As Correntes crítica do filme argentino 2026

‘As Correntes’ entrega um drama intenso sobre saúde mental e identidade

Foto: Estação Filmes / Divulgação
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Olá, caro leitor, bem-vindo mais uma vez! O cinema argentino sempre nos presenteia com filmes extremamente profundos, marcados por temáticas políticas, críticas sociais e mergulhos intensos na subjetividade de seus personagens. É o que acontece em As Correntes (Las Corrientes), de 2026, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (18).

Desta vez, recebemos da diretora e roteirista Milagros Mumenthaler — de A Ideia de um Lago, de 2016 — um roteiro denso, no qual a cena mais inusitada já nos é exibida logo no início, gerando todo o pano de fundo para as discussões que virão a seguir. Vale dizer que este é o terceiro longa de Milagros, que estreou no formato com De Volta Para Ficar, de 2011, além de já ter recebido diversos prêmios por seus curtas desde 2004.

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Sinopse

Em As Correntes, Catalina, argentina que vive em Buenos Aires e é chamada por familiares e amigos de Lina — aqui vivida pela excelente Isabel Aimé González Sola — vai até Genebra para receber um prêmio por seus trabalhos como estilista.

Em uma cidade e em um ambiente social nos quais não conhece ninguém, recebe sua premiação em um evento, porém sente-se totalmente deslocada — tanto na cerimônia quanto na fria cidade suíça. A partir daí, começa a vagar pelas ruas, passa por uma loja de bordados e chega a uma ponte sobre o rio Ródano — ou Rhône, em francês — aparentemente localizada na região de Ponts de l’Île. Subitamente, atira-se ao rio, sendo posteriormente resgatada pela polícia, sem ferimentos, e levada de volta ao hotel.

Ao retornar a Buenos Aires, sem comentar o ocorrido com ninguém, começam a se delinear as situações que nos levarão a adentrar os pensamentos, as visões e as questões internas de Lina, especialmente em relação ao que foi desencadeado por sua decisão naquela ponte.

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Crítica do filme As Correntes

Lina é casada com Pedro (Esteban Bigliardi), um médico bem-sucedido, com quem tem a pequena Sofia (Emma Fayo Duarte), em uma vida aparentemente padrão. Ao retornar para casa, Lina modifica seus hábitos diários, profundamente afetada pelo ocorrido em Genebra, passando a demonstrar uma fobia à água extremamente forte e incomum. Seu marido começa a questionar o porquê de ela estar tão estranha — até porque ela esconde dele que não tem tomado banho e que sua higiene está sendo feita de outra maneira —, mas Lina não permite que ele saiba nada a respeito.

Essas atitudes passam a afetar inclusive sua forma de cuidar de Sofia, instaurando uma introspecção em sua rotina que compromete também a dinâmica do casal. Ao visitar uma antiga amiga, Amalia (Jazmín Carballo), filha de sua falecida cabeleireira, Lina abre seu coração. Nesse instante, Amalia chega a demonstrar certo desdém em relação a Pedro.

Aos poucos, vai ficando clara a desconexão de Lina com a realidade. Isso se evidencia também na forma como ela observa uma de suas clientes, que tenta usar um vestido antigo que já não lhe serve mais por conta da idade. Há ali uma percepção do descuido com a própria aparência quase como um “jogar fora sua roupa” para se mostrar como realmente é, e não como se construiu diante do mundo.

A imagem de um marido não tão compreensivo, que cobra uma definição sobre seu estado mental, também ganha força. Em determinada cena, sua visão sobre o corpo de Lina expõe o vazio da relação entre os dois, tornando ainda mais evidente a distância emocional existente no casamento.

Ao final, a explicação para aquele deslocamento mental aparece quando Lina visita sua mãe. E o papel de Sofia terá uma importante contribuição para sua cura — ou seria apenas um retorno ao estado anterior? —, além, é claro, de um tratamento psicológico adequado.

As Correntes 2026 crítica do filme argentino
Foto: Estação Filmes / Divulgação

Filme argentino As Correntes é bom?

Se quisermos, podemos estabelecer um paralelo entre As Correntes, especialmente em relação ao salto na água, e outros dois filmes do cinema: O Atalante, de 1934, e La La Land. Ambos trazem consequências diferentes, mas há um contraste interessante entre a água gelada do Rhône e a água gelada do rio Sena, em Paris.

O surto vivido por Lina no Rhône poderia ter uma explicação baseada no que hoje chamamos de burnout: uma sensação de despertencimento do mundo causada pelo estresse e pelo excesso de trabalho. Também poderia ser visto apenas como um momento de fuga da realidade, no qual ela não conseguiria medir rapidamente as consequências de seu ato.

Como pano de fundo, é possível lembrar a própria cena de O Atalante, em que se diz que “o mergulho nas profundezas escuras e frias permite que ele enxergue o rosto de seu verdadeiro amor flutuando na água”. Em As Correntes, teremos algo muito parecido na visão de Lina: é essa imagem que lhe permite voltar à superfície e continuar.

A pressão a que uma mulher de sucesso é submetida, a obrigação de estar sempre arrumada e preparada para o próximo evento, o próximo compromisso, a próxima maquiagem, é justamente algo que pode levar aos tipos de desconexão aqui retratados.

Milagros consegue deixar Isabel extremamente à vontade em seu papel, explorando suas expressões faciais de forma a incluí-la e retirá-la de seus momentos de “ser ela mesma” ou “ser outra pessoa”. É preciso muita introspecção para compreender até onde isso a levará.

E, apesar de haver uma explicação plausível e física para o que se desenrola ao final, ainda assim tudo depende de como se volta a comandar a própria vida sem permitir que a responsabilidade seja inteiramente transferida para outras causas. Há também uma camada mais profunda possível: a de uma geração posterior àquela que viveu os horrores da ditadura argentina, mas que ainda parece carregar, de forma silenciosa, os ecos emocionais desse trauma coletivo.

As Correntes é um filme feito para pensar e refletir. Um filme feito por mulheres para mulheres — e também para homens que consigam ter empatia com as dificuldades que suas mães, amigas e companheiras possam ter enfrentado ao longo da vida. Balde de pipoca!!! Ótimo filme!

Onde assistir ao filme As Correntes?

As Correntes estreia nesta quinta-feira, 18 de junho de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.

Trailer de As Correntes (2026)

YouTube player

Elenco do filme argentino As Correntes

  • Isabel Aimé Gonzalez-Sola
  • Esteban Bigliardi
  • Claudia Sánchez
  • Ernestina Gatti
  • Jazmín Carballo
  • Patricia Mouzo
  • Susana Saulquin
Escrito por
Cleon

Cleon (pseudônimo de Antonio Filho) é da área de TI, mas vive com a cabeça nas estrelas. Trocou linhas de código por linhas de roteiro — e escreve sobre séries e filmes como quem decifra algoritmos de emoção humana.

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