Sabe aquela ideia que parece incrível na mesa de reunião, mas que perde completamente a força quando vai para a tela? É exatamente essa a sensação que Primeiro as Damas (Ladies First), nova aposta de comédia da Netflix, deixa no ar.
Dirigido por Thea Sharrock, o longa é um remake do filme francês Eu Não Sou um Homem Fácil (2018) e tenta surfar na onda das sátiras sociais sobre privilégios de gênero. A premissa de colocar um homem machista para provar do próprio veneno em uma realidade dominada por mulheres tinha tudo para render discussões afiadas.
No entanto, mesmo com nomes de peso no elenco, o roteiro assinado por Katie Silberman, Natalie Krinsky e Cinco Paul acaba reciclando ideias que parecem ter saído diretamente das comédias românticas do início dos anos 2000.
Sinopse
A história acompanha Damien Sachs (interpretado por Sacha Baron Cohen), um executivo de publicidade mulherengo, arrogante e que tem plena certeza de que o mundo foi feito para servi-lo. Ele está prestes a ser promovido na agência Atlas, mas é forçado a lidar com a ascensão de Alex Fox (Rosamund Pike), uma colega brilhante que ele insiste em tratar com condescendência.
Depois de uma discussão acalorada na rua, Damien bate a cabeça com força em um poste e desmaia. Quando acorda, o mundo virou de cabeça para baixo: as mulheres detêm todo o poder econômico, político e institucional, enquanto os homens são subestimados, assediados na rua, e reduzidos à sua aparência. Preso nesse universo matriarcal, ele vai precisar lutar (e sofrer muito) para reconquistar seu espaço corporativo e disputar a vaga de CEO com a implacável Alex.
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Crítica do filme Primeiro as Damas
Uma sátira que fica só na superfície
A maior falha de Primeiro as Damas é achar que a simples inversão de papéis é suficiente para sustentar o filme inteiro. A narrativa se apoia o tempo todo em piadas visuais e trocadilhos que perdem a graça rápido. Sim, ver o protagonista usando “sutiã para testículos”, sendo forçado a pedir uma saladinha no jantar enquanto as mulheres devoram carnes, ou lidando com marcas como Burger Queen e Victor’s Secret até arranca um leve sorriso inicial. Livros como Dona Quixote e Harriet Potter completam a brincadeira.
Porém, o filme repete essas mesmas piadas exaustivamente. O roteiro prefere o caminho caricato de fazer as mulheres agirem exatamente como os piores homens machistas, em vez de criar um debate realmente inteligente sobre como as estruturas de poder oprimem. A sensação é de que a crítica social parou no tempo, entregando um feminismo de fachada que ignora as nuances das lutas atuais.

O peso do elenco: Pike brilha, Baron Cohen tropeça
É frustrante ver um elenco tão bom desperdiçado em um material tão raso. Sacha Baron Cohen, conhecido por ser um mestre do humor desconfortável, parece deslocado e sem química com o resto do elenco. Ele não consegue equilibrar a arrogância inicial de Damien com a vulnerabilidade necessária quando o personagem cai em desgraça.
Por outro lado, Rosamund Pike salva o que pode. Ela traz aquela frieza calculista que já conhecemos de suas atuações anteriores, transformando Alex em uma executiva impiedosa e plenamente confortável no sistema que a favorece, roubando a cena e impedindo que sua personagem vire um desenho animado.
O elenco de apoio também faz milagres com o que tem nas mãos: Fiona Shaw (como a ex-recepcionista e agora executiva Felicity) e Kathryn Hunter (a dona da empresa, Glenda) estão se divertindo horrores no papel de mulheres poderosas. Ver o veterano Charles Dance (como Fred) servir café e ser chamado de “anjo de cashmere” é, para ser sincero, um dos poucos acertos cômicos do longa. E a participação de Richard E. Grant como o bizarro Homem dos Pombos adiciona um tom lúdico e moral à jornada do protagonista.
Estética de comercial e conflitos apressados
Tecnicamente, a direção de Thea Sharrock não ousa. A estética é super iluminada, colorida e vibrante, parecendo muitas vezes um comercial de televisão ou um esquete prolongado de humor, sem criar o peso dramático ou as sombras que a ruína psicológica do personagem pedia.
Além disso, a montagem é apressada: com apenas cerca de 90 minutos de duração, o terceiro ato tenta resolver toda a tensão corporativa e o desenvolvimento emocional do protagonista de forma corrida e sentimentalista.
Vale a pena ver Primeiro as Damas?
No fim das contas, Primeiro as Damas é um filme sobre privilégios que se contenta em ser uma distração passageira e esquecível. O longa desperdiça a chance de provocar reflexões reais sobre o machismo no mercado de trabalho para focar em um humor mastigado, constrangedor e repetitivo.
Mesmo que a redenção final de Damien tente nos entregar uma lição bonitinha sobre equidade e a perda do próprio ego, o caminho até lá é cansativo. Se você busca uma comédia leve para passar o tempo e dar umas risadas do absurdo, pode até valer o play, mas se espera uma sátira inteligente, é melhor procurar em outro lugar.
Onde assistir ao filme Primeiro as Damas?
- Netflix
Trailer de Primeiro as Damas (2026)
Elenco de Primeiro as Damas, da Netflix
- Sacha Baron Cohen
- Rosamund Pike
- Richard E. Grant
- Emily Mortimer
- Charles Dance
- Fiona Shaw
- Tom Davis
- Weruche Opia
- Kathryn Hunter
- Kadiff Kirwan


















