A estreia da minissérie Brasil 70: A Saga do Tri no catálogo da Netflix, lançada nesta sexta-feira, 29 de maio, não poderia vir em momento mais oportuno. Produzida ao lado da O2 Filmes, a obra de cinco episódios nos prepara emocionalmente para o clima de Copa do Mundo, mas passa bem longe de ser só mais um documentário cheio de imagens de arquivo e depoimentos monótonos.
Em vez disso, a série mergulha num formato de docudrama vibrante, mostrando de perto o suor, as brigas e as pressões absurdas que envolveram o momento mais glorioso da história do nosso futebol.
Sinopse
A história traça a longa jornada de redenção do futebol nacional, começando exatamente no fundo do poço: a derrota e eliminação amarga da Seleção Brasileira na Copa de 1966, na Inglaterra. A partir desse fracasso, acompanhamos o esforço monumental para devolver a confiança ao time num país em que o clima político fervia e a violência da ditadura militar estava em seu ponto mais sufocante.
É nesse cenário caótico que a narrativa apresenta a dança das cadeiras no comando da equipe, desde a genialidade explosiva e comunista do técnico João Saldanha até a chegada quase desesperada de Zagallo ao cargo, culminando na consagração de Pelé e sua trupe nos gramados do México.
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Crítica da série Brasil 70: A Saga do Tri, da Netflix
O peso da história e a ficção a favor do drama
O grande golaço dos diretores Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles (que tiveram roteiros afiados da equipe de Naná Xavier e Rafael Dornellas) foi justamente abraçar a ficção em vez de se prender puramente à reportagem fria. Afinal, como o próprio Pedro Morelli pontuou, nós já conhecemos o final feliz; o que a ficção nos dá aqui é uma chave para abrir os vestiários e acessar momentos em que não existiam câmeras, como a intimidade e a angústia de Pelé em seu quarto.
Isso significa que muitos diálogos foram inventados e cenas recriadas para turbinar o peso dramático, mas tudo sempre alicerçado em muita pesquisa de época, reportagens e livros. Esse truque do roteiro consegue nos engajar maravilhosamente bem, ilustrando com perfeição a tensão política que pairava sobre os atletas e mostrando como o governo de Emílio Garrastazu Médici queria a todo custo se apropriar da seleção como peça de propaganda do “Brasil que dá certo”.

Atuações de gala: o triângulo mágico
A espinha dorsal de Brasil 70: A Saga do Tri é o trio fantástico formado por João Saldanha, Zagallo e Pelé. E que acerto no elenco! Rodrigo Santoro está colossal, absorvendo completamente a alma impetuosa de Saldanha, um comunista que batia de frente com os militares e tinha um amor gigantesco pela camisa, esbanjando química com Marcelo Adnet, que vive o narrador fictício Eusébio Teixeira.
Já Bruno Mazzeo entrega um Zagallo muito sagaz, usando seu timing cômico para conferir uma leveza hilária ao personagem, equilibrando o peso dos bastidores através das famosas superstições do “Velho Lobo” (e detalhe para o roteiro mostrando sua perda real de voz na reta final do campeonato!).
Mas é impossível desviar os olhos de Lucas Agrícola. Além de carregar uma semelhança visual assombrosa com o Rei do Futebol, o jovem ator dá ao espectador um Pelé vulnerável, esmagado pela responsabilidade de ter que liderar um país fraturado, e carrega os traumas de infância do camisa 10 com muita sensibilidade.
Também vale aplaudir o elenco de apoio que dá vida aos craques, como Hugo Haddad no papel do goleiro Félix, e todo o excelente trabalho na caracterização de figuras como Gérson (Filipe Soutto) e Jairzinho (Gui Ferraz).
Coreografia em campo e o retrato da ditadura
Na hora em que a bola rola, Brasil 70 entrega um espetáculo que faz inveja a produções de esporte lá de fora. Fugindo daquela visão distante e clássica de TV, as câmeras entram literalmente em campo com os jogadores, ouvindo a respiração deles e sentindo a velocidade do jogo. Todo o balé de dribles e gols foi extremamente ensaiado como se fosse cena de ação em filme de herói, utilizando drones e efeitos em câmera lenta (talvez até slow-motion demais para alguns gostos, mas que passa a emoção que a cena pede). As encenações dos lendários “quase-gols” de Pelé e o épico gol de Carlos Alberto Torres na final dão verdadeiros arrepios.
Fora das quatro linhas, as fardas e armas pipocando de fundo em cenários do Brasil e do México são um lembrete constante de que não era só esporte, mas sobrevivência. A obra escancara muito bem as amarras da ditadura via o autoritário João Havelange (Nelson Baskerville), entregando camadas valiosas de discussões raciais, o peso da memória e até traumas de copas anteriores, como a injustiça com o goleiro Barbosa no “maracanazo”.
Brasil 70: A Saga do Tri é boa?
No fim das contas, Brasil 70: A Saga do Tri é uma série espetacular e frenética que se comunica perfeitamente com quem não sabe nem o que é um impedimento, agradando com força aos amantes fanáticos do esporte.
Assim como pontuaram os realizadores e parte da crítica, a minissérie serve de certa forma como um respiro e um desejo atual: a tentativa de fazer o povo brasileiro recuperar sua relação carinhosa com a mítica camisa amarela e com a sua própria identidade coletiva, livre de apropriações.
É uma crônica envolvente de sangue, suor, risos e resistência política. Um golaço absoluto da Netflix e, usando a sábia frase eternizada pelo Saldanha de Santoro na série: agora, “vida que segue”.
Onde assistir à série Brasil 70: A Saga do Tri?
- Netflix
Trailer de Brasil 70: A Saga do Tri (2026)
Elenco de Brasil 70: A Saga do Tri, da Netflix
- Lucas Agrícola
- Rodrigo Santoro
- Bruno Mazzeo
- Ravel Andrade
- Julia Stockler
- Bruna Mascarenhas
- Marcelo Adnet
















