Se a primeira temporada de Mulheres de Azul (Las Azules) fisgou o público com a caçada obsessiva ao assassino conhecido como o ‘Desnudador de Tlalpan’, os episódios iniciais deste segundo ano deixam claro que as regras do jogo mudaram completamente.
Situada em junho de 1971, apenas um mês após o desfecho da fase anterior, a nova fase da série criada por Fernando Rovzar e Pablo Aramendi abandona o foco no machismo cotidiano de delegacia para mergulhar direto na podridão da corrupção institucional. Com uma direção segura que se recusa a acelerar o passo antes da hora, a produção original da Apple TV retorna muito mais ambiciosa, madura e politizada.
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O peso da farda e a promoção de María
A dinâmica de forças dentro do departamento sofreu uma chacoalhada importante. Agora promovida ao cargo de tenente, María (interpretada por Bárbara Mori) passa a frequentar salas e reuniões que antes lhe eram totalmente vetadas. No entanto, essa nova posição é uma faca de dois gumes. Ela ganha autoridade, mas também descobre as amarras de um sistema que prefere abafar a verdade a lidar com ela. Bárbara Mori entrega uma María brilhante: visivelmente mais cansada, menos idealista, mas com uma força implacável e silenciosa que a impede de fechar os olhos perante o que está errado.
No lado pessoal, a vida dela continua um caos. Seu casamento com Alejandro (Leonardo Sbaraglia) ruiu definitivamente, embora ele ainda insista em reatar, enquanto começa a surgir um clima de forte atração mútua entre ela e seu chefe, o capitão Romandía (Miguel Rodarte) — que, por sua vez, vive frustrado aguardando uma prometida volta ao seu antigo cargo de detetive.
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Um mistério que rasga as feridas do México de 1968
O pontapé inicial da nova investigação se dá no episódio de estreia, intitulado “Mauricio”, que acompanha as policiais no caso do assassinato brutal de Lucio Lima. O estudante universitário e ativista foi severamente torturado, espancado e teve os dedos decepados como troféus pelo assassino.
A polícia até prende o jovem Mauricio, que tinha um histórico violento e havia brigado com a vítima há pouco tempo, mas as pontas soltas gritam que ele não é o culpado. Ángeles (Ximena Sariñana) logo percebe o padrão e suspeita que Lucio foi apenas a primeira vítima de uma matança muito maior.
O grande trunfo da narrativa é conectar esse crime diretamente ao doloroso massacre estudantil de Tlatelolco em 1968 e à repressão violenta de El Halconazo em 1971. Durante o enterro de Lucio, Valentina (Natalia Téllez) encontra uma pista crucial dentro do caixão: uma fotografia dos membros da Brigada Marxista Narciso fazendo um mesmo gesto com as mãos.
A partir do segundo episódio, “O Caso Fica Mais Escuro, mas as Mulheres Ficam Mais Afiadas”, o mistério ganha contornos conspiratórios de arrepiar. Fica evidente que todas as pessoas daquela foto estão na mira de um assassino vingativo. Para piorar, policiais começam a ser mortos logo após gravarem confissões em vídeo sobre seus crimes do passado, e os caminhos da investigação começam a apontar perigosamente para Aldo Herrera, o poderoso chefe da polícia mexicana.

A força do quarteto: fricção e cumplicidade real
O que impede Mulheres de Azul de se tornar um procedural genérico e quadrado é a química impecável de seu elenco central. As quatro protagonistas — María, Valentina, Gabina (Amorita Rasgado) e Ángeles — se recusam a cair no clichê do grupo perfeito de “super-heroínas sem falhas”. Elas brigam, discordam veementemente sobre métodos de trabalho e batem de frente.
Valentina continua sendo a rebelde impulsiva que sempre pressiona as outras a burlarem as regras. Gabina enfrenta uma barra pesada dentro de casa, lidando com a desaprovação de seu pai, o general Alfonso Herrera, e do irmão mais velho, o severo Gilberto, tendo apenas o apoio de seu outro irmão detetive, Gerardo, enquanto lida com segredos familiares espinhosos.
Mas é Ángeles quem novamente rouba os holofotes. Interpretada magistralmente por Ximena Sariñana, ela é a mente mais afiada do grupo, usando uma inteligência silenciosa para notar detalhes que passam batidos até pelos detetives mais experientes. Fora da delegacia, o relacionamento leve de Ángeles com o outro irmão Herrera (um homem dócil que trabalha como cozinheiro) ajuda a trazer respiro e humanidade para a trama pesada.
O contraste estético e o ritmo que exige paciência
Visualmente, a reconstituição histórica da Cidade do México da década de 1970 é de tirar o chapéu. Dos figurinos e carros clássicos à atmosfera densa e poeirenta das ruas, o show constrói uma identidade visual forte e autêntica.
No entanto, o espectador precisa estar preparado para um ritmo de narrativa mais lento do que o habitual. Por conta do intervalo real de dois anos entre as temporadas, os episódios iniciais gastam bastante tempo reintroduzindo o cenário político antes de pegar embalo de verdade. A série também escorrega, de vez em quando, em soluções um pouco melodramáticas e em diálogos que explicam coisas que a própria cena já havia deixado claras.
Nada disso, porém, apaga o brilho de acompanhar a evolução dessas oficiais, que agora sabem perfeitamente que fazer um bom trabalho policial não significa necessariamente ser recompensada — e que descobrem, da forma mais dura, quanto custa de verdade tentar mudar um sistema corrompido.
Vale a pena ver a 2ª temporada de Mulheres de Azul?
Em suma, o início da temporada 2 de Mulheres de Azul estabelece um amadurecimento marcante para o show. Ao trocar a caçada simples de ficção por uma conspiração de Estado enraizada na dor real da história mexicana, a série ganha em relevância e peso dramático.
Se você busca uma produção policial inteligente, ancorada em atuações impecáveis e em um suspense de tirar o fôlego, essa nova jornada é parada obrigatória.
Elenco
- Bárbara Mori como María
- Natalia Téllez como Valentina
- Amorita Rasgado como Gabina
- Ximena Sariñana como Ángeles
- Miguel Rodarte como Capitão Romandía
- Leonardo Sbaraglia como Alejandro
- Christian Tappan como Chefe de Polícia Escobedo
- Horacio García Rojas como Gerardo
- Bruno Bichir como Goyo
- Mario Zaragoza como General Alfonso Herrera
- Marco Antonio Aguirre como Gilberto Herrera
Ficha técnica
- Título Original: Las Azules
- Título em Português: Mulheres de Azul
- Criadores: Fernando Rovzar e Pablo Aramendi
- Diretores dos Episódios: Fernando Rovzar, J.M. Cravioto e Alfonso Pineda Ulloa
- Distribuição: Apple TV
- Ano de Lançamento (Temporada 2): 2026
- Duração/Formato: 8 episódios semanais (exibidos de 12 de agosto a 30 de setembro de 2026)
- Idioma Original: Espanhol















