Aquele que viu o abismo filme brasileiro 2026

‘Aquele Que Viu o Abismo’: cinema brasileiro desafia o espectador em uma distopia hipnotizante e provocativa

Foto: Embaúba Filmes / Divulgação
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O cinema contemporâneo muitas vezes se acomoda em estruturas narrativas fáceis e consolidadas, tratando quem assiste como um mero consumidor passivo de imagens mastigadas. É justamente no reverso desse modelo que surge Aquele Que Viu o Abismo, obra dirigida e concebida por Gregorio Gananian e Negro Leo.

Consagrado com o prêmio de Melhor Filme na Mostra Olhos Livres da 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o longa-metragem rejeita qualquer conforto formal para mergulhar o público em uma experiência estética e sensorial ruidosa. Em vez de entregar respostas prontas ou explicações convencionais, o filme convida o espectador a encarar a vertigem de um mundo em ruínas e a construir seus próprios sentidos a partir dos fragmentos na tela.

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Sinopse

Ambientado em um futuro indefinido dominado pelo colapso social e por novos mecanismos de controle, o longa acompanha X (interpretado por Negro Leo), um homem enigmático e solitário que vive imerso em angústias existenciais e visões perturbadoras. Atravessando um cenário de escassez, paranoia e uma misteriosa trama de assassinatos, ele passa a ser perseguido e recrutado pela ProLife.

Trata-se de uma corporação multinacional que promete aos cidadãos fragilizados a conquista da vida eterna e a salvação, desde que entreguem em troca sua autonomia e submetam suas mentes e corpos ao sistema. Entre sessões neuropsiquiátricas, viagens entre o Brasil e a China e alucinações marcadas por néon e música, X tenta compreender sua própria percepção da realidade enquanto busca se libertar de uma estrutura opressora.

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Crítica do filme Aquele Que Viu o Abismo

A desconstrução da cena inicial e a vulnerabilidade do corpo negro

Logo no primeiro plano, Aquele Que Viu o Abismo estabelece uma ruptura contundente com as convenções do cinema tradicional e até com certas fórmulas contemporâneas. O protagonista X surge chorando copiosamente, em visível desespero, com uma arma apontada para a própria boca — uma tentativa de suicídio em que ele acaba disparando contra a própria perna. Ao expor um homem negro em um estado de profunda fragilidade emocional e dor existencial, o filme recusa os estereótipos históricos que associam corpos negros apenas à violência fria ou à virilidade inabalável.

Há aqui o resgate de um mal-estar subjetivo profundo, um banzo histórico que tensiona as exigências de produtividade impostas pelo capitalismo moderno. Questionado pela ProLife sobre seu propósito de vida, X responde simplesmente que deseja tocar piano para as pessoas. Esse anseio, que parece despretensioso, carrega uma crítica mordaz: em uma sociedade utilitarista, a arte e a sensibilidade pura não são reconhecidas como razões válidas para existir.

Aquele que viu o abismo filme brasileiro 2026
Foto: Embaúba Filmes / Divulgação

O labirinto sensorial e a provocação da linguagem experimental

Construído sem um roteiro rígido ou plano de filmagem tradicional, sendo estruturado a partir do improviso e lapidado na montagem assinada por Gregorio Gananian, Negro Leo e João Dumans, o filme funciona por meio da sobreposição de ruídos, texturas digitais e colagens. As imagens capturadas em locações que vão de São Paulo à China — fruto de arquivos de viagens e residências artísticas — dialogam de forma pulsante com a trilha sonora vibrante concebida por Negro Leo e Henri Daio.

O longa evoca o espírito de obras radicais como O Bandido da Luz Vermelha e traz ecos da memória fragmentada de La Jetée, utilizando grafismos e camadas de som que exigem uma postura ativa do espectador. As falas desincronizadas, a fusão de idiomas (português, inglês e chinês) e as performances magnéticas — como a aparição marcante da cantora Ava Rocha entoando que “um homem livre não precisa adular ninguém” — transformam a projeção em uma experiência física e estética estimulante, onde o caos visual rebate a bagunça mental do próprio protagonista.

A ruína tecnológica e o capitalismo de vigilância da ProLife

Sob a camada de experimentação artística, existe uma sátira agudíssima ao transumanismo e às promessas salvadoras da tecnologia moderna. A corporação ProLife representa o ápice da mercantilização do desejo humano de escapar da morte e do sofrimento. Vendendo a imortalidade a uma população devastada, a empresa opera como uma rede invisível de controle biopolítico e neuropsiquiátrico que exige a anulação da individualidade.

O filme questiona de forma provocativa até que ponto o desejo por segurança tecnológica não destrói os últimos vestígios de humanidade e liberdade. Embora a profusão de conceitos e a recusa da linha reta possam gerar momentos de dispersão ou distanciamento para parcelas do público habituadas ao formato comercial, esse hermetismo é o próprio motor do projeto: abraçar a imperfeição, o risco e a margem como única via possível de resistência cultural.

Filme Aquele Que Viu o Abismo é bom?

Ao fim de seus enxutos 70 minutos, Aquele Que Viu o Abismo se confirma como um gesto de coragem e liberdade no cinema brasileiro contemporâneo. Ao aliar a atuação visceral de Negro Leo ao olhar inventivo de Gregorio Gananian, a produção transforma limitações de orçamento em potência poética e política.

Não se trata de uma obra feita para acalentar ou oferecer respostas fáceis, mas sim de uma viagem sensorial que chacoalha certezas, questiona a mercantilização da vida e reivindica o direito de sentir e experimentar o cinema em sua forma mais pura e desafiadora. Para quem aceita o convite de olhar para o abismo ao lado do protagonista, o que se encontra na tela é um reflexo incômodo, mas profundamente necessário, das nossas próprias angústias e buscas por libertação.

Trailer do filme Aquele Que Viu o Abismo

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Elenco de Aquele Que Viu o Abismo (2026)

  • Negro Leo
  • Ava Rocha
  • Danielly O.M.M. Kaufmann
  • Clara Choveaux
  • Lena Kilina
  • Alê Amazônia
  • Sun Yuchen
  • Sun Mingzhen
  • Uma Gaitán Campelo Rocha Gonçalves

Ficha técnica

  • Título: Aquele Que Viu o Abismo
  • Direção: Gregorio Gananian e Negro Leo
  • Roteiro: Gregorio Gananian, Negro Leo e João Dumans
  • Fotografia: Gregorio Gananian e Pablo Hoffman
  • Montagem: Gregorio Gananian, Negro Leo e João Dumans
  • Trilha Sonora: Negro Leo e Henri Daio
  • Produção: Zaum Cinema e Katásia Filmes
  • Distribuição: Embaúba Filmes
  • Duração: 70 minutos
  • País/Ano: Brasil/China, 2024 (Lançamento nos cinemas em 30 de julho de 2026)
  • Premiações: Melhor Filme na Mostra Olhos Livres / Troféu Carlos Reichenbach na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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