Anatéma 2024 crítica do filme - Flixlândia

Crítica | Entre a fé e o caos subterrâneo: o desastre ambicioso de ‘Anatéma’

Foto: Divulgação
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Produzido sob o selo “The Fear Collection” — uma iniciativa de Álex de la Iglesia e Carolina Bang para fomentar o cinema de horror espanhol —, Anatéma (2024) chega como uma das propostas mais singulares e, ao mesmo tempo, divisivas da temporada.

Marcando a estreia de Jimina Sabadú na direção de longas-metragens, com roteiro coescrito por Elio Quiroga, o filme tenta resgatar a essência do “fantaterror” ibérico, combinando horror religioso, lendas urbanas madrilenhas e um forte traço cultural local.

Disponível na HBO Max aqui no Brasil, o longa ambiciona ser uma descida assustadora aos horrores ancestrais, mas acaba entregando uma experiência que oscila violentamente entre o brilhantismo atmosférico e o mais puro caos trash.

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Sinopse

A trama acompanha Juana Rabadán (interpretada por Leonor Watling), uma freira obstinada e com formação em arquitetura, que carrega pesados traumas familiares ligados a eventos paranormais na infância. Ela é comissionada pelo arcebispo para investigar uma das igrejas mais antigas de Madri, erguida sobre uma vasta e misteriosa rede de catacumbas. O objetivo é recuperar o mítico Selo de São Simeão, um artefato religioso ancestral que supostamente mantém um mal incomensurável trancafiado no submundo.

Acompanhada por um padre (Pablo Derqui) e um grupo de apoio, Juana inicia uma perigosa expedição por esses corredores claustrofóbicos, descobrindo que o local abriga forças demoníacas e segredos que jamais deveriam ser desenterrados.

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Crítica do filme Anatéma

A força da atmosfera e o uso do espaço

Se há um aspecto onde Anatema demonstra genuíno potencial, é na construção do seu clima inicial. O filme evoca paralelos claros com o terror claustrofóbico de Assim na Terra Como no Inferno (2014) e flerta assumidamente com a atmosfera densa do clássico Príncipe das Trevas (1987), de John Carpenter.

Sabadú faz um excelente trabalho ao utilizar locações reais de monastérios em Madri e cavernas pré-históricas no País Basco, criando um ambiente sujo, escuro e opressivo. O uso de sombras, pedra e silêncio constrói um horror psicológico promissor nos primeiros atos, deixando o espectador com a sensação constante de que algo nefasto espreita naquelas masmorras.

Anatéma crítica do filme 2024 - Flixlândia
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O “costumbrismo” espanhol encontra o demônio

Um dos charmes inegáveis da obra é o seu “costumbrismo” — a inserção de tradições, hábitos e do folclore puramente espanhol no meio do apocalipse sobrenatural. O roteiro abraça o submundo eclesiástico de Madri, com beatos, cheiro de incenso e festividades locais dividindo espaço com anomalias demoníacas.

Essa mistura poderia ser um triunfo de identidade para o filme, evocando produções cultuadas como O Dia da Besta. No entanto, a linha entre a homenagem ao cinema europeu fantástico dos anos 2000 e o ridículo involuntário é tênue, e Anatema frequentemente tropeça para o lado errado.

Caos narrativo e efeitos visuais questionáveis

O grande calcanhar de Aquiles de Anatema é, sem dúvida, a sua execução técnica e narrativa. À medida que a história avança para as profundezas, o tom de suspense comedido dá lugar a um espetáculo B-movie que beira o absurdo. A direção perde a mão em escolhas estéticas duvidosas, com efeitos visuais pobres que quebram completamente a imersão do espectador.

O filme insere elementos estapafúrdios que parecem não pertencer à mesma história, como “zumbis” que fazem parkour, monstros que saem de telas lembrando O Chamado, e até mesmo um bizarro clímax envolvendo um “deus verme” que os personagens tentam combater cantando uma canção infantil.

Além disso, a edição é frenética e desorganizada. Cortes bruscos, transições injustificadas para o negro e elipses mal resolvidas sugerem que houve uma verdadeira batalha na sala de montagem. Momentos dramáticos são minados por escolhas incrivelmente equivocadas de tom — como introduzir uma tensão aterrorizante a partir de um ataque de hemorroidas —, tornando impossível levar as ameaças a sério.

O elenco como tábua de salvação

Em meio a tanto descontrole, Leonor Watling se consagra como a principal âncora da produção. Sua entrega confere peso emocional a Juana, conseguindo transmitir intensidade e humanidade mesmo quando contracena com o CGI mal renderizado.

Pablo Derqui, no papel do Padre Ángel, também oferece um suporte competente, sustentando os debates morais do enredo. Já o restante do elenco de apoio parece estar à mercê da direção irregular; atores que costumam brilhar em outras produções — como Jaime Ordóñez e Manuel de Blas — acabam reféns de atuações exageradas ou personagens caricatos que pouco acrescentam à tensão dramática.

Conclusão: Anatéma é bom?

No fim das contas, Anatema é um frustrante lembrete de que boas ideias não se sustentam sozinhas. O conceito de explorar os labirintos subterrâneos de Madri em uma trama de aventura e horror religioso é excelente, mas falta lapidação, orçamento e, acima de tudo, foco na execução.

Para os fãs incondicionais do terror trash, de produções lado B descompromissadas ou entusiastas do cinema peculiar de Álex de la Iglesia, o filme pode até render boas risadas e momentos de diversão anárquica. Porém, para o espectador em busca de uma narrativa coesa e assustadora, a obra de Jimina Sabadú entrega uma experiência profundamente irregular e caótica, naufragando sob o peso de suas próprias bizarrices.

Onde assistir ao filme Anatéma?

Trailer de Anatéma (2024)

YouTube player

Elenco do filme Anatéma

  • ⁦⁨Leonor Watling⁩
  • ⁨Pablo Derqui⁩
  • ⁨Jaime Ordóñez⁩
  • ⁨Keren Hapuc⁩
  • ⁨Mauro Brussolo⁩
  • ⁨Mariano Llorente⁩
  • ⁨Manuel De Blas⁩⁩
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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