Sabe aquela imagem romantizada e puritana que a televisão costuma dar para pessoas com deficiência? A nova série da Netflix, “Santita”, chega justamente para chutar essa porta e quebrar todos esses estereótipos.
Estreando nesta quarta-feira (22), a produção traz a direção afiada de Rodrigo García e é protagonizada por Paulina Dávila e Gael García Bernal. O resultado é um drama denso, recheado de humor ácido, que nos faz repensar a feminilidade, o capacitismo e a velha ideia de redenção.
Sinopse
A trama acompanha María José Cano (Dávila), uma renomada ginecologista de Tijuana que usa cadeira de rodas após ter adquirido uma deficiência em um acidente. O apelido “Santita” é puramente irônico, já que ela leva uma vida cheia de imperfeições, flertando com apostas em hipódromos e rinhas de galo. Vinte anos atrás, logo após o seu acidente, ela tomou uma decisão drástica: abandonou o grande amor de sua vida, Alejandro (Bernal), no altar.
O passado volta a assombrá-la quando Cecilia (Ilse Salas), a atual esposa de Alejandro, aparece em seu consultório buscando ajuda médica. Mesmo vivendo um novo romance com o médico Mauricio (Erik Hayser), Santita é forçada a confrontar as emoções e os traumas inacabados com seu ex-noivo.
Crítica da série Santita, da Netflix
Uma protagonista que não pede desculpas
O maior acerto da série é a construção de sua personagem principal. Logo no primeiro episódio, Santita já avisa sem rodeios que é uma mulher difícil (uma “cabrona”) e que provavelmente sempre será assim. A narrativa se recusa a entregar o chamado “pornô inspiracional” ou a infantilizar a pessoa com deficiência.
Em vez de focar em uma superação clichê, vemos uma mulher complexa, dona de si e guiada por sua própria bússola moral. Um ponto muito autêntico abordado pela história é a vida sexual de Santita, explorando a sua busca pelos orgasmos que perdeu por conta da lesão medular, mostrando desejos muito reais e humanos.

Química e tensões inacabadas
A dinâmica entre Paulina Dávila e Gael García Bernal é o coração emocional da produção. O reencontro dos dois, duas décadas após o abandono, carrega uma tensão palpável sobre o que poderia ter sido e o peso irreversível das escolhas.
Gael brilha ao assumir a inusitada posição de ídolo romântico reduzido à parte abandonada, enquanto Paulina entrega uma atuação cheia de vulnerabilidade e rebeldia. Não espere um romance fácil: a relação deles é conturbada, repleta de desejo e contradições, provando que o amor real raramente se encaixa em caixinhas perfeitas.
Direção realista e representatividade
O diretor Rodrigo García mandou muito bem ao transformar o que seria apenas um filme em uma série de sete episódios, dando espaço para que todas as camadas da protagonista respirassem. A condução é bastante realista e íntima, fugindo do melodrama. Um detalhe visual e narrativo muito tocante é a exploração do mundo onírico de Santita; nas cenas de sonho, ela aparece patinando ou caminhando, o que reflete um fenômeno psicológico muito comum entre pessoas que adquirem uma deficiência ao longo da vida.
A produção também brilha na representatividade e no alerta social. Contando com a consultoria da ativista Maryangel García-Ramos e a inclusão de atrizes com deficiência, como Sally Quiñonez no papel de Alma, a obra expõe a dura realidade da falta de acessibilidade nas cidades e a violência de gênero que atravessa a vida de milhões de mulheres com deficiência no México.
Conclusão
No fim das contas, “Santita” é uma série instigante, que cozinha a sua história em fogo lento e exige que o espectador abrace o desconforto. A produção não está interessada em oferecer finais amarradinhos, mas sim em levantar uma reflexão profunda: é possível amar uma mulher exatamente do jeito que ela é, mesmo que ela se recuse a pedir desculpas por seus defeitos?
Se você gosta de dramas maduros, personagens falhos e histórias que fogem do óbvio, essa é uma maratona que vale muito a pena.
Onde assistir à série Santita?
Trailer de Santita (2026)
Elenco de Santita, da Netflix
- Paulina Dávila
- Gael García Bernal
- Ilse Salas
- Erik Hayser
- Álvaro Guerrero
- Sally Quiñonez
- Ana Layevska
- Martín Altomaro
- Cecilia Cañedo
- Harding Junior














