Poucos crimes no imaginário ocidental resistiram tão intocados ao passar dos séculos quanto o duplo homicídio que abalou a pacata Fall River, em Massachusetts, em uma manhã escaldante de agosto de 1892. A imagem de uma jovem mulher de hábitos religiosos, lecionando na escola dominical e vestida em espartilhos vitorianos sufocantes, segurando um machado coberto de sangue, transformou-se em uma espécie de mito fundador do true crime moderno. Agora, a quarta temporada da antologia Monstro (Monster), criada por Ryan Murphy e Ian Brennan para a Netflix, debruça-se sobre a figura enigmática de Lizzie Borden.
Com oito episódios lançados simultaneamente, a produção marca uma virada histórica na franquia: após examinar a psicopatia masculina de Jeffrey Dahmer em Dahmer: Um Canibal Americano, a rivalidade familiar em Monstros: Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais e a morbidez de Ed Gein em Monstro: A História de Ed Gein, a série coloca pela primeira vez uma mulher no centro absoluto de sua narrativa.
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A anatomia de um mito: a história real de Lizzie Borden
Para compreender a ousadia da Netflix, é preciso primeiro retornar aos fatos documentados. Em 4 de agosto de 1892, o abastado empresário Andrew Jackson Borden e sua segunda esposa, Abby Durfee Gray Borden, foram brutalmente assassinados a golpes de lâmina dentro de sua própria residência. Abby recebeu cerca de 18 a 19 golpes no andar superior da casa, enquanto Andrew foi atacado cerca de noventa minutos depois, enquanto descansava no sofá da sala de estar, recebendo 10 a 11 golpes no rosto.
A despeito da célebre cantiga de roda infantil que atravessou gerações afirmando que Lizzie Borden deu “40 machadadas na mãe e 41 no pai”, os números reais eram menores, mas a ferocidade permaneceu estarrecedora. As únicas pessoas presentes na propriedade no momento dos crimes eram a filha caçula de Andrew, Lizzie Borden (então com 32 anos), e a criada imigrante irlandesa Bridget Sullivan (chamada pela família de Maggie).
As contradições nos depoimentos de Lizzie, somadas a relatos de que ela tentara comprar ácido prússico na véspera e queimara um vestido dias após os crimes alegando mancha de tinta, levaram-na ao banco dos réus. Contudo, no histórico julgamento de junho de 1893 em New Bedford, um júri composto exclusivamente por homens levou apenas 90 minutos para absolvê-la. A mentalidade da época simplesmente não conseguia conceber que uma mulher de alta classe social e vida cristã fosse capaz de tamanha brutalidade física. O crime permanece oficialmente sem solução até hoje.
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Elenco de ouro: quem é quem em Monstro: A História de Lizzie Borden
A produção da Netflix reuniu um elenco estelar que oscila com precisão entre o drama de época e a atuação estilizada:
- Ella Beatty como Lizzie Borden: Filha dos lendários atores Warren Beatty e Annette Bening, a jovem atriz entrega seu primeiro grande papel como protagonista. Revelada na televisão em Feud: Capote vs. The Swans (também de Ryan Murphy) e aclamada no cinema em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, Ella Beatty constrói uma Lizzie magnética, equilibrando frieza calculada, repressão e fúria contida.
- Vicky Krieps como Bridget “Maggie” Sullivan: A aclamada atriz luxemburguesa, estrela de obras-primas do cinema internacional como Trama Fantasma e Corsage, vive a empregada doméstica da casa. Sua atuação confere uma densidade poética e enigmática à personagem.
- Charlie Hunnam como Andrew Jackson Borden: Eternizado como o protagonista da emblemática série Sons of Anarchy e após liderar a temporada anterior como Ed Gein em Monstro: A História de Ed Gein, Charlie Hunnam retorna à franquia na pele do pai avarento e opressor de Lizzie.
- Rebecca Hall como Abby Borden: Reconhecida por atuações marcantes em Atração Perigosa e Homem de Ferro 3, a atriz britânica interpreta a madrasta rígida e distante, entregando uma das performances mais afiadas e elogiadas da temporada.
- Sarah Paulson como Aileen Wuornos: Colaboradora frequente de Ryan Murphy em American Horror Story, Ratched e American Crime Story, a vencedora do Emmy surge irreconhecível em uma participação especial como a famosa serial killer dos anos 1990.
- Billie Lourd como Emma Lenora Borden: Destaque de Scream Queens e American Horror Story, vive a irmã mais velha e protetora de Lizzie.
- Jessica Barden como Nance O’Neil: Conhecida mundialmente pela série The End of the Fing World*, interpreta a famosa atriz de teatro que se torna confidente de Lizzie.

Nos bastidores da loucura: tom satírico, Noises Off e locações
Sob a liderança criativa de Ryan Murphy e Ian Brennan, os bastidores da 4ª temporada revelam escolhas estéticas intencionais que diferenciam Monstro: A História de Lizzie Borden dos anos anteriores. O diretor Max Winkler, que comandou seis dos oito episódios (com Sarah Adina Smith dirigindo outros dois), revelou que a temporada abandonou o tom puramente lúgubre e solene para abraçar um humor negro ácido, camp e rebelde.
Max Winkler citou como grande referência estrutural a clássica peça e filme de comédia farsesca Noises Off (de Michael Frayn). A ideia era imprimir o ritmo frenético, claustrofóbico e quase teatral de entradas e saídas de portas em uma casa vitoriana que funciona como uma panela de pressão psicológica.
Embora a trama se passe em Fall River, Massachusetts, as filmagens principais não ocorreram na residência histórica original, mas sim em estúdios e locações preservadas em Los Angeles, Califórnia, além de uma surpreendente unidade de produção que rodou sequências durante semanas em Roma, na Itália.
Crítica: uma cativante efervescência pop que flerta com a farsa e o excesso
Assistir a Monstro: A História de Lizzie Borden é adentrar um delírio estético onde o rigor histórico é intencionalmente sacrificado no altar do entretenimento provocativo. Como espectador e crítico, é impossível não se impressionar com o apuro visual da direção de arte e da fotografia: os espartilhos apertados, os tons austeros da casa dos Borden e o contraste chocante do vermelho arterial criam um pesadelo vitoriano de rara beleza gráfica.
A atuação de Ella Beatty é o verdadeiro coração da temporada. Longe de construir uma vilã caricata ou uma vítima passiva, a atriz confere a Lizzie um olhar vigilante e calculista. Cada microexpressão de Beatty ao lado de Rebecca Hall e Charlie Hunnam transborda uma tensão doméstica quase insustentável.
Contudo, a série nem sempre sabe quando desacelerar. A obsessão do roteiro de Ian Brennan em transformar lacunas históricas em escândalos explícitos — empilhando conspirações, venenos e encontros temporais improváveis — faz com que a narrativa por vezes soe mais como uma fantasia adolescente de rebeldia do que como um estudo profundo sobre a opressão feminina do século XIX. É um espetáculo visceral, divertido e incrivelmente estiloso, mas que confunde provocação com substância nas suas viradas mais extravagantes.

Final explicado de Monstro: A História de Lizzie Borden
Quem matou os Borden e qual o significado de Aileen Wuornos?
Ao contrário do caso real de 1892, que permanece juridicamente sem solução, o episódio final de Monstro: A História de Lizzie Borden (intitulado “Carnival”) recusa a ambiguidade e oferece uma resposta definitiva dentro do seu universo fictício: Lizzie Borden e a criada Bridget “Maggie” Sullivan executaram os assassinatos juntas.
Na versão da série, as duas mulheres vivem um romance secreto e enxergam no crime a única escapatória para a tirania familiar e social. A narrativa mostra Lizzie desferindo o primeiro golpe de machado contra a madrasta Abby no quarto de hóspedes, enquanto Maggie inicia o ataque mortal contra o patrão Andrew na sala. Juntas, elas queimam as roupas ensanguentadas e simulam tarefas domésticas para construir seus álibis.
Durante o julgamento, a atriz Nance O’Neil (Jessica Barden) atua como uma espécie de preparadora cênica, ensinando Lizzie a performar fraqueza e piedade cristã diante do júri. A performance funciona e Lizzie é absolvida. No entanto, a liberdade legal revela-se uma nova prisão: ostracizada pela sociedade e rompida com a irmã Emma (Billie Lourd), Lizzie compra a suntuosa mansão Maplecroft e adota o nome Lizbeth, mas permanece eternamente acorrentada ao estigma de monstra.
A grande reviravolta temática do final é o salto temporal de quase um século que insere Sarah Paulson como a serial killer Aileen Wuornos. A série mostra Aileen, no final dos anos 1980, obcecada pelo mito de Lizzie Borden e visitando a antiga casa da família. Nos momentos que antecedem sua execução na cadeira elétrica, Aileen tem uma visão de Lizzie e Maggie chamando por ela. A cena estabelece uma ponte poética e provocativa entre duas mulheres de eras distintas, questionando o tema central de toda a antologia: os monstros nascem prontos ou são moldados pela opressão do mundo ao seu redor?
Verdade x ficção: o que a Netflix alterou?
Para o leitor do Flixlândia que busca separar os fatos da dramatização, resumimos as principais licenças poéticas adotadas pela produção:
- O romance com a criada: Não existe qualquer prova histórica de que Lizzie Borden e Bridget Sullivan fossem amantes ou tivessem planejado os crimes juntas.
- A presença de Nance O’Neil no julgamento: Na vida real, Lizzie só conheceu a atriz Nance O’Neil por volta de 1904 — mais de dez anos após ser absolvida.
- A conexão com Aileen Wuornos: Trata-se de uma construção puramente temática e ficcional do roteiro. Aileen Wuornos nasceu em 1956, quase trinta anos após a morte de Lizzie Borden em 1927.
- O assassinato anterior: A série mostra Lizzie matando a vizinha Bertha Manchester antes dos pais como um “ensaio”. Na realidade histórica, Bertha foi assassinada por outra pessoa em um crime posterior sem relação com Lizzie.
Ficha técnica de Monstro: A História de Lizzie Borden
| Informações | Detalhes |
|---|---|
| Título Original | Monster: The Lizzie Borden Story |
| Título no Brasil | Monstro: A História de Lizzie Borden |
| Plataforma de Streaming | Netflix |
| Data de Estreia | 17 de setembro de 2026 |
| Número de Episódios | 8 episódios |
| Criação e Roteiro | Ryan Murphy e Ian Brennan |
| Direção | Max Winkler e Sarah Adina Smith |
| Elenco Principal | Ella Beatty, Vicky Krieps, Charlie Hunnam, Rebecca Hall, Billie Lourd, Jessica Barden, Sarah Paulson, Joey Pollari |
| Gênero | True Crime, Drama Histórico, Suspense, Gótico Satírico |
| País de Origem | Estados Unidos |
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