O cinema brasileiro contemporâneo tem reservado espaços valiosos para acertar contas com a história e resgatar memórias. No entanto, poucas obras recentes conseguem olhar para o amanhã com tanta ternura, vivacidade e inteligência quanto A Fabulosa Máquina do Tempo, novo documentário dirigido por Eliza Capai.
Longe de se apoiar em um tom meramente panfletário ou assistencialista, o filme prefere colocar a câmera na mesma altura das crianças e deixar que o jogo da fabulação conduza a narrativa. O resultado é uma experiência audiovisual luminosa, que emociona sem recorrer ao sentimentalismo barato e prova que brincar também é uma forma profundamente séria e potente de inventar o futuro.
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Sinopse
O cenário é a pequena cidade de Guaribas, no interior do Piauí, município historicamente marcado pelo baixo IDH que ganhou projeção nacional ao ser escolhido como projeto-piloto do programa Fome Zero em 2003, durante a primeira gestão do presidente Lula, tornando-se também decisivo para a consolidação do Bolsa Família. É nesse território que um grupo de garotas de 7 a 12 anos participa de uma oficina audiovisual e decide construir uma máquina do tempo imaginária — simbolizada poeticamente por uma caixa d’água no meio da paisagem árida.
A partir desse dispositivo lúdico, as meninas assumem equipamentos de filmagem e realizam entrevistas com suas próprias mães e avós. Entre brincadeiras, encenações e conversas sinceras, elas confrontam os ciclos de pobreza, o isolamento e o machismo estrutural enfrentados pelas gerações anteriores, enquanto projetam horizontes inéditos de liberdade, autonomia e sonhos para suas próprias vidas.
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Crítica do filme A Fabulosa Máquina do Tempo
O cinema como espaço de brincadeira e invenção democrática
O grande triunfo de Eliza Capai em A Fabulosa Máquina do Tempo está na recusa em tratar suas jovens protagonistas como meros objetos de estudo sociológico. Aqui, as garotas de Guaribas são agentes ativas e codiretoras do próprio filme. Munidas de microfones boom improvisados com cabos de vassoura, claquetes de brinquedo e câmeras profissionais, elas tomam o fazer cinematográfico como um brinquedo sério. A direção estabelece uma relação horizontal verdadeira com o elenco infantil: Eliza Capai provoca com perguntas delicadas, mas sabe recuar, ouvir com paciência e permitir que o imponderável e o humor espontâneo tomem conta da cena.
Exemplo disso surge quando as garotas devolvem questionamentos à própria cineasta ou retrucam provocações religiosas com uma retórica afiada assimilada nos cultos evangélicos locais — como no momento hilário em que uma menina decreta que não acreditar em pecado é, em si, o maior pecado da diretora. Essa cumplicidade transforma o set de filmagem em uma verdadeira oficina de desinibição e expressão, onde a linguagem do cinema surge como ferramenta de democratização e emancipação social.

Do chão do sertão à lúdica nave espacial: estética e sensibilidade
Do ponto de vista técnico e estético, o longa-metragem entrega um apuro rigoroso que contrasta com a falsa impressão de desproposito que projetos com crianças costumam passar. A direção de fotografia assinada por Carol Quintanilha faz escolhas corajosas e brilhantes. Trabalhando com uma lente fixa de 50mm e abertura 1.2, a câmera opera sempre colada na linha dos olhos das garotas, garantindo uma intimidade tátil sem jamais invadir seus espaços.
A paisagem do sertão do Piauí e da Serra das Confusões ganha contornos quase espaciais, onde o alaranjado da terra árida evoca atmosferas marcianas que dialogam com citações visuais e conceituais a obras como 2001: Uma Odisseia no Espaço e Barbie. Já a montagem, realizada a quatro mãos por Daniel Grinspum e pela própria Eliza Capai, recusa as amarras de uma estrutura documental engessada para acompanhar o ritmo orgânico das brincadeiras e das repetidas pequenas falas das garotas, costurando planos e contraplanos com leveza. Tudo isso é embalado pela trilha sonora precisa de Décio 7 e por um trabalho de som direto irretocável, elementos que justificam plenamente o prêmio de Melhor Feito Técnico-Artístico conquistado no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara.
A dialética entre o peso do passado e a autonomia do futuro
Por trás das roupas coloridas, bigodes postiços e risadas contagiantes, A Fabulosa Máquina do Tempo não se esquiva de temas espinhosos e urgentes. O filme estabelece uma curva dialética impecável ao confrontar a memória das mães — marcadas pela fome de outrora, pela interrupção dos estudos, pelo casamento precoce e pelo abandono — com a nova realidade vivenciada pelas filhas. Assuntos graves como a violência doméstica, a gravidez na adolescência e o alcoolismo masculino (simbolizado de forma contundente pela imagem de um homem embriagado carregando uma cobra morta no pescoço) surgem organicamente no relato.
Contudo, o olhar das crianças reinterpreta essas dores sem cinismo. Enquanto as mães confessam que gostariam de voltar ao passado para mudar suas escolhas, as filhas usam a máquina do tempo para planejar o amanhã. Elas brincam de casinha, mas expõem com clareza as divisões desiguais de gênero ao constatarem que aos homens cabe a rua e a cachaça, enquanto às mulheres resta o trabalho doméstico e os filhos.
Mas a virada geracional é evidente: quando indagadas sobre o futuro, garotas como Manu e Sophia decretam que não querem se casar jovens, preferem ter animais de estimação a marido (“porque marido é chato”) e projetam carreiras como professoras, enfermeiras e advogadas criminalistas. A transformação proporcionada pelas políticas públicas ganha corpo e alma na tela.
Filme A Fabulosa Máquina do Tempo é bom?
Sensível, inteligente e extremamente afetuoso, A Fabulosa Máquina do Tempo se consolida como um dos grandes momentos do cinema documentário brasileiro recente. A diretora Eliza Capai entrega um filme que diverte ao mesmo tempo em que convida o leitor e o espectador a refletir sobre as profundas assimetrias do nosso país.
Ao transformar a imaginação de meninas do sertão do Piauí em um ato político de resistência, a obra nos lembra que escutar a infância com respeito é o primeiro passo para construir qualquer futuro possível. Um filme necessário, luminoso e que deixa no peito um sopro renovado de esperança.
Trailer do filme A Fabulosa Máquina do Tempo
Ficha técnica
- Título Original: A Fabulosa Máquina do Tempo
- Ano de Lançamento: 2026
- País de Origem: Brasil
- Duração: 70 minutos
- Gênero: Documentário / Híbrido
- Direção: Eliza Capai
- Roteiro: Eliza Capai e Daniel Grinspum
- Direção de Fotografia: Carol Quintanilha
- Montagem: Daniel Grinspum e Eliza Capai
- Trilha Sonora Original: Décio 7
- Produção: Amana Cine (ou Mana Cine), em coprodução com Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil
- Distribuição: Descoloniza Filmes
- Elenco Principal: Alice, Ana, Ana Vitoria, Joice, Laiane, Larissa, Laura, Lorenna, Manu, Manuellinha, Safira, Sophia, Thaemmy, Thabata
- Prêmios e Exibições: Estreia mundial no 76º Festival de Berlim (Mostra Generation Kplus); Prêmio de Melhor Feito Técnico-Artístico no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara; exibido no 31º É Tudo Verdade, no 30º CinePE, na Mostra Ecofalante e no Festival de Vitória

















