cena do monstro no filme Hokum O Pesadelo da Bruxa de 2026 (1)

‘Hokum: O Pesadelo da Bruxa’ transforma luto e folclore em um terror psicológico genial (spoilers)

Foto: Diamond Films / Divulgação
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Hokum: O Pesadelo da Bruxa tem se destacado como uma das peças mais curiosas do terror recente, trazendo de volta o cineasta irlandês Damian McCarthy (que já havia chamado a atenção com Oddity e Caveat) para o que ele sabe fazer de melhor: misturar folclore regional com medos reais e palpáveis.

Trazendo Adam Scott em um papel denso, antipático e que foge bastante de sua zona de conforto, o filme não apela apenas para monstros embaixo da cama, mas brinca de forma intensa com os fantasmas da culpa e do trauma de seu próprio protagonista.

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Sinopse

Acompanhamos Ohm Bauman (Scott), um renomado e cínico escritor de terror responsável pela famosa “Trilogia do Conquistador”. Amargurado e lidando com uma bagagem emocional pesada, ele viaja para um isolado hotel no interior da Irlanda — o Bilberry Woods Hotel — com a missão de espalhar as cinzas de seus falecidos pais, que passaram a lua de mel no local. Logo de cara, Ohm se mostra um homem terrível, tratando mal praticamente todo o elenco de apoio e afogando suas mágoas no álcool.

Depois de tentar tirar a própria vida e ser salvo pela simpática bartender Fiona (Florence Ordesh), Ohm volta do hospital apenas para descobrir que a funcionária sumiu após uma festa de Halloween no hotel. Disposto a descobrir o que aconteceu, ele acaba invadindo e ficando preso na suíte de lua de mel, um quarto isolado que, segundo a lenda contada pelo dono do hotel, é assombrado por uma bruxa secular que arrasta as almas das pessoas acorrentadas para o submundo.

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Crítica do filme Hokum: O Pesadelo da Bruxa

O luto, a culpa e o verdadeiro vilão

Um dos maiores acertos de Hokum: O Pesadelo da Bruxa é a forma como lida com nossas expectativas sobre a moralidade. É um desafio torcer por Ohm no início. O cara é tão ranzinza que chega ao absurdo de queimar a mão de um fã de seu trabalho, o mensageiro Alby (Will O’Connell), usando uma colher quente.

Mas o roteiro habilmente puxa o tapete emocional do espectador: toda essa arrogância é um escudo. Através de flashbacks e das assombrações que ele sofre, descobrimos que, quando era criança, Ohm matou a própria mãe em um tiro acidental com a arma de seu pai, evento que arruinou a vida e a relação dos dois.

A grande sacada de Damian McCarthy é fazer o contraponto entre o peso dessa culpa acidental do protagonista e a maldade fria de Mal (Peter Coonan), o gerente do hotel e verdadeiro “monstro” do longa. Ao investigarmos o sumiço de Fiona, descobrimos o horrível destino que ela teve.

Grávida e sendo amante de Mal, ela foi dopada por ele e trancada dentro de um elevador de carga (o dumbwaiter) na suíte assombrada para morrer, tudo para que ele não precisasse assumir o caso e arruinar sua vida perfeita. Enquanto Ohm é esmagado pelo peso de um acidente infantil, Mal não sente um pingo de remorso pelo seu crime monstruoso e intencional.

homem levanta luminária em cena do filme Hokum O Pesadelo da Bruxa de 2026 (1)
Foto: Diamond Films / Divulgação

A bruxa, os cogumelos e a ilusão do terror psicológico

Ao descer para o porão e finalmente encontrar a bruxa (A Cailleach do folclore irlandês), a tensão atinge o ápice e o design bizarro da criatura arrepia, ainda mais sabendo de sua natureza como um agente de punição e morte.

Mas o filme nos presenteia com um excelente plot twist de revirar a cabeça: no hospital, o mensageiro Alby confessa que se vingou do protagonista batizando seu cantil de uísque com pó de cogumelos alucinógenos, produzidos pelo eremita Jerry (David Wilmot). E agora? Foi tudo uma bad trip?

A resposta não vem mastigada de imediato (embora as marcas físicas das correntes nos pulsos de Ohm sirvam de prova), mas o diretor confirmou um detalhe sensacional. Para saber o que era delírio ou realidade, basta olhar para o reflexo nos óculos de Ohm.

A figura medonha do macabro burro de um programa infantil de TV dos anos antigos, o “Jack The Jackass”, não possui reflexo, apenas estática. Era um delírio gerado pela associação da TV ligada no dia em que a mãe dele morreu. A bruxa, no entanto, tem reflexo. Ela era tão real quanto a punição que entregou.

Atmosfera sufocante e trilha sonora imersiva

A produção tira leite de pedra usando a claustrofobia ao seu favor. O fato de o hotel não ter hóspedes durante aquela época do ano e a estadia de Ohm se passar quase toda confinada na poeirenta suíte ou no porão ajuda a amplificar o desespero. O uso prático do elevador de serviço apertado e do relógio que o aciona para criar urgência na hora da fuga é muito engenhoso. Outro ponto que sustenta o pavor do longa é a trilha sonora fantástica assinada por Joseph Bishara (o mesmo da franquia Invocação do Mal), que utiliza frequências distorcidas, arrastar de correntes e sons de sino para dar vida ao hotel quase como um corpo agonizante.

Final explicado e a resolução do “Conquistador”

Todo o percurso da trama foca na redenção de Ohm. Diferente de Mal, que é impiedosamente arrastado para as profundezas pela bruxa, Ohm consegue escapar das garras da entidade através do perdão. O espírito de sua mãe aparece no momento mais sombrio, o acolhendo e lhe dizendo que a tragédia infantil foi um acidente, o que motiva o autor a quebrar as correntes usando uma serra de mão e fugir do incêndio provocado por Mal.

Essa redenção transborda para a arte dele. Durante todo o filme, fomos apresentados à história do livro O Conquistador (imaginada na tela com o ator Austin Amelio), que possuía um final incrivelmente brutal, no qual o personagem quebrava uma garrafa no crânio de um garotinho apenas para pegar um mapa.

No desfecho do filme, aliviado da sua bagagem de culpa, Ohm reescreve esse final. Agora, o Conquistador se sacrifica, a criança joga a garrafa fora e eles se abraçam, com a garrafa caindo próxima a um crânio de carneiro – um símbolo que ditava que “a esperança sempre esteve ali perto”. E que bom que ele mudou de ideia! Nos roteiros originais do filme, a história de Ohm terminava tragicamente, com ele morto pelas mãos da bruxa dentro do elevador e do porão.

Hokum: O Pesadelo da Bruxa é bom?

Hokum: O Pesadelo da Bruxa é a prova viva de que filmes de horror folk conseguem assustar e, ao mesmo tempo, quebrar corações. A obra utiliza toda sua carga de suspense, monstros folclóricos e jump scares apenas como espelho para a crueldade humana e a falta de perdão consigo mesmo.

É um filme que, apesar de poder parecer previsível em um momento ou outro de sua estrutura de “casa assombrada” e de ter um protagonista intragável de cara, cresce assustadoramente se você comprar a ideia e as dores de seus personagens. Um longa sombrio, estranhamente comovente e indispensável para os fãs da nova onda de terror.

Onde assistir ao filme Hokum: O Pesadelo da Bruxa?

O filme está em cartaz exclusivamente nos cinemas brasileiros.

Trailer de Hokum: O Pesadelo da Bruxa (2026)

YouTube player

ELenco do filme Hokum: O Pesadelo da Bruxa

  • Adam Scott
  • Florence Ordesh
  • Austin Amelio
  • David Wilmot
  • Peter Coonan
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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