Há algo de profundamente incômodo na facilidade com que o cinema e a televisão transformaram a tragédia do narcotráfico em entretenimento de massa. Durante anos, chefões do crime foram retratados com mansões, carros luxuosos, frases de efeito marcantes e uma espécie de aura magnética, enquanto os policiais eram reduzidos a caricaturas ineptas, agentes corruptos ou corpos esperando pelo próximo tiroteio.
É exatamente contra essa correnteza que o diretor mexicano Chava Cartas rema em La Captura, filme de 2026 disponível na Netflix. Ao invés de entregar mais uma biografia eletrizante e glamorizada, o filme toma a decisão corajosa de dar as costas ao capo e focar a câmera em dois policiais federais comuns, exaustos e mal pagos.
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Quando os coadjuvantes viram protagonistas
Inspirado diretamente nas crônicas de investigação de Héctor de Mauleón no jornal El Universal — especificamente nos relatos Cómo atrapamos al Chapo e Veinte minutos a solas con El Chapo —, o roteiro de Bernardo Esquinca aproveita uma daquelas ironias do destino que parecem ficção barata.
Na madrugada de 8 de janeiro de 2016, após escapar de um cerco violento da Marinha mexicana em Los Mochis, Sinaloa (a célebre Operação Cisne Negro), Joaquín “El Chapo” Guzmán e seu braço direito, Jorge Iván “El Cholo” Gastélum (o Cholo Iván), fugiam pela rede de esgoto da cidade. Mas a chuva forte elevou o nível da água, forçando os criminosos a emergirem e roubarem um carro na estrada. É nessa rodovia escura que os patrulheiros Arturo Carmona (Alfonso Herrera) e seu novo parceiro Héctor Rosales (Noé Hernández) interceptam o veículo vermelho — um Ford Focus com alerta de roubo —, deparando-se de repente com o rosto molhado do homem mais procurado do planeta.
A partir daí, La Captura se fecha como um thriller psicológico de câmara. Os policiais levam os prisioneiros para um quarto de motel na beira da estrada, o Hotel & Suites Doux, e o relógio começa a correr. A grande questão do roteiro não é a caçada física, mas o confinamento moral: entregar o criminoso às autoridades e pintar um alvo nas próprias costas ou aceitar um suborno capaz de resolver a vida financeira de suas famílias para sempre?
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A tensão silenciosa de um quarto de motel
O maior trunfo de La Captura é evitar que a tensão dependa de explosões ou perseguições mirabolantes, caminhos que Chava Cartas descarta para manter o pé no realismo. O suspense mora no confinamento e no silêncio do quarto de motel. O verdadeiro combustível do drama é o dinheiro. Encurralado, El Chapo tenta comprar sua saída oferecendo inicialmente 5 milhões de pesos a cada policial, subindo a oferta para 10 e, finalmente, 15 milhões.
Para Arturo Carmona, que enfrenta dívidas sufocantes e acabou de descobrir que a esposa, Isaura (Paola Fernández), está grávida do terceiro filho, recusar essa montanha de dinheiro é uma decisão quase irracional. Alfonso Herrera constrói seu personagem com uma seriedade contida, transmitindo uma tensão física constante, como se pudesse quebrar sob a pressão a qualquer segundo.
Noé Hernández, na pele do veterano e pragmático Héctor Rosales, é o contraponto perfeito. A desconfiança mútua no início da parceria e o medo de uma traição sustentam a narrativa, deixando quem assiste constantemente com a pulga atrás da orelha.

Um El Chapo humano e em decadência
Se há um motivo isolado para dar o play na produção, ele atende pelo nome de Héctor Kotsifakis. O ator foge da óbvia caricatura do “supervilão” intocável. Após uma pesquisa meticulosa que incluiu ouvir gravações reais do traficante, Kotsifakis apresenta um El Chapo cauteloso, inteligente, mas visivelmente envelhecido e em decadência, consciente das disputas internas que já enfraqueciam seu próprio cartel. Ele não precisa gritar para dominar o quarto; joga com sussurros, promessas de riqueza e ameaças veladas de morte contra as famílias dos agentes. Em certos momentos, a máscara de prepotência cai, revelando apenas um homem desesperado para sobreviver.
Entre a reverência e o tédio
Apesar das boas intenções, La Captura derrapa no ritmo e na pressa de estabelecer seus protagonistas como homens moralmente imaculados. Ao apressar a amizade inquebrável entre os dois federais, o diretor elimina grande parte da paranoia de uma “punhalada nas costas”, simplificando um jogo moral que poderia ser muito mais cinzento e arrastado.
Quem der o play esperando o ritmo frenético de Narcos ou os tiroteios de Sicario: Dia de Soldado vai achar o filme excessivamente contido e pequeno. A opção por uma narrativa intimista é válida, mas restringe o escopo dramático da produção.
Fatos x ficção
Como o desfecho histórico é de conhecimento geral — culminando na extradição de Joaquín Guzmán para os Estados Unidos em janeiro de 2017 e na sua condenação à prisão perpétua em 2019 —, o suspense nunca esteve na pergunta sobre quem terminaria algemado. A inteligência do filme é focar no desgaste psicológico daqueles homens.
Na vida real, a imprensa mexicana mencionou propinas astronômicas que teriam chegado a 50 milhões de dólares. Como os policiais reais permanecem com identidades protegidas por segurança, o roteiro preenche os vazios com “invenções informadas” muito bem-vindas. O final de La Captura não traz um sentimento de glória ou triunfo heroico. O que resta é o cansaço profundo de dois agentes que escolheram manter a integridade, cientes do preço amargo e perigoso que a honestidade costuma cobrar no México.
La Captura vale o play na Netflix?
Mesmo com um início lento e um desenvolvimento que às vezes se apoia demais em convenções previsíveis, La Captura se destaca no catálogo da Netflix por sua sensibilidade moral.
Ao focar na desconfiança psicológica e na recusa honesta de dois homens comuns, o longa consegue transformar uma conhecida prisão de cartel em um drama humano envolvente. É um suspense eficiente que mostra que, às vezes, o maior ato de heroísmo consiste apenas em não se vender.
Ficha técnica de La Captura
- Título original: La Captura (Lançado internacionalmente como Facing El Chapo)
- Direção: Chava Cartas
- Roteiro: Bernardo Esquinca (baseado na crônica jornalística de Héctor de Mauleón no jornal El Universal)
- Ano de lançamento: 2026
- Duração: 91 minutos
- Gênero: Drama / Policial / Suspense
- Países de Origem: México
- Produtora: Draco Films
- Distribuição: Netflix
- Elenco Principal:
- Alfonso Herrera como Arturo Carmona
- Noé Hernández como Héctor Rosales
- Héctor Kotsifakis como Joaquín “El Chapo” Guzmán
- Paola Fernández como Isaura
- Juan Pablo Cruz García como Jorge Iván “El Cholo” Gastélum (o Cholo Iván)
















