Rodrigo Santoro no filme Corrida dos Bichos, de 2026, do Prime Video

Com Rodrigo Santoro brilhando, ‘Corrida dos Bichos’ diverte, mas peca pelo excesso de tramas

Foto: Prime Video / Divulgação
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O cinema brasileiro anda com tudo, conquistando espaço com sucessos recentes de grande escala. Mas faltava aquela guinada de gênero mais pop, pesada e cheia de ação. É exatamente essa lacuna que Corrida dos Bichos, superprodução que acaba de estrear no catálogo do Prime Video, tenta preencher com as unhas e dentes.

Sob o comando de um trio de diretores de peso — Ernesto Solis, Rodrigo Pesavento e Fernando Meirelles (que volta a filmar em português no Rio de Janeiro pela primeira vez desde o clássico Cidade de Deus em 2002) —, o longa traz uma proposta ousada: transformar o tradicional jogo do bicho em uma competição de sobrevivência mortal em um futuro devastado. É uma espécie de Round 6 carioca, mas com identidade absolutamente brasileira e que usa a nossa cultura para colocar o dedo na ferida social.

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Sinopse

A história se passa 45 anos após a “Grande Catástrofe”, um evento apocalíptico que, entre outras desgraças, simplesmente secou o mar do Rio de Janeiro. Nesse cenário de pura ruína e desigualdade extrema, as elites vivem no luxo enquanto os pobres lutam diariamente para não morrer de fome e perseverar. Para piorar, o antigo jogo do bicho ressurgiu totalmente repaginado: agora, ele é o espetáculo esportivo mais popular e brutal da cidade, onde corredores usam máscaras de animais e disputam pistas violentas por vários distritos sob as ordens de magnatas em salas de controle.

Para entrar no jogo, o competidor precisa dar um ente querido como garantia (colateral). É nesse submundo que entra Mano (vivido por Matheus Abreu), um jovem caçador da zona restrita que odeia o sistema, mas é forçado a correr sob a máscara do Gato quando sua irmã Dalva (interpretada por Thainá Duarte) se voluntaria como garantia. Para tentar salvá-la e sobreviver, ele precisará da ajuda e dos conselhos de Nadine (vivida por Isis Valverde), uma competidora rica e misteriosa que é casada com o sádico jogador Leon (vivido por Bruno Gagliasso).

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Crítica do filme Corrida dos Bichos (2026)

Ação frenética e um visual de encher os olhos

O ponto mais forte de Corrida dos Bichos é, sem dúvida, a energia que ele entrega nas telas. Cada corrida é desenhada com uma dinâmica absurda, cheia de parkour, perseguições insanas e confrontos físicos que deixam qualquer um grudado na cadeira. A divisão de tarefas na direção deu super certo aqui: Rodrigo Pesavento cuidou das sequências de ação e o resultado é impecável, com coreografias de dublês realistas e uma geografia de cena muito fácil de acompanhar.

Não é de hoje que o jogo do bicho passeia pelas telas brasileiras — obras como Amei um Bicheiro (1952), Os Enforcados (2024) e Donos do Jogo (2025) já exploravam a corrupção e a violência que rondam esse submundo. A grande sacada deste novo longa é tirar esse universo do realismo urbano habitual e jogá-lo direto em uma ficção científica e de ação brutal.

O design de produção assinado por Tulé Peake dá um show à parte ao misturar cartões-postais reais do Rio de Janeiro com um visual decadente e futurista. Isso ajuda a disfarçar alguns efeitos especiais digitais (VFX) que, por conta de limitações de orçamento, parecem um pouco inacabados e artificiais em alguns momentos.

Interessante notar que, enquanto a maioria das filmagens ocorreu em locações reais, parte do elenco, como Isis Valverde, revelou ter sofrido bastante para atuar contra o famoso “fundo verde” (chroma key), encarando o desafio de interpretar “para o nada” antes da inserção dos efeitos digitais na exaustiva pós-produção de dois anos. Outro detalhe bem brasileiro é a trilha sonora, que tem como tema principal uma versão inédita da clássica música “Bichos Escrotos”, dos Titãs (lançada originalmente em 1986 no histórico disco Cabeça Dinossauro), agora cantada por Anitta, que também faz uma ponta como atriz no longa.

Corrida dos Bichos crítica do filme de 2026 do Prime Video
Foto: Prime Video / Divulgação

Rodrigo Santoro brilha como o mestre do espetáculo

No elenco de estrelas, quem rouba a cena de forma acachapante é Rodrigo Santoro. Ele interpreta Abu, um ex-corredor vaidoso que agora atua como o gerente e mestre de cerimônias da competição. O ator revelou que a inspiração para o personagem veio de Fyodor Pavlovich Karamazov, figura moralmente questionável do clássico romance Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski. Essa referência literária se traduz em um vilão fascinante, asqueroso, imoral e, ao mesmo tempo, extremamente carismático e cativante.

Por outro lado, Bruno Gagliasso faz um bom trabalho ao dar vida ao repugnante Leon, um “escravocrata moderno” da elite que controla os corredores como se fossem sua posse pessoal, embora falte um pouco do carisma de Santoro. O protagonista de Matheus Abreu entrega uma presença física excelente, essencial para as cenas de ação, embora o roteiro exija pouco de seus diálogos além de correr e lutar por sua sobrevivência.

Roteiro atira para todos os lados e peca pelo excesso

Apesar de ter um conceito inicial brilhante — criado por Ernesto Solis ainda em 2008 —, o filme tropeça justamente na hora de amarrar suas tramas. Com quatro roteiristas assinando o texto (Ernesto Solis, Rodrigo Lages, Eva Klaver e Marco Abujamra), a narrativa parece uma colcha de retalhos. Há uma tentativa de abordar temas pesados e urgentes, como desigualdade de classe e gênero, crise climática, o vício em apostas (trazido pelo personagem curto de Seu Jorge) e a espetacularização da violência, mas tudo é tratado de forma superficial e apressada.

A resistência contra o sistema opressor, por exemplo, é pouquíssimo explorada e serve apenas como um obstáculo repetitivo para os corredores. Além disso, o romance forçado entre Mano e Nadine surge do nada, sem química real e pautado apenas na atração física entre os atores. O filme deixa tantas perguntas sem resposta e pontas soltas na sua reta final que fica nítido que o roteiro foi pensado mais como o piloto de uma série de TV ou o início de uma franquia de olho em sequências do que como um longa autossuficiente.

Filme Corrida dos Bichos é bom?

Corrida dos Bichos é um passo gigantesco e corajoso para o cinema de ação e ficção científica no Brasil. Ele prova que nossa indústria tem capacidade técnica para criar entretenimento de alta qualidade, dinâmico e com identidade própria, sem a necessidade de apenas copiar fórmulas norte-americanas baratas.

Embora peque pela superficialidade de seu roteiro confuso, a produção diverte, traz debates extremamente atuais sobre a degradação moral de nossa sociedade e vale a pena pela ação propulsiva e pela atuação monstruosa de Rodrigo Santoro. Se você procura um thriller de ação eletrizante com alma brasileira, aperte o play sem medo.

Trailer do filme Corrida dos Bichos (2026)

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Elenco de Corrida dos Bichos, do Prime Video

  • Matheus Abreu
  • Rodrigo Santoro
  • Isis Valverde
  • Bruno Gagliasso
  • Thainá Duarte
  • Seu Jorge
  • Anitta
  • João Guilherme
  • Silvero Pereira
  • Grazi Massafera

Ficha técnica

  • Título: Corrida dos Bichos
  • Direção: Ernesto Solis, Rodrigo Pesavento e Fernando Meirelles
  • Roteiro: Ernesto Solis, Rodrigo Lages, Eva Klaver e Marco Abujamra
  • Duração: 124 minutos
  • Distribuição: Prime Video
  • Ano de Lançamento: 2026
Escrito por
Juliana Cunha

Editora na ESPN Brasil e fã de cultura pop, Juliana se classifica como uma nerd saudosa dos grandes feitos da Marvel.

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