O cinema argentino costuma brilhar e ganhar o mundo quando aposta no realismo cru, mas de vez em quando aparece uma daquelas pérolas que resolvem dar um passo fora da curva e assumir riscos enormes. É exatamente esse o caso de Risa e o Telefone do Vento (título original Risa y la cabina del viento), o segundo longa-metragem de Juan Cabral, que acaba de chegar à Netflix.
Depois da sua estreia nos cinemas com Two/One (2020), o diretor decidiu se jogar no universo da fábula infantil misturada com a dureza de um cenário patagônico. O resultado é uma obra catártica que chegou fazendo barulho, levando merecidamente os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor na prestigiosa Competição Argentina do Festival de Mar del Plata em 2025.
Sinopse
A trama nos leva direto para Ushuaia, a icônica cidade no “fim do mundo”, onde o clima gélido é o pano de fundo perfeito para uma história sobre ausência. Acompanhamos a rotina da pequena Risa, vivida de forma magnética pela estreante Elena Romero, uma menina de 10 anos de idade que lida com a morte do pai em um trágico incêndio que devastou a comunidade local e que ela nem chegou a conhecer direito.
A mãe da garota, Sara (interpretada pela cantora Cazzu, em sua primeira e surpreendente experiência como atriz), trabalha em tempo integral e pede que a filha deixe essa obsessão pelo pai falecido no passado.
O rumo das coisas muda quando Risa esbarra em uma cabine telefônica abandonada. Mesmo sem estar conectada a nada, as pessoas da cidade fazem filas para usar o aparelho como uma espécie de portal para desabafar com os entes queridos perdidos na tragédia.
Porém, quando a menina ouve o telefone tocar de verdade e atende, ela percebe que consegue escutar os pedidos de almas que têm assuntos inacabados por ali. Ela então começa a cumprir as pendências de cada um dos mortos com a esperança de conseguir, em troca, uma ligação direta com o seu pai. Para dar conta de tudo, ela ganha a ajuda inesperada de Esteban (Diego Peretti), um vizinho alcoólatra, deprimido e perdido na vida, que foi escalado pela mãe dela como babá.
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Crítica do filme Risa e o Telefone do Vento
Tanto o diretor quanto a própria Cazzu já definiram a obra como um “animé patagônico”, e sinceramente, o apelido cai como uma luva. O roteiro, assinado em parceria entre Cabral e Pablo Minces, monta um belo quebra-cabeças que costura o surrealismo ao cotidiano.
Visualmente, a produção é um escândalo de bonita. A direção de fotografia impecável de Leandro Filloy transforma o ambiente austero e frio da Terra do Fogo em uma atmosfera hipnótica. Porém, a obra escorrega na própria beleza em certos momentos: a vontade de focar na estética perfeita e no preciosismo visual acaba, vez ou outra, interrompendo a fluidez narrativa e engolindo a história que deveria estar sendo contada de maneira mais orgânica.

O peso do elenco e a força da trilha sonora
Se existe algum deslize de ritmo e fragmentação, ele é imediatamente compensado pelas atuações. Elena Romero é a grande surpresa, sustentando o protagonismo do filme com uma maturidade assustadora para a idade dela. Já Diego Peretti rouba a cena e entrega um personagem melancólico com perfeição, construindo com a criança uma química maravilhosa de quem ensina, mas também aprende muito no processo.
O elenco de apoio não fica atrás, trazendo nomes de peso como Joaquín Furriel, Gustavo Garzón, Fabián Casas, Silvina Sabater, e até um hamster carismático chamado Kuro, que arranca boas risadas servindo como alívio cômico.
Para dar liga a tudo isso, a escolha da banda Babasónicos para assinar a trilha musical foi uma jogada mestre. O diretor já tinha uma parceria de longa data com o grupo fazendo videoclipes, e a inclusão de faixas como Zumba, Putita, Mareo e, claro, Risa, acaba funcionando como a verdadeira espinha dorsal do filme. As canções ditam o avanço do drama e trazem camadas emocionais intensas à trama.
Luto, esperança e conexões humanas
A grande sacada do filme é como ele pega um tema denso e consegue processá-lo com tanta ternura. A premissa se inspira no fenômeno real do “telefone do vento” japonês, criado depois do tsunami de 2011 para ajudar sobreviventes a lidarem com suas perdas. Aqui, Juan Cabral consegue o impensável: falar de morte e luto de um jeito leve, celebrando a solidariedade, a esperança, e o milagre das conexões humanas em meio a um mundo cínico e pessimista.
O longa nos presenteia com frases que ficam ecoando na cabeça na saída do cinema, como o diálogo genial entregue por Peretti: “O contrato é curto. Mas o que te toca… é teu”. É pura poesia visual e textual para explicar como processamos traumas, seja através de pequenos favores no dia a dia ou pela belíssima analogia visual de pinguins em uma ilhota representando as vítimas da tragédia.
Risa e o Telefone do Vento é bom?
Mesmo esbarrando em certas irregularidades e no apego exagerado pelo visual, Risa e o Telefone do Vento é um filme ambicioso, original e, acima de tudo, emocionante. Ele arrisca ao explorar o luto através da fantasia e do olhar de uma criança, algo pouquíssimo visto no cinema nacional do país vizinho.
É uma experiência catártica pensada para ser vivida no escuro da sala de cinema, provando que até no isolamento do fim do mundo é possível encontrar espaço para rir, chorar, curar feridas e sonhar grande.
Onde assistir ao filme Risa e o Telefone do Vento?
- Netflix
Trailer de Risa e o Telefone do Vento (2026)
Elenco de Risa e o Telefone do Vento, da Netflix
- Elena Romero
- Diego Peretti
- Cazzu
- Joaquín Furriel
- Antonio Garzón
- Manuel da Silva
















