Se você achou que o cinema chinês de ficção científica ia parar no sucesso estrondoso de 2019, achou muito errado. Dirigido por Frant Gwo (também creditado como Guo Fan), Terra à Deriva 2: Destino chega chutando a porta das grandes superproduções mundiais. Mas não pense que se trata de uma continuação qualquer.
O longa, distribuído no Brasil pela Sato Company, na verdade funciona como um “episódio zero”, uma prequela que volta no tempo para nos explicar como a humanidade resolveu abraçar a ideia insana — e visualmente absurda — de instalar 10 mil motores gigantescos na crosta terrestre para empurrar o nosso planeta para longe de um Sol prestes a explodir.
Com uma bilheteria monstruosa de US$ 589 milhões globalmente e tendo ultrapassado a marca de US$ 500 milhões na China em apenas 16 dias, o filme chegou a ser o escolhido do país para tentar uma vaga no Oscar 2024 como Melhor Filme Internacional. Mas será que toda essa escala megalomaníaca se traduz em um filme realmente bom, ou é apenas fumaça visual? Vamos debater isso sem amarras.
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O dilema de salvar o planeta ou viver no computador
A grande sacada do roteiro — assinado por um time de peso que inclui Yang Zhixue, Frant Gwo, Gong Geer e Ye Ruchang — é que a salvação do mundo não foi um consenso bonitinho e pacífico. Em meados de 2044, enquanto o governo mundial (a UEG – United Earth Government) tenta viabilizar o Projeto Montanha Movedora (o plano físico de mandar a Terra para o sistema Alpha Centauri), uma parcela gigantesca da população prefere o Projeto Vida Digital.
Afinal, por que gastar gerações e trilhões de recursos em uma viagem espacial perigosa de 2.500 anos se você pode simplesmente digitalizar sua consciência e “viver” para sempre em um paraíso de inteligência artificial? Esse embate ideológico racha a sociedade e gera sabotagens, ataques terroristas e discussões éticas densas. É a luta visceral entre a sobrevivência da matéria e a imortalidade virtual.
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Filosofia e o toque de MOSS
No meio desse cabo de guerra está a inteligência artificial MOSS, que começa a dar seus primeiros passos frios e calculistas sobre o destino da humanidade. Em uma das cenas mais marcantes e filosóficas, o diplomata chinês Zhou Zhezhi (interpretado com maestria por Li Xuejian) faz um discurso contundente na sede da Organização das Nações Unidas apelando para a união dos povos. Ele usa como metáfora um fóssil de fêmur humano de 15.000 anos que foi quebrado e depois cicatrizou, mostrando que a verdadeira marca da civilização é a solidariedade e o dever em tempos de crise.
Os personagens também ganham camadas bem mais profundas que no primeiro filme. O cientista Tu Hengyu, vivido pela lenda de Hong Kong Andy Lau, é o exemplo perfeito. Longe de ser o herói perfeito e altruísta, ele é movido por uma obsessão egoísta e dolorosa de dar uma “vida digital” à sua falecida filha, tornando suas decisões perigosamente cinzentas e extremamente humanas.
Ao mesmo tempo, o carismático Wu Jing retorna como Liu Peiqiang em sua fase de treinamento, entregando tanto o peso dramático de suas perdas pessoais quanto a fisicalidade em sequências de ação impressionantes, como um combate espetacular em gravidade zero.

O espetáculo visual que engole a tela
Tecnicamente, Terra à Deriva 2: Destino é uma das coisas mais colossais já colocadas em tela. O diretor Frant Gwo não poupou recursos: o espaço de estúdio para as gravações cresceu dez vezes em relação ao primeiro longa, chegando a impressionantes 1 milhão de metros quadrados na Oriental Movie Metropolis em Qingdao, na província de Shandong.
Toda essa estrutura — que contou até com a consultoria de cientistas reais para calcular coisas bizarras, como a mudança de um dia para 60 horas após a parada da rotação da Terra — reflete-se em tela com efeitos visuais criados pela renomada Pixomondo que não devem absolutamente nada a Hollywood.
O elevador espacial que sobe aos céus como um trem de alta velocidade de metal, o colapso da Estação Espacial Internacional Ark e o ataque massivo de drones militares hackeados são momentos de deixar qualquer fã de ficção científica babando. Há sequências espaciais e lunares de tamanha escala que rivalizam facilmente com produções ocidentais de peso como Gravidade (2013) ou Ad Astra (2019).
Direção de fotografia e detalhes de câmera
O espetáculo não vive só de destruição em CGI. A sensibilidade visual do diretor de fotografia Michael Liu merece destaque. Em meio ao caos metálico das salas de reunião diplomáticas e dos centros de controle, a câmera se aproveita de vidros, espelhos e reflexos para criar sobreposições sutis dos personagens.
É uma metáfora visual belíssima sobre conexão e isolamento: pessoas que compartilham o mesmo destino e estão profundamente ligadas pelos mesmos dilemas de sobrevivência, mas que fisicamente nunca mais voltarão a dividir o mesmo espaço no filme. É o cinema em sua melhor forma de expressão visual.
Ritmo arrastado e outros “engasgos” narrativos
Como nem tudo são flores no espaço, o longa tem suas falhas e elas pesam um bocado. O principal calcanhar de Aquiles aqui é o ritmo. Com quase três horas de duração (exatos 173 minutos), o filme é um verdadeiro teste de paciência e atenção para o espectador.
O roteiro tenta abraçar o mundo: é drama familiar, é geopolítica internacionalista, é ficção científica “hard” cheia de conceitos de robótica e física teórica, misturados a conspirações de inteligência artificial. Em alguns momentos, o espectador menos acostumado com jargões científicos ou com a burocracia das negociações diplomáticas pode se sentir completamente perdido.
Há uma sensação incômoda de que o diretor, esmagado pela gigantesca expectativa e pela “importância” de entregar o maior blockbuster da história da China, tenha ficado um tanto tímido e engessado para ousar na narrativa, preferindo focar na grandiosidade solene do que no dinamismo puro que tornou o primeiro filme tão divertido. Se o primeiro longa era uma viagem descompromissada e empolgante, este segundo é uma busca longa, detalhista e por vezes cansativa.
Clichês hollywoodianos e astronauta brasileira
Outro ponto fraco é que, em sua busca por ser um blockbuster universal, o filme acaba caindo em várias fórmulas e clichês desgastados de filmes de catástrofe do cinema americano, lembrando misturas de 2012, O Dia Depois de Amanhã, Moonfall, Armageddon ou Impacto Profundo. Os alívios cômicos inseridos em meio à iminência do fim do mundo muitas vezes parecem artificiais e forçados.
Além disso, para nós, espectadores brasileiros, há um elemento curioso que gera um misto de orgulho e estranhamento. A atriz brasileira Daniela Tassy interpreta uma astronauta que tem um papel relevante na trama. Embora seja fantástica a representatividade e a ideia de cooperação global, a execução de suas falas em português soa bastante dura e engessada, lembrando uma dublagem artificial e sem naturalidade, o que quebra um pouco a imersão em momentos importantes.
Vale a pena assistir ao filme Terra à Deriva 2?
Mesmo com seus excessos dramáticos, patriotismo inevitável e um ritmo que às vezes patina, Terra à Deriva 2: Destino é uma obra impressionante. Ele se recusa a ser apenas mais um filme de catástrofe genérico onde um único herói americano de queixo quadrado salva o dia sozinho com um soco no botão vermelho.
É uma ficção científica grandiosa, séria e que realmente acredita na força da coletividade, da ciência e da união humana para enfrentar as piores crises do nosso futuro. Se você tiver paciência para encarar suas quase três horas de duração e se deixar levar pela escala inacreditável de seus efeitos, vai descobrir um dos projetos mais audaciosos e visualmente arrebatadores dos últimos anos. Prepare a pipoca, respire fundo e assista de preferência na maior tela que encontrar.
Ficha técnica
- Título Nacional: Terra à Deriva 2: Destino (ou Terra à Deriva II)
- Título Original: Liú Làng Dì Qiú 2 (The Wandering Earth II)
- Gênero: Ficção Científica / Drama / Ação / Catástrofe
- Ano de Lançamento: 2023
- Duração: 173 minutos
- País de Origem: China
- Direção: Frant Gwo (Guo Fan)
- Roteiro: Ruchang Ye, Hongwei Wang, Frant Gwo, Gong Geer, Yang Zhixue (baseado em conceitos criados pela equipe de produção a partir do universo de Liu Cixin)
- Direção de Fotografia: Michael Liu
- Trilha Sonora: Roc Chen
- Efeitos Visuais: Pixomondo
- Empresas Produtoras: G!Film (Beijing) Studio Co., China Film Co., Beijing Dengfeng International Culture, CFC Pictures
- Distribuição no Brasil: Sato Company
- Elenco Principal:
- Wu Jing (Liu Peiqiang)
- Andy Lau (Tu Hengyu)
- Li Xuejian (Zhou Zhezhi)
- Wang Zhi
- Zhu Yanmanzi (ou Yanmanzi Zhu)
- Daniela Tassy (Astronauta brasileira)
- Sha Yi (ou Yi Sha)
- Ning Li
- Andy Friend
- Kawawa Kadichi
- Vatilli Makarychev

















