Às vezes, as melhores surpresas no cinema chegam de mansinho, sem aquele alarde todo. É o caso de 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero no original), adaptação da elogiada graphic novel de Isabel Greenberg.
Com direção de Julia Jackman, o longa mistura uma pegada de conto de fadas excêntrico com um debate super atual sobre o controle da mulher e a força da imaginação. Se você curte uma história que junta o tom das fábulas de As Mil e Uma Noites com a urgência de O Conto da Aia, esse filme tem de tudo para capturar a sua atenção logo nos primeiros minutos.
Sinopse
A trama nos joga em um universo fantástico e opressor onde as mulheres são estritamente proibidas de ler e escrever. Conhecemos Cherry (Maika Monroe), uma mulher doce e de aparente inocência que vive um casamento frio e não consumado com Jerome (Amir El-Masry). A situação da protagonista é desesperadora: ela tem um prazo de 100 dias para conseguir engravidar, caso contrário, será executada.
O caos no castelo se instala de vez quando o charmoso hóspede Manfred (Nicholas Galitzine) chega ao local e faz uma aposta bizarra com o marido dela. Manfred afirma que consegue seduzir Cherry e engravidá-la no período de 100 noites. Para proteger a senhora (e seu interesse amoroso) das investidas do visitante intrometido, a leal e inteligente criada Hero (Emma Corrin) decide usar a melhor arma que tem à disposição: passar as noites narrando histórias envolventes com a intenção de distrair Manfred e salvar a vida de Cherry.
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Crítica do filme 100 Noites de Desejo
Histórias como arma de resistência
O ponto mais alto de 100 Noites de Desejo é a maneira como ele transforma o ato de contar histórias em uma verdadeira ferramenta de sobrevivência. Naquele mundo dominado pelas regras do patriarca Birdman (Richard E. Grant), a mulher não tem voz e é tratada como mera propriedade. A sacada de Hero ao usar suas fábulas para frear os impulsos de Manfred é inteligente e constrói uma mensagem política fundamental sobre o apagamento feminino.
Em meio a isso tudo, o romance queer entre Cherry e Hero vai nascendo de forma orgânica durante o convívio, tornando-se não só o coração da narrativa, mas um baita ato de desobediência contra as imposições do sistema. O roteiro acerta em cheio por conseguir carregar uma boa tensão sexual e passar seu recado sobre libertação sem precisar ser panfletário ou forçar a barra.

Brilho do elenco
A força do filme está pesadamente escorada no seu ótimo trio principal. Maika Monroe entrega uma Cherry que carrega sua angústia em silêncio, transmitindo com perfeição a fragilidade de alguém presa a uma sentença de morte, enquanto tenta entender as próprias vontades. Já Emma Corrin rouba a cena e nunca deixa a peteca cair. A atriz constrói uma Hero imponente, observadora e que exala poder e cuidado em cada olhar.
E quem diria, mas Nicholas Galitzine (que curiosamente também dá as caras nesta semana nos cinemas em Mestres do Universo) foi uma grande surpresa aqui. Longe da sua zona de conforto habitual, ele dosa muito bem o carisma cafajeste e o desconforto de Manfred, mostrando o arco de um cara que aos poucos ganha empatia pela mulher que antes tratava apenas como objeto de aposta. O elenco também traz a cantora Charli XCX como Rosa, mas, infelizmente, a atuação dela acaba não atingindo todo o potencial dramático que a personagem exigia.
Estética deslumbrante, mas de alma fria
Se tem uma coisa inegável sobre 100 Noites de Desejo, é que o filme é um espetáculo de lindo. A direção de arte e os figurinos exuberantes assinados por Susie Coulthard dão vida a uma atmosfera poética e melancólica. O trabalho da direção de Julia Jackman chega até a render comparações com o tom de cineastas como Alejandro Jodorowsky ou Wes Anderson, através de seus enquadramentos peculiares e ângulos inusitados.
O problema é que, para boa parte do público, tanto capricho visual acaba esbarrando num resultado meio vazio. A narrativa tem problemas de ritmo e, às vezes, soa fria demais. É como se a direção confiasse tanto nos simbolismos da tela que esquecesse de fisgar as emoções de quem está assistindo. Faltou aquela “pimenta” para fazer o público se envolver de cabeça na tensão prometida, deixando a sensação de que o filme é cheio de ótimas ideias, mas peca na hora de executá-las com vigor.
100 Noites de Desejo é bom?
No fim das contas, 100 Noites de Desejo é uma obra que ganha pelo aconchego visual e pela sensibilidade de seus temas. Mesmo batendo na trave em alguns momentos devido ao ritmo irregular e uma certa frieza na condução de Julia Jackman, o longa ainda se segura muito bem através do carisma de suas atuações e da profundidade de sua mensagem.
É um belo conto sobre mulheres que insistem em existir, usando o amor e as palavras para não desaparecerem. Pode não ser a experiência catártica que alguns esperam, mas com certeza é um filme que deixa você refletindo – e uma ótima pedida para assistir debaixo das cobertas.
Onde assistir ao filme 100 Noites de Desejo?
O filme está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Trailer de 100 Noites de Desejo (2026)
Elenco do filme 100 Noites de Desejo
- Emma Corrin
- Maika Monroe
- Nicholas Galitzine
- Safia Oakley-Green
- Richard E. Grant
- Josh Cowdery
- Markella Kavenagh
- Clare Perkins















