Lançado no auge da pandemia em 2020, o suspense original Becky tornou-se um sucesso inesperado no circuito de drive-ins e plataformas digitais, oferecendo uma premissa simples, mas irresistível: uma pré-adolescente lidando com o luto que aniquila um grupo de neonazistas. Três anos depois, a personagem titular retorna em A Fúria de Becky (The Wrath of Becky), provando que o tempo não diminuiu em nada sua sede de sangue.
Desta vez sob o comando da dupla de diretores e roteiristas Matt Angel e Suzanne Coote (substituindo Jonathan Milott e Cary Murnion), a sequência abandona qualquer pretensão de seriedade e abraça de vez o absurdo. O resultado é uma comédia de ação ultraviolenta que melhora as falhas de tom do filme original e entrega um entretenimento brutal e catártico.
Sinopse
Dois anos após o massacre de sua família, Becky (Lulu Wilson), agora com 16 anos, vive fugindo do sistema de adoção e tentando se manter fora do radar. Ela encontra um porto seguro morando com Elena, uma senhora gentil, e seu inseparável cachorro, Diego. No entanto, sua paz é estilhaçada quando três homens pertencentes a uma milícia extremista chamada “Homens Nobres” (Noble Men) cruzam o seu caminho em uma lanchonete.
Após uma pequena provocação de Becky, os homens a seguem até em casa, assassinam Elena de forma brutal e sequestram Diego. O que eles não sabem é que acabaram de despertar a ira de uma jovem com um talento excepcional para a violência tática, que fará de tudo para recuperar seu cão e desmantelar o grupo liderado pelo enigmático Darryl (Seann William Scott).
Crítica do filme A Fúria de Becky
Um pós-grindhouse em modo fast food
Se o primeiro filme flertava com a tensão de um Esqueceram de Mim voltado para o terror, a sequência pisa no acelerador e se transforma em algo muito mais próximo de John Wick. A direção de Angel e Coote é enxuta, sem perder tempo: em menos de vinte minutos, o espectador já está investido na nova vida da protagonista e, logo em seguida, o banho de sangue começa.
O estilo visual também muda. Os diretores optaram por uma linguagem mais clássica e “limpa” nas câmeras, mas injetaram uma atitude cartunesca, utilizando gráficos na tela, quebras de quarta parede e congelamentos de imagem para ilustrar os pensamentos sarcásticos e as fantasias homicidas de Becky.
Enquanto alguns críticos consideram o filme um exercício de “pós-grindhouse em modo fast food” ou um escapismo derivativo e descartável, é inegável que a obra tem total consciência de seu status de “filme B” e se beneficia justamente dessa simplicidade sem amarras.

O sangue frio de Lulu Wilson e o vilão de Seann William Scott
O coração pulsante da franquia é, sem dúvida, Lulu Wilson. Aos 16 anos, a atriz demonstra uma evolução fantástica, transformando Becky na personificação perfeita da raiva feminina contida. Abandonando a inocência e abraçando seu trauma, a personagem agora opera quase como uma figura de ação nos moldes de La Femme Nikita — ela está sempre um passo à frente, implacável e calculista.
No polo oposto, a escolha de Seann William Scott para viver o antagonista Darryl é um dos grandes acertos da produção. Conhecido por papéis cômicos, Scott entrega uma performance desprovida de humor; seu líder de milícia é focado, autoritário e genuinamente assustador, comandando a cena sem precisar de caricaturas. O roteiro ainda guarda uma excelente reviravolta no terceiro ato ao revelar que o verdadeiro cérebro por trás da célula terrorista é a matriarca da família, interpretada de forma brilhante por Kate Siegel.
Catarse violenta contra o extremismo
Um dos pontos mais interessantes de A Fúria de Becky é a forma direta e sem filtros como lida com o extremismo moderno. Ao substituir os antigos vilões por membros dos “Homens Nobres” — uma clara e assumida alusão aos Proud Boys e supremacistas brancos —, o filme cria antagonistas absolutamente intragáveis. Eles são racistas, misóginos e estão planejando uma insurreição política.
Ao não tentar humanizar esses vilões, a narrativa libera o público para torcer abertamente pelo massacre. E que massacre. As mortes são imaginativas, sangrentas e mais pautadas na realidade física (como ataques com facões e bestas), proporcionando uma satisfação delinquente que beira o cômico. A violência não é apenas estética; é uma válvula de escape profunda e catártica diante de um cenário de mundo real sufocante.
Expansão da franquia e o mistério da chave
Em vez de ignorar o gancho deixado pelo filme de 2020, o roteiro expande o mistério em torno da famigerada chave que os neonazistas procuravam. É revelado que a chave contém coordenadas secretas e, em um clímax surpreendente que envolve até a CIA, o longa solidifica um universo muito maior do que o esperado.
O filme se recusa a entregar todas as respostas agora para não inflar a narrativa, mas deixa pistas mais do que suficientes para garantir o interesse do público em um inevitável terceiro capítulo.
Conclusão
A Fúria de Becky não tenta reinventar a roda do cinema de suspense ou ação, mas a faz girar com um dinamismo invejável. Superando o filme original ao abraçar de vez a loucura e focar naquilo que o público realmente quer ver, a obra se consolida como uma fantasia de vingança ágil, bem atuada e altamente satisfatória.
Lulu Wilson prova ter o carisma e a destreza necessários para carregar essa franquia nas costas. Se o mundo infelizmente nunca terá escassez de pessoas horríveis e intolerantes, a boa notícia é que não faltarão alvos para a implacável fúria de Becky.
Onde assistir ao filme A Fúria De Becky?
Trailer de A Fúria De Becky (2023)
Elenco do filme A Fúria De Becky
- Lulu Wilson
- Seann William Scott
- Denise Burse
- Jill Larson
- Michael Sirow
- Aaron Dalla Villa
- Matt Angel
- Courtney Gains

















