E aí, dorameiros e fãs de boas histórias! Se você deu play na Netflix esperando aquele romance fofinho e cheio de açúcar, é melhor reajustar as expectativas rapidamente. A Gente Tenta (We Are All Trying Here) não veio para ser uma válvula de escape leve para o fim de semana, mas sim para bater de frente com a nossa ansiedade e o cansaço que a vida adulta traz.
Escrita pela genial Park Hae-young — a mesma mente que nos devastou (no bom sentido) com Meu Companheiro e Meu Diário para a Liberdade —, com direção de Cha Young-hoon, a série foca no vazio existencial, nas cobranças por produtividade e no doloroso sentimento de ser deixado para trás. É um drama que prefere te confrontar a te abraçar nos primeiros minutos, mas que guarda uma beleza gigantesca para quem decide ficar.
Sinopse
A trama central gira em torno de Hwang Dong-man (Koo Kyo-hwan), um aspirante a diretor de cinema na faixa dos 40 anos que está há impressionantes duas décadas lutando para lançar seu primeiro longa-metragem. Para piorar, ele é o único “encalhado” de seu badalado e prestigioso grupo de amigos na indústria, o chamado “The Eight Club”. Consumido pela inveja e pelo sentimento crônico de inutilidade, o destino de Dong-man cruza com o de Byeon Eun-a (Go Youn-jung).
Apelidada de “O Machado” por seu estilo direto e duro como produtora, Eun-a é o oposto de Dong-man em termos de sucesso, mas carrega um esgotamento mental tão grande que chega a ter sangramentos nasais frequentes devido ao estresse. Juntos, eles formam uma conexão improvável, ancorada não no glamour, mas na dor compartilhada.
Crítica do dorama A Gente Tenta
Um protagonista (quase) impossível de defender
Sejamos sinceros: acompanhar o Dong-man não é uma tarefa fácil. Ele é ressentido, tem acessos de raiva, fala sem parar para mascarar suas inseguranças e tem a péssima mania de tentar diminuir as conquistas dos outros. A atuação de Koo Kyo-hwan é tão crua e visceral que chega a dar vergonha alheia ver as explosões do personagem em momentos inadequados.
O roteiro acerta em não romantizar esse comportamento tóxico — você entende a atitude da barman Ko Hye-jin (Kang Mal-geum), por exemplo, quando ela decide simplesmente bani-lo do convívio do grupo por exaustão mental. Mesmo assim, Kyo-hwan não te deixa odiar o Dong-man por completo; a cena dele gritando o próprio nome à beira de um penhasco só para atestar que ainda existe é de quebrar o coração.

O silêncio que ensurdece
Na outra ponta, Go Youn-jung entrega uma Eun-a que funciona como o contrapeso perfeito para o caos de Dong-man. Enquanto ele explode para fora, ela implode na própria solidão. A personagem guarda uma apatia e um cansaço que quem vive a rotina pesada do mundo corporativo vai identificar de primeira.
Sem precisar de longos monólogos, Youn-jung usa olhares minimalistas para demonstrar o colapso interno de uma mulher que atingiu o sucesso que a sociedade exige, mas perdeu a si mesma no processo. A química deles não é sobre flertes rápidos, mas sobre como apenas Eun-a parece enxergar e ouvir o protagonista de verdade.
Ritmo e estética de cinema independente
A direção de Cha Young-hoon ajuda a ditar a sensação de melancolia da história. Não espere um ritmo acelerado ou ganchos cheios de adrenalina; a série respira como um filme independente. A aposta em planos longos, nos silêncios constrangedores e na fotografia com tons frios foca em mostrar o tamanho do isolamento desses indivíduos na grande Seul.
Essa lentidão proposital afasta quem busca entretenimento rápido, mas é a ferramenta perfeita para fazer o público sentir na pele o ritmo arrastado da depressão e da estagnação dos personagens.
Um ecossistema tóxico e muito real
O elenco de apoio sustenta perfeitamente a tensão da trama. A forma como os membros do “The Eight” toleram Dong-man expõe a hipocrisia de certas amizades adultas — ninguém tenta realmente ajudá-lo, mas todos fofocam pelas costas.
O embate constante de Dong-man com o bem-sucedido diretor Park Gyeong-se (interpretado maravilhosamente por Oh Jung-se) traz aquele humor ácido que é a marca registrada do roteiro. Até a figura de Hwang Jin-man (Park Hae-joon), o irmão mais velho que tenta sacudir Dong-man para a vida real, mostra que ninguém na história é 100% inocente ou vilão; estão todos apenas tentando sobreviver.
Conclusão
A Gente Tenta é, sem dúvida, uma obra corajosa que redefine o que esperamos de um slice of life sul-coreano. É uma aposta arriscada da Netflix porque exige paciência e estômago para acompanhar pessoas tão falhas e machucadas. No entanto, se você gosta de narrativas psicológicas, honestas e maduras que exploram as camadas mais cruas da saúde mental, este é um k-drama imperdível.
No fim, a série nos lembra de forma comovente que, num mundo obcecado por produtividade e sucesso, o simples ato de não desistir — e de compartilhar uma pequena marmita em meio ao caos — já é uma grande vitória.
Onde assistir ao dorama A Gente Tenta?
Trailer da série A Gente Tenta (2026)
Elenco de A Gente Tenta, da Netflix
- Koo Kyo-hwan
- Go Youn-jung
- Oh Jung-se
- Kang Mal-geum
- Park Hae-joon
- Bae Jong-ok
- Choi Won-yeong
- Han Seon-hwa














