No dia 16 de setembro de 2026, a Academia Brasileira de Cinema anunciou oficialmente a escolha de Feito Pipa como o representante do Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. O longa-metragem dirigido pelo cearense Allan Deberton superou uma lista inicial de 15 inscritos e uma disputa final acirrada contra outros cinco semifinalistas: 100 Dias, de Carlos Saldanha; A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai; A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo; Nosso Segredo, de Grace Passô; e Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins.
Segundo a presidente da Comissão de Seleção, Clélia Bessa, a escolha se deu por se tratar de “uma narrativa sensível que comunica universalmente e, ao mesmo tempo, traz uma forte identidade brasileira a partir de uma cidade do interior do Ceará”.
“É sobre a família, a cumplicidade entre avó e neto, infância, finitude e já foi premiado em festivais internacionais importantes”.
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Sinopse: o menino Gugu, a avó Dilma e as ruínas de uma cidade submersa
Ambientado na zona rural de Quixadá, no sertão do Ceará, Feito Pipa acompanha a jornada de Gugu (Yuri Gomes), um garoto de 12 anos apaixonado por futebol que carrega uma sensibilidade radiante e singular. Criado de forma livre, amorosa e sem preconceitos por sua avó, a professora aposentada Dilma (Teca Pereira), o menino expressa sua identidade entre campos de terra e pincéis de maquiagem, danças e sonhos.
A harmonia familiar é abalada quando a saúde de Dilma se fragiliza com o avanço do diagnóstico de Alzheimer. Com medo de ser separado da mulher que é seu porto seguro, Gugu tenta esconder a gravidade da situação para não ser obrigado a morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), um motorista de caminhão-pipa conservador, ausente e incapaz de lidar com a expressão livre do filho.
Como pano de fundo poético e metafórico, a história se desenrola às margens da barragem de Araújo Lima. Após anos de seca rigorosa, as águas recuam e começam a revelar as ruínas de uma antiga cidade submersa, trazendo à tona memórias, segredos e dores familiares reprimidas.
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História real ou livro? A origem do roteiro
Diferente de produções baseadas em biografias ou romances literários, Feito Pipa não é baseado em um livro nem em uma história real específica. Trata-se de um roteiro ficcional original escrito por André Araújo em colaboração com Allan Deberton.
A gênese do projeto, no entanto, é impregnada de verdade humana: a narrativa nasceu das memórias afetivas de infância de ambos os autores, que cresceram na cidade de Russas, no interior do Ceará. As vivências do cotidiano interiorano, as casas de vó e as descobertas da juventude serviram de matéria-prima para construir essa fábula sobre pertencimento e identidade.

Bastidores, elenco e a descoberta de um protagonista inesquecível
A produção de Feito Pipa une duas potências do audiovisual brasileiro: a Deberton Filmes e a Biônica Filmes, em coprodução com a Warner Bros.. As filmagens foram realizadas no final de 2024, tendo 95% de suas cenas rodadas na paisagem imponente de Quixadá.
Nos bastidores, um dos maiores trunfos do filme foi a escolha do elenco. Para o papel do protagonista Gugu, a produção realizou testes com mais de 600 crianças. O jovem Yuri Gomes, de 12 anos, oriundo do Projeto Axé de Salvador, conquistou a equipe com um olhar de maturidade e espontaneidade cativantes.
O elenco reúne ainda mestres do cinema nacional: Teca Pereira brilha com vigor no papel da avó Dilma; Lázaro Ramos interpreta Batista em uma composição dolorosa e humanizada do pai distante; e o grupo conta com participações expressivas de Carlos Francisco (O Agente Secreto) e Georgina Castro (O Céu de Suely).
A trilha sonora original é composta por João Victor Barroso, contando também com a canção “Ombrim”, da cantora Marina Sena, em uma marcante versão piseiro remixada pelo produtor piauiense Ronni Bruno.
Crítica de Feito Pipa: o voo livre da infância queer sob a lente de Allan Deberton
Há no cinema de Allan Deberton uma capacidade rara de transformar a dor em poesia visual sem jamais recorrer ao cinismo. Já em Pacarrete, o cineasta cearense demonstrava um carinho absoluto por figuras que insistem em existir fora da norma social. Em Feito Pipa, essa virtude atinge uma maturidade emocionante.
Assistir a Feito Pipa é ser transportado para um Brasil profundo que raramente ganha a tela com tanta dignidade. A câmera de Luciana Baseggio e Daniel Donato captura o sertão de Quixadá não como um espaço de miséria, mas como uma tela de afetos vibrantes. A casa de Dilma, vivida com uma entrega sublime por Teca Pereira, é um refúgio acolhedor onde a infância de Gugu (Yuri Gomes) pode voar sem amarras.
A interpretação de Yuri Gomes é nada menos que histórica. O garoto dá vida a uma infância queer de forma luminosa, livre e orgulhosa — uma “criança viada” no sentido mais afetuoso e político do termo. Quando a demência da avó e a sombra do pai (Lázaro Ramos) ameaçam cortar a linha dessa pipa, o filme não cai na tragédia fácil; em vez disso, constrói uma ponte sobre o abismo do preconceito.
A metáfora da cidade submersa que reaparece com a seca espelha as camadas de um luto em andamento. É um cinema feito de memórias, cheiro de casa de avó e coragem. Feito Pipa nos faz chorar, mas, acima de tudo, resgata a fé no amor e na capacidade do cinema brasileiro de tocar o que há de mais humano em nós.

Trajetória internacional de prêmios
Antes de ser escolhido pela Academia Brasileira de Cinema, Feito Pipa construiu uma carreira vitoriosa nos principais festivais de cinema do mundo:
- 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale 2026): Vencedor do Urso de Cristal de Melhor Filme (Júri Jovem) e do Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus, além de finalista do Teddy Award.
- 41º Festival Internacional de Cinema de Guadalajara (México): Vencedor do Prêmio Maguey de Melhor Filme e Melhor Interpretação para Teca Pereira e Yuri Gomes.
- 65º Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI – Colômbia): Vencedor do prêmio de Melhor Interpretação para Yuri Gomes na mostra Cine de los Barrios.
- 54º Festival de Cinema de Gramado: O maior vencedor da edição brasileira, conquistando 5 prêmios: Melhor Direção (Allan Deberton), Melhor Atriz (Teca Pereira), Melhor Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos), Melhor Filme pelo Júri Popular e Menção Honrosa para Yuri Gomes.
As campanhas de Feito Pipa, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto
Para entender o momento do Brasil no Oscar, é preciso comparar o caminho de Feito Pipa com os dois gigantes que o antecederam na temporada hollywoodiana:
| Critério de Comparação | Ainda Estou Aqui (2024/2025) | O Agente Secreto (2025/2026) | Feito Pipa (2026/2027) |
|---|---|---|---|
| Direção | Walter Salles | Kleber Mendonça Filho | Allan Deberton |
| Prêmio de Arrancada | Melhor Roteiro no Festival de Veneza | Melhor Ator e Direção no Festival de Cannes | Urso de Cristal no Festival de Berlim (Generation) |
| Distribuição nos EUA | Sony Pictures Classics | Neon | Ainda sem distribuidora nos EUA |
| Resultado/Status no Oscar | Vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional | 4 indicações ao Oscar e vitórias no Globo de Ouro | Representante oficial selecionado |
Enquanto Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto chegaram à corrida impulsionados pela competição principal dos maiores festivais do mundo (Veneza e Cannes) e respaldados pelo poderio financeiro de gigantes americanas como Sony Classics e Neon, Feito Pipa vem de uma mostra paralela (Generation). A força de Feito Pipa reside em sua capacidade incomparável de gerar comoção popular e apelo emocional, mas o filme enfrenta o desafio de construir sua campanha nos EUA do zero.
Afinal, quais as verdadeiras chances de Feito Pipa no Oscar 2027?
O caminho até a estatueta dourada é dividido em etapas rigorosas:
- Shortlist (Semifinalistas com 15 filmes): Anúncio previsto para 15 de dezembro de 2026.
- Indicações Oficiais (Top 5): Anúncio no dia 21 de janeiro de 2027.
- Cerimônia do Oscar 2027: Realizada no dia 14 de março de 2027, em Hollywood.
Análise das chances reais
- Chances de shortlist (Semifinal): Médias a Altas. A recepção calorosa da crítica internacional (com elogios de veículos como a Variety) e os acordos de distribuição já garantidos na Europa, Ásia e América Latina (através da M-Appeal) dão visibilidade ao longa.
- Chances de top 5 e vitória: Desafiadoras. Especialistas de cinema apontam que a qualidade artística do filme é indiscutível, mas o fator decisivo será a contratação de uma distribuidora norte-americana disposta a investir milhões de dólares em exibições para os votantes da Academia. Além disso, a disputa internacional em 2027 promete ser acirrada contra produções fortes como A Bola Preta (Espanha), Fjord (Noruega), Minotauro (França) e Everytime (Alemanha).
A nova regra e o fator Vicentina Pede Desculpas
Uma novidade importante da 99ª edição do Oscar permite que um país tenha dois filmes na disputa. Pela nova regra, vencedores de prêmios específicos em festivais qualificadores (como a mostra Platform do Festival de Toronto) ganham elegibilidade direta.
Assim, enquanto Feito Pipa é o representante oficial do Brasil, o longa Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins (com distribuição global da Netflix), disputou o prêmio no TIFF e pode abrir uma segunda via de submissão para o país.
Onde e quando assistir ao filme Feito Pipa?
Para quem deseja conferir a produção nos cinemas, anote as datas:
- Estreia nos cinemas brasileiros: 5 de novembro de 2026, com distribuição nacional da Paris Filmes.
- Circuito de festivais: O filme passa pelo Festival do Rio em outubro de 2026 e abriu o Festival Olhar do Norte em Manaus.
- Streaming: O longa ainda não está disponível em plataformas de streaming e cumprirá primeiramente sua janela exclusiva nas salas de cinema.
Ficha técnica de Feito Pipa
| Categoria | Detalhe Oficial |
|---|---|
| Título Original | Feito Pipa |
| Título Internacional | Gugu’s World |
| Direção | Allan Deberton |
| Roteiro | André Araújo e Allan Deberton |
| Elenco Principal | Yuri Gomes (Gugu), Teca Pereira (Dilma), Lázaro Ramos (Batista), Carlos Francisco, Georgina Castro |
| Gênero | Drama / Família / LGBTQIAP+ |
| Duração | 93 minutos |
| Ano de Lançamento | 2026 |
| País de Origem | Brasil (Ceará) |
| Direção de Fotografia | Luciana Baseggio e Daniel Donato |
| Direção de Arte | Dayse Barreto |
| Montagem | Mariana Nunes Gomes |
| Trilha Sonora Original | João Victor Barroso |
| Empresas Produtoras | Deberton Filmes, Biônica Filmes e Warner Bros. |
| Distribuição Nacional | Paris Filmes |
| Vendas Internacionais | M-Appeal |


















