E se a gente pegasse toda a riqueza cultural do Nordeste e jogasse num liquidificador junto com viagens no tempo, alienígenas e robôs? Essa é exatamente a premissa de Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste, nova animação brasileira dirigida por Ale McHaddo.
O que começou como um curta-metragem lá em 2007 e até virou série em 2022, agora chega aos cinemas ganhando ares de superaventura para toda a família. A proposta é das mais ousadas: fazer uma verdadeira antropofagia cultural, pegando referências da ficção científica gringa e devolvendo tudo com muito sotaque e brasilidade. Mas será que essa mistura deu liga na telona?
Sinopse
A trama acompanha um bando de aventureiros cangaceiros que, meio por acidente, rouba os planos de uma máquina do tempo e acaba viajando quase dois mil anos para frente, indo parar no ano de 3333.
Nesse futuro, o grupo se depara com um “Neo Nordeste” distópico e acaba se separando pelas eras. Agora, eles precisam correr contra o tempo, sobreviver aos desafios tecnológicos e bater de frente com o terrível (e mutante) Cabra da Peste, vilão cuja origem é o grande foco da história.
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Crítica do filme Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste
O encontro do cangaço com o cyberpunk
Logo de cara, o que mais chama a atenção no filme é a sua identidade visual. A direção acerta em cheio ao usar a estética das xilogravuras e do cordel não apenas como enfeite, mas como a base de um universo retrofuturista. Ver o sertão dialogar com a estética cyberpunk gera um contraste super legal e criativo.
O roteiro é lotado de referências que vão da cultura pop internacional, como Star Wars e Caverna do Dragão, até as expressões mais puras da tradição nordestina. Para alguns, essa salada mista de gírias em inglês com elementos do sertão funciona para atrair o público infantojuvenil de forma descontraída. No entanto, é inegável que isso às vezes acaba tirando um pouco do brilho da prometida valorização do cordel, parecendo meio deslocado dentro do universo criado.

Vozes de peso, mas personagens rasos?
Se tem um ponto em que a produção investiu pesado foi no elenco de voz original, que traz nomes incríveis. Temos Bruno Garcia dando um tom imponente ao Capitão Rocha, e o mestre da dublagem Tadeu Mello (conhecido por ser o Sid de A Era do Gelo) entregando um timing cômico perfeito para o cangaceiro Siv (ou Sid). Destaque também para a estreia do cantor Falcão no mundo das animações, dublando de forma bem-humorada o inusitado Falcão Espacial, além de Raissa Xavier como Bonita, Marcelo Mansfield como Cabra da Peste, Carol Góes como Rimbi, e Felipe Mazzoni se desdobrando para dublar múltiplos personagens, como Tatux e Corisco.
Mas aí entra um problema apontado por críticas mais duras: o roteiro acaba limitando esses talentos a personagens muito rasos e arquetípicos. Em vez de aproveitar a complexidade real da história do cangaço, a trama transforma o grupo em meros caçadores de tesouros passeando por cidades renomeadas como “Maceióx” e “Caruarux”. O filme acaba derrapando em alguns estereótipos perigosos e ultrapassados, apelando para piadas sobre a preguiça do nordestino, a hipersexualização da figura feminina e até zombarias com a aparência efeminada do vilão, que foge envolto em purpurina.
Entre o cordel e o caos
Sendo bem sincero, fazer animação independente no Brasil é um desafio imenso e o orçamento limitado da 44 Toons dá as caras na parte técnica. A animação carece de fluidez em várias cenas de ação, perdendo o impacto que a estética pedia. Mas o que realmente incomoda e divide a experiência é o design de som.
A edição de áudio parece não ter pausas: é um excesso saturado de efeitos sonoros típicos de desenhos para crianças pequenas (aquele clássico arsenal de pif, paf, bum, crash), o que infantiliza demais a narrativa. Curiosamente, a montagem também sofre com problemas de ritmo; o longa engata uma quinta marcha para apresentar viagens temporais e vilões de forma acelerada, mas estranhamente arrasta cenas de piadas físicas mais simples, passando segundos preciosos vendo personagens caírem ou demorando para desenvolver um tiroteio.
Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste é bom?
No fim das contas, Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste é aquele tipo de filme que vale pela coragem e pela iniciativa. Transformar a cultura do Nordeste em uma jornada de ficção científica acessível para a criançada é um golaço, e a dublagem brilha com o talento inegável do nosso elenco nacional.
Contudo, para o público adulto ou para quem espera uma narrativa mais afiada, a obra deixa a desejar. Seja pela animação menos fluida, pelo excesso de sons caricatos ou pelo roteiro que abraça estereótipos batidos, o filme acaba perdendo a chance de ser tão inovador quanto sua premissa. Ainda assim, para um passeio em família regado a pipoca e ao humor de ícones como Tadeu Mello e Falcão, o salto para o ano 3333 garante suas boas risadas.
Onde assistir ao filme Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste?
O filme está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Trailer da animação Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste (2026)
Elenco do filme Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste
- Bruno Garcia
- Tadeu Mello
- Raissa Xavier
- Carol Góes
- Marcelo Mansfield
- Felipe Mazzoni
- Falcão















