para proteger o caçula. Mas quem rouba a cena de verdade é o pequeno Michinaux; ele segura cenas inteiras de forma silenciosa e entrega muito mais talento e emoção do que vários personagens adultos no filme. Já Luciano Cáceres, num papel bastante misterioso e ameaçador, cumpre seu papel como a figura sombria que persegue os dois, dando vida a uma dinâmica de quebra-cabeça na cabeça de quem assiste.
O Sussurro é bom?
Com seus enxutos 100 minutos de duração (ou pouco menos, a depender dos cortes de festival), O Sussurro é uma porrada cinematográfica que assume enormes riscos. Com certeza não é uma obra para qualquer estômago ou tipo de público, dada a natureza pesada dos seus temas.
Pode até ser que a estrutura narrativa fique balançada com a injeção exagerada de tantas mitologias e subgêneros diferentes ao mesmo tempo. Mas a entrega visual imersiva, as ótimas atuações e os momentos de pura tensão cimentam o status do filme como uma excelente forma de entretenimento para os fãs incondicionais do terror. Mais uma vez, o cinema rioplatense nos entrega um material que dá muito orgulho de ver nas telonas.
Onde assistir ao filme O Sussurro?
- HBO Max
Trailer de O Sussurro (2026)
Elenco do filme O Sussurro
- Luciano Cáceres
- Ana Clara Guanco Aguilera
- Marcelo Michinaux















