Há na maturidade dos grandes compositores um momento de inflexão em que o espelho deixa de devolver certezas para exigir franqueza brutal. Para Priscilla Novaes Leone, a Pitty, esse instante não chegou aos vinte anos, quando desafiou o conservadorismo da cena soteropolitana com guitarras cortantes em Admirável Chip Novo (2003), nem tampouco nos anos subsequentes de consagração radiofônica. O verdadeiro choque de realidade veio agora, aos 49 anos de idade, condensado nas treze canções de seu sexto álbum de estúdio, batizado simplesmente como PITTY (ou ⚡︎PITTY⚡︎).
Lançado pela gravadora Deck sete anos após o ensolarado e telúrico Matriz (2019), o registro não se comporta como um mero retorno cronológico de catálogo. É, antes, o retrato em alta voltagem de uma mulher que atravessou tempestades íntimas severas — incluindo a dissolução de um casamento de 19 anos com o músico Daniel Weksler e o esvaziamento de antigos formatos de banda — para descobrir que a criação artística segue sendo sua única bússola confiável. Como a própria artista resumiu com precisão cortante: “Não tô voltando não, porque não existe volta, né? Foguete não dá ré. É uma retomada de uma essência, só com a bagagem que se tem hoje”. O resultado é uma obra urgente, que compacta em cerca de 41 minutos o equivalente a dois anos de terapia.
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A fúria do recomeço
A gênese de PITTY começou longe de prazos contratuais e reuniões com executivos da indústria. Após a extensa turnê comemorativa #ACNXX, que rodou o país celebrando as duas décadas de seu álbum de estreia, somada à turnê colaborativa PittyNando com Nando Reis, ao projeto de releituras Espelhos (2023) e a uma pausa estratégica iniciada em 2025 para colocar a vida pessoal nos eixos, a compositora se viu diante de um vácuo. Com a dispersão de seus músicos habituais provocada pela pandemia, Pitty decidiu montar um estúdio caseiro e debruçar-se sobre softwares de gravação.
Foi um processo estritamente solitário, reminiscente do início de sua trajetória no quartinho de Salvador, onde as composições nasciam apenas do atrito entre a caneta, o papel e as cordas de um violão. Em seu home studio, ela experimentou arranjos, desenhou timbres e programou batidas, formatando demos completas antes de convocar qualquer colaborador. O guitarrista Martin Mendonça, seu cúmplice de estrada há mais de duas décadas, revelou que, pela primeira vez na história da banda, as canções já chegaram praticamente estruturadas.
Com essa matéria-prima incandescente sob o braço, ela procurou seu braço-direito de longa data, o produtor Rafael Ramos. Juntos, assumiram a produção musical, refinando as gravações divididas entre os estúdios Tambor (no Rio de Janeiro), Space Blues e 12 Dólares (em São Paulo). A cozinha rítmica ganhou a precisão do baixista Paulo Kishimoto e a pegada vigorosa da baterista Nicolly Demeneghe, a Nico. A mixagem ficou a cargo de Rafael Ramos no Tambor, enquanto a masterização foi entregue ao consagrado engenheiro Randy Merrill, no prestigiado Sterling Sound (em Nova Jersey, nos Estados Unidos). Em faixas como Pileque de Poeta e Sobriedade Seletiva, o disco abriu espaço também para a mão pop de Felipe Vassão, produtor conhecido por transitar com desenvoltura entre diferentes universos da música brasileira contemporânea.
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Crítica do álbum Pitty (2026)
Entre a roda de pogo e a pista de dança
Em termos estéticos, PITTY responde com altivez ao dilema clássico dos artistas veteranos: acomodar-se na cartilha do passado ou romper fronteiras sem perder a espinha dorsal. Se em Matriz (2019) a artista havia expandido seus horizontes ao friccionar o rock com o tambor baiano e elementos da música regional, o novo trabalho opera em outra frequência. Ele atende a uma premissa estabelecida pela própria cantora no início das composições, quando definiu as diretrizes do projeto em quatro palavras: “pesado, dançante, sexy, raivoso”.
O single de abertura, Sobremesa, gerou controvérsias na crítica especializada — com jornalistas como Mauro Ferreira, do portal G1, apontando que a canção, apesar de voraz e incandescente, soava quase como um déjà vu confortável que ignorava os passos dados no disco anterior. No entanto, a audição completa do álbum desmente a tese de um retrocesso nostálgico. Não se trata de tentar emular a adolescente rebelde de 2003, mas de assumir as cicatrizes de uma mulher que já não tem tempo a perder com meias-palavras.
A guitarra permanece no centro gravitacional da obra, mas divide espaço de maneira orgânica com sintetizadores cintilantes, batidas eletrônicas, experimentos de spoken word e baladas despidas de vaidade. O disco tensiona deliberadamente a agressividade do punk com a sensualidade do pop dançante. Há aqui um vigor rítmico que rejeita o academicismo e a postura hermética: a dor das perdas amorosas e as decepções cotidianas não são tratadas como lamento paralisante, mas como combustível para dançar sobre os escombros.
Faixa a faixa explicado do álbum Pitty (2026)
1. Sobremesa
A canção de abertura escancara as portas do trabalho com guitarras inflamadas e uma bateria pulsante. Usando o cardápio culinário como alegoria do apetite carnal e da impaciência com relações mornas, Pitty dispara versos abrasivos como “Foda-se o almoço, ‘vamo’ direto para a sobremesa” e “Melhor nem me chamar se não for pra pegar fogo”. É uma faixa direta, lasciva e voraz.
2. Armadura
Com pulso rítmico próximo do pop rock dançante, a música mergulha na dialética entre autodefesa e fragilidade. Resgatando a célebre reflexão de Clarice Lispector em Das vantagens de ser bobo, a letra admite que a couraça construída pela vida adulta serve para sobreviver, ainda que traga o amargo reconhecimento de que, em certos momentos, é mais fácil despir o corpo do que desarmar os sentimentos.
3. Desobediente
Um dos pontos mais originais e fortes de toda a carreira da artista. A introdução com sonoridade árabe e sitar indiano logo dá lugar a muralhas de distorção, nas quais Pitty exercita uma declamação ritmada influenciada pelo hip hop e pelo punk nova-iorquino de Patti Smith. Uma ode ao questionamento do status quo, firmando que desobedecer é a única forma de preservar a própria identidade.
4. Pileque de Poeta
Coproduzida com Felipe Vassão, a faixa cruza baixos encorpados com melodias solares e refrão feito sob medida para as arenas. Trata daquela embriaguez quase adolescente de viver plenamente, pontuando que a cautela excessiva é a verdadeira tragédia da maturidade.
5. Não à Deriva
Rápida, enxuta e acelerada, a composição investiga a vertigem da passagem dos anos. Sem tempo para desvios inúteis, a canção transforma o medo da finitude em imperativo de presença e ação no agora.
6. Caminhada
Desacelerando o andamento para um ritmo mais denso e contemplativo, a faixa se ergue como um comovente hino de apoio mútuo e sororidade feminina. Afastando discursos fáceis de internet, crava que “onde a gente se planta, o medo não vinga”, convocando a todos para a construção de um caminho sem solidão.
7. Sobriedade Seletiva
Outro fruto da parceria com Felipe Vassão, a canção aposta em uma batida dançante sem abrir mão das guitarras afiadas. É uma crônica ácida sobre manter a lucidez em meio ao delírio do mundo contemporâneo, dosando filtros e loucuras com pragmatismo irônico.
8. Amiga
Um manifesto elegante e firme sobre o estabelecimento de limites. Diante de relações pautadas por conveniência e afeto transacional, Pitty expõe a esterilidade dos laços virtuais e das falsas companhias, lembrando que “não é a mão desses likes que vai estar lá” quando o chão faltar.
9. Madame
Casando batidas eletrônicas cortantes com riffs ríspidos de guitarra, a faixa debocha dos moralismos e das expectativas sociais impostas às mulheres. Com sarcasmo refinado, sintetiza o espírito livre do disco: “Desculpa a honestidade, ser imperfeita é ser de verdade”.
10. Álbum de Casamento
O momento mais cru, pungente e corajoso do projeto. Estruturada sobre a cadência dolorosa do blues-rock, a letra é um desabafo confessional sem retoques sobre o luto do divórcio: “Devolva minhas senhas, eu confiei em você / a minha autoestima não precisa devolver / eu já tomei de volta posse do que é meu”. Ao final, a dor dá lugar à ternura maternal ao celebrar a filha Madalena como sua “alma favorita no universo”.
11. Prazer, Universo
A pancadaria do rock clássico retorna com ferocidade em uma abertura explosiva de guitarra e bateria. A composição reflete sobre causalidade, escolhas inescapáveis e a mecânica impiedosa do carma: tudo o que é lançado para o cosmos retorna para acertar as contas.
12. Cuidada
Marcada por uma interpretação vocal doce e intensa, a penúltima faixa destaca o dedilhado e o timbre acolhedor das guitarras. Uma reflexão sensível sobre o cuidado e a dedicação maternal, servindo de bálsamo emocional na reta final da audição.
13. Nó
O encerramento do álbum é uma declaração de sobrevivência e serenidade. Reconhecendo que há situações na vida que simplesmente se partem e não admitem remendos, a música conclui que recomeçar exige a dignidade de desatar os nós que asfixiam a alma para permitir que a existência volte a fluir.
Onde ouvir e formatos disponíveis do álbum Pitty (2026)
O álbum PITTY está disponível na íntegra em todas as plataformas de streaming digital (como Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube Music) desde o dia 16 de outubro de 2026, com distribuição da Deck.
Para os colecionadores e amantes da mídia física, o trabalho ganhou uma luxuosa edição em vinil preto pelo Noize Record Club (título NRC #114). O lançamento traz prensagem de 12 polegadas, 33 rpm e gramatura de 140g, acompanhado com exclusividade pela revista NOIZE #178, que estampa uma longa entrevista com a cantora baiana detalhando o processo de reinvenção artística.
Além disso, a artista colocou o pé na estrada com a turnê nacional de PITTY, cuja estreia ocorreu com ingressos esgotados no Espaço Unimed, em São Paulo, no dia 17 de outubro de 2026, seguindo com apresentações confirmadas em cidades como Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Salvador.
Ouça o álbum Pitty (2026) completo
Ficha técnica
| Campo | Detalhe |
|---|---|
| Título do álbum | PITTY (estilizado como ⚡︎PITTY⚡︎) |
| Artista | Pitty |
| Data de lançamento | 16 de outubro de 2026 |
| Gravadora / Selo | Deck (ou Deckdisc) |
| Número de faixas | 13 canções inéditas |
| Duração total | 41 minutos e 08 segundos |
| Composição e arranjos | Pitty (letras, melodias e riffs) |
| Direção geral e criativa | Pitty |
| Produção musical | Pitty e Rafael Ramos; produção adicional de Felipe Vassão em Pileque de Poeta e Sobriedade Seletiva |
| Banda em estúdio | Pitty (voz), Martin Mendonça (guitarra), Paulo Kishimoto (baixo) e Nicolly Demeneghe (“Nico”) (bateria) |
| Estúdios de gravação | Home Studio da artista, Estúdio Tambor (RJ), Space Blues (SP) e 12 Dólares (SP) |
| Mixagem | Rafael Ramos no Estúdio Tambor (RJ) |
| Masterização | Randy Merrill no Sterling Sound (Nova Jersey, EUA) |
| Projeto visual e capa | Fotografia de Jorge Daux; direção criativa de Carol Barragana |
| Edição em vinil | LP 12″, 140g, 33 rpm pelo Noize Record Club (NRC #114) com revista NOIZE #178 |
| Turnê de estreia | Estreia em 17 de outubro de 2026 no Espaço Unimed (São Paulo – SP) |













