Na última quarta-feira (13), o site “Intercept Brasil” detonou uma verdadeira bomba revelando a conversa entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro – atualmente detido em prisão domiciliar – cobrando ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master – envolvido no maior escândalo bancário que se tem notícia na história do país – os pagamentos restantes de um total de US$ 24 milhões de dólares (cerca de R$ 134 milhões à época) para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia do pai.
Não entrando na seara da política (mas já entrando), esses valores parecem baixo quando comparados a blockbusters hollywoodianos, que podem chegar até a mais de US$ 400 milhões, como “Star Wars: A Ascensão Skywalker” (2019), por exemplo, que teve um custo estimado em US$ 490 milhões. Entretanto, sabemos que essa não é a normalidade da produção cinematográfica, ainda mais quando a realidade é brasileira. E é nessa pegada que vamos seguir adiante, mas vamos por partes…
O que significa “Dark Horse”?
O título em inglês do filme, “Dark Horse”, é uma expressão muito comum que pode ser traduzida como “azarão” ou “caixinha de surpresas”. A escolha faz todo o sentido com a sinopse: a obra pretende retratar Jair Bolsonaro como um “improvável vencedor”.
Qual a história do filme “Dark Horse”?
Segundo o diretor irano-americano Cyrus Nowrasteh, o filme é um “thriller político contemporâneo” focado na ascensão do ex-capitão do exército até a presidência, com grande destaque para a facada que ele sofreu em Juiz de Fora (MG) durante a campanha de 2018.
A ideia original e o roteiro vieram do deputado federal e ex-secretário da Cultura Mário Frias. A promessa da direção é mostrar um “retrato complexo e honesto”, com cenas dramáticas que vão do hospital até flashbacks do passado do ex-presidente. Há até rumores de que o roteiro inclua confrontos e cenas de ação na Amazônia envolvendo indígenas, xamãs e cartéis de drogas.
Quem está no elenco de “Dark Horse”?
O filme é uma produção focada no mercado internacional, todo gravado em inglês. Para o papel de Jair Bolsonaro, a escolha foi o norte-americano Jim Caviezel, mundialmente famoso por interpretar Jesus no épico A Paixão de Cristo (2004) e estrela do recente sucesso conservador O Som da Liberdade (2023).
A família Bolsonaro também será representada na tela por um elenco que mistura atores brasileiros e estrangeiros:
- Camille Guaty viverá Michelle Bolsonaro;
- O mexicano Marcus Ornellas interpretará o senador Flávio Bolsonaro;
- O brasileiro Sérgio Barreto fará o papel do vereador Carlos Bolsonaro;
- O ator norte-americano Eddy Finlay (às vezes creditado como Eddie) será o deputado Eduardo Bolsonaro.
Além deles, o próprio Mário Frias faz uma ponta interpretando um dos médicos (Dr. Álvaro).
Quem é Jim Caviezel, ator que vive Jair Bolsonaro em “Dark Horse”?
Jim Caviezel (nascido James Patrick Caviezel) é um ator norte-americano do estado de Washington, nascido em 26 de setembro de 1968. Ele iniciou sua carreira no começo dos anos 1990 e construiu uma trajetória marcada por papéis dramáticos, tornando-se, nos últimos anos, uma figura bastante polarizadora em Hollywood.
Caviezel ganhou projeção ao atuar em filmes de sucesso como Além da Linha Vermelha (1998), Olhar de Anjo (2001), O Conde de Monte Cristo (2002) e Déjà Vu (2006). Contudo, seu papel de maior projeção mundial foi interpretar Jesus Cristo no filme A Paixão de Cristo (2004), dirigido por Mel Gibson. Durante as filmagens da crucificação, o ator relatou ter enfrentado condições extremas, incluindo lesões físicas, hipotermia e até mesmo ter sido atingido por um raio.
Queda na carreira
Apesar de a obra ter sido um estrondoso sucesso de bilheteria, o ator frequentemente afirma que sua carreira em Hollywood perdeu força e que passou a receber menos ofertas após viver Jesus. Ele atribui grande parte desse distanciamento da indústria cinematográfica à sua postura religiosa conservadora que passou a defender publicamente. Ele voltou a ganhar grande destaque na mídia estrelando a série de TV Pessoa de Interesse (2011–2016), onde viveu o ex-agente da CIA John Reese.
Nos últimos anos, Caviezel atuou como protagonista de O Som da Liberdade (2023), um filme independente sobre tráfico infantil que foi um fenômeno de público entre conservadores e religiosos, mas que também foi criticado e acusado de alimentar as teorias da conspiração do movimento QAnon.
Apoiador de Trump
Fora do cinema, ele é católico praticante e fiel apoiador de Donald Trump. O astro frequenta e discursa em eventos ligados a grupos conservadores nos EUA e já se envolveu em polêmicas por proferir declarações antivacina e citar teorias conspiratórias.
Em Dark Horse, Jim Caviezel foi o escolhido para viver o ex-presidente Jair Bolsonaro, e aparece usando a faixa presidencial e reencenando momentos como a facada de 2018. Para gravar a obra, o ator passou cerca de três meses no Brasil. Segundo o deputado Mário Frias, autor do argumento original do filme, Caviezel topou interpretar Bolsonaro sem sequer negociar os valores de seu cachê.

Quando estreia o filme sobre Bolsonaro?
Segundo o próprio Jim Caviezel em suas redes sociais, Dark Horse tem estreia agendada para o dia 11 de setembro de 2026, uma data muito próxima às eleições daquele ano no Brasil. A produção passou por filmagens em São Paulo (incluindo locações no Memorial da América Latina), no México, e a finalização está sendo feita em Hollywood.
Quem está produzindo o filme Dark Horse?
O filme Dark Horse está sendo produzido primariamente pela GoUp Entertainment, uma produtora com sede nos Estados Unidos e comandada pela empresária brasileira Karina Ferreira da Gama. No Brasil, a própria GoUp é a empresa responsável pela condução do projeto cinematográfico. A equipe geral de produção também inclui Michael Davis, Ryan O’Quinn e o cineasta mexicano Eduardo Verástegui, reconhecido mundialmente por ter produzido o filme de apelo conservador O Som da Liberdade (2023).
Na produção executiva, o filme conta com o envolvimento direto de figuras políticas:
- Mário Frias: o deputado federal e ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro é o criador da história original (baseada em seu texto “Capitão do Povo”), um dos roteiristas e atua como produtor-executivo do longa-metragem.
- Eduardo Bolsonaro: o ex-deputado federal e filho do ex-presidente assinou contrato com a GoUp Entertainment assumindo a função de produtor-executivo ao lado de Mário Frias. O contrato estabelecia que Eduardo tinha poder sobre o controle do orçamento, gestão financeira e responsabilidade na captação de recursos e investidores internacionais para o filme.
- Karina Ferreira da Gama: Além de proprietária da GoUp, ela também é creditada como produtora executiva da obra.
A produção estruturou sua viabilidade por meio de um forte esquema de captação de recursos privados liderado pela família Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro atuou como intermediário cobrando repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, que transferiu ao menos R$ 61 milhões para ajudar a financiar a obra.
A estratégia da produção incluía vender pacotes de investimento através de um fundo sediado no Texas, nos EUA, prometendo lucros de bilheteria e até facilitando vistos de imigração (Green Card) para os maiores investidores do projeto.
Qual é o orçamento do filme Dark Horse e por que gerou tanta polêmica?
É aqui que a história do filme vira caso de polícia. Como flagrado pela reportagem do “Intercept”, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master (preso por suspeita de chefiar fraudes financeiras bilionárias), foi o grande financiador do projeto.
Áudios revelados mostram o senador Flávio Bolsonaro cobrando Vorcaro pelo atraso no repasse de verbas cruciais para a reta final das filmagens, para não perderem “diretor, equipe, perde tudo”. O montante combinado teria chegado à casa dos R$ 134 milhões (cerca de US$ 24 milhões), e estima-se que Vorcaro tenha pago ao menos R$ 61 milhões antes de ser preso.
O próprio Flávio Bolsonaro confirmou que pediu o dinheiro, mas alegou que se tratava de uma captação de recursos 100% privada, sem envolvimento de dinheiro público ou da Lei Rouanet.
Por outro lado, a produtora brasileira GoUp Entertainment e Mário Frias soltaram notas negando que o filme tenha recebido “um único centavo” do banqueiro, mas voltaram atrás depois. Em nota, Frias afirmou que não houve contradição entre os posicionamentos públicos, mas “uma diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”.
De acordo o produtor, ele se referia “ao fato de que Daniel Vorcaro não é e nunca foi signatário de relacionamento jurídico, assim como o Banco Master nunca figurou como empresa investidora. O nosso relacionamento jurídico foi firmado com a Entre, pessoa jurídica distinta”.
A Entre Investimentos e Participações, no entanto, atuava em parceria com outros negócios comandados por Vorcaro. Ou seja, é um intermediário de pagamentos entre Vorcaro e a produtora.

O filme brasileiro mais caro da história?
Se os números forem reais, Dark Horse pulveriza qualquer recorde de orçamento do cinema nacional. Para se ter uma ideia:
- Ainda Estou Aqui (2024), primeiro e único brasileiro vencedor do Oscar, teve custo estimado em R$ 45 milhões.
- O Agente Secreto (2025), estrelado por Wagner Moura, e indicado a quatro Oscars, custou R$ 28 milhões.
- E a própria cinebiografia Lula, o Filho do Brasil (2010), custou R$ 17 milhões na época.
Outros filmes brasileiros figuram entre os mais caros
- Amazônia, Planeta Verde (2013): A coprodução em 3D entre Brasil e França custou R$ 22 milhões na época de seu lançamento, o que, corrigido pela inflação, chegaria a R$ 61,5 milhões atuais..
- Cidade de Deus (2002): Custou cerca de R$ 8,2 milhões na época de sua produção, o que seria equivalente a aproximadamente R$ 38 milhões na cotação atual.
- Corrida dos Bichos (2026): A ficção científica distópica também foi orçada na casa dos R$ 28 milhões (cerca de US$ 5 milhões).
- Central do Brasil (1998): O clássico indicado ao Oscar teve um orçamento de US$ 2,2 milhões na época, o que hoje seria equivalente a cerca de R$ 22,1 milhões.
Cineastas e especialistas da indústria afirmam que não há parâmetro para um orçamento de R$ 134 milhões na história do cinema nacional, já que a arrecadação das bilheterias brasileiras raramente justificaria um investimento privado com essas cifras, tornando o custo astronômico do filme um forte alvo de suspeitas.
E o PT? E o Lula?
O orçamento da cinebiografia Lula, o Filho do Brasil (2010) custou R$ 17 milhões na época em que foi produzido. Para se ter uma noção melhor desse montante nos dias de hoje, se corrigirmos o valor, o custo equivale a cerca de R$ 51,4 milhões.
Embora na época tenha sido considerado um dos filmes mais caros já feitos no cinema nacional, o seu orçamento ainda fica bastante distante dos R$ 134 milhões que, segundo investigações recentes, teriam sido cobrados para a produção de Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro.
Filmes internacionais vencedores de Oscar que custaram menos que “Dark Horse”
O orçamento negociado para a produção de Dark Horse é tão alto que, com ele, seria possível produzir 15 dos últimos 20 filmes que venceram categorias do Oscar. Confira alguns deles:
- Moonlight: Sob a Luz do Luar (vencedor de Melhor Filme): custou apenas US$ 1,5 milhão.
- Nomadland (vencedor de Melhor Filme): custou US$ 5 milhões.
- Anora (citado entre os vencedores da categoria principal): produzido com US$ 6 milhões.
- Valor Sentimental (vencedor de Melhor Filme Internacional): saiu por cerca de US$ 7,8 milhões (aproximadamente R$ 41,3 milhões).
- Parasita (vencedor de Melhor Filme): custou US$ 11,4 milhões.
- O Discurso do Rei (vencedor de Melhor Filme): orçamento de US$ 15 milhões.
- A Substância (vencedor de Melhor Maquiagem e Cabelo): custou US$ 17,5 milhões (cerca de R$ 101 milhões em valores atuais).
- Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (vencedor de Melhor Filme): orçado em US$ 18 milhões.
- Spotlight: Segredos Revelados (vencedor de Melhor Filme): custou US$ 20 milhões.
- Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (vencedor de Melhor Filme): custou US$ 20 milhões.
- Conclave (vencedor de Melhor Roteiro Adaptado): custou US$ 20 milhões (aproximadamente R$ 115 milhões na cotação atual).
- Green Book: O Guia (vencedor de Melhor Filme): produzido com US$ 23 milhões.
Polícia no caminho do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro
Vistos de imigração e o papel de Eduardo Bolsonaro
O plano de negócios do filme tinha um detalhe bastante inusitado para o audiovisual: pacotes de investimento! Cotas que variavam de US$ 500 mil a US$ 1,1 milhão prometiam retornos financeiros de 20% e até ofereciam um “atalho” para a obtenção de visto de residência permanente (Green Card) nos Estados Unidos para os investidores do pacote mais caro.
Documentos revelaram que Eduardo Bolsonaro assinou contrato como produtor-executivo do longa, sendo responsável justamente por ajudar a captar esses recursos. A Polícia Federal agora investiga se o fundo sediado no Texas, controlado por advogados de Eduardo, teria usado o dinheiro injetado por Vorcaro para bancar a estadia prolongada do deputado nos EUA. Ele nega qualquer repasse ilícito, alegando que o dinheiro que recebeu de volta era fruto de um investimento inicial próprio.
Investigações sobre emendas parlamentares e a produtora
Além do Banco Master, a produtora do filme, a GoUp Entertainment, presidida por Karina Ferreira da Gama, também está sob o escrutínio do STF.
Outras ONGs lideradas por ela acertaram o recebimento de mais de R$ 110 milhões em recursos públicos. Isso inclui um contrato gigante de R$ 108,8 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de wi-fi em comunidades, além de emendas parlamentares na casa dos R$ 2,8 milhões enviadas por deputados do PL (incluindo o próprio Mário Frias, Bia Kicis e Carla Zambelli) para documentários sobre “heróis nacionais”.
O ministro do STF Flávio Dino chegou a dar prazo para que os deputados explicassem esses repasses, após denúncias de que poderiam ser uma forma indireta de financiar a obra.
Denúncias nos bastidores: o que aconteceu nas gravações?
Para completar o cenário caótico, os bastidores em São Paulo foram alvos de um dossiê do sindicato dos artistas (Sated-SP). Profissionais contratados para a figuração do filme relataram um ambiente com abusos trabalhistas severos:
- Cachês baixos: Pagamentos de apenas R$ 100 pela diária (abaixo do piso sindical).
- Condições precárias: Relatos de que receberam comida estragada, enquanto a equipe estrangeira tinha acesso a serviço de bufê.
- Falta de pagamentos: A produtora responsável pelo filme foi processada por não pagar R$ 5 mil de diária de locação a um café no centro de São Paulo. Segundo o UOL, em dezembro de 2025, o filme ficou sem verba e o ator Jim Caviezel deixou as gravações dois dias antes do previsto.
- Revistas invasivas e agressão: Para evitar o vazamento de imagens, a produção confiscou celulares. Figurantes relataram ter sofrido revistas íntimas e um deles registrou boletim de ocorrência afirmando ter levado um soco e uma rasteira dos seguranças ao se recusar a entregar o aparelho.
Apesar do forte esquema de segurança, imagens de Jim Caviezel usando a faixa presidencial e reencenando a facada vazaram nas redes sociais já no final de 2025.
Dark Horse caminha para chegar aos cinemas no segundo semestre de 2026. Mas, independentemente da qualidade do que for parar na tela, a verdadeira trama de thriller policial parece estar correndo nos bastidores da vida real.
















