No filme “Quase o Paraíso” (Casi el Paraíso), Edgar San Juan entrega sua estreia como diretor em grande estilo, adaptando o best-seller homônimo de Luis Spota para os dias atuais.
O longa-metragem é uma sátira ambiciosa que explora as nuances da política, do capitalismo e da idolatria aos títulos nobiliárquicos em uma sociedade onde o poder e a aparência comandam.
Ambientada entre México e Itália, a narrativa se desenvolve com charme, mas enfrenta desafios ao encontrar seu tom e equilíbrio entre crítica social e entretenimento.
Ugo Conti (Andrea Arcangeli) é um conde italiano que, ao fugir de um relacionamento conturbado, encontra refúgio no México. Lá, cruza caminhos com Alonso Rondia (Miguel Rodarte), um político corrupto determinado a limpar sua imagem pública para alcançar a governadoria de Oaxaca.
Conti, por sua vez, vê na relação com Rondia uma oportunidade para continuar vivendo no luxo, enquanto o político o usa como fachada para seus esquemas.
Em meio a jogos de poder, interesses pessoais e segredos do passado, a trama costura intrigas políticas e emocionais, tendo como pano de fundo as redes sociais e os conflitos entre aparências e realidades.
San Juan utiliza a obra de Spota como uma lente para abordar questões contemporâneas, como a obsessão pela aparência nas redes sociais, a corrupção sistêmica e o enaltecimento de figuras estrangeiras.
A atualização do texto para o século XXI é um dos pontos altos do filme, integrando elementos modernos como o papel dos influencers e a banalização da fama.
No entanto, apesar de sua execução técnica impecável – com destaque para a fotografia de Alejandro Cantú, que capta com maestria a grandiosidade dos cenários italianos e mexicanos –, o filme encontra dificuldades em equilibrar sátira e melodrama.
Entre a comédia e a crítica
Enquanto a história situada na Itália mantém um tom mais dramático, as cenas mexicanas oscilam entre a comédia caricatural e a crítica social.
Karol Sevilla, no papel da filha de Rondia, é um exemplo dessa dicotomia: sua atuação exagerada contrasta com a seriedade de cenas mais densas, gerando um descompasso tonal que enfraquece o impacto da narrativa. Ainda assim, o elenco liderado por Arcangeli e Rodarte sustenta a trama com interpretações competentes e magnéticas.
Roteiro com ótimos momentos
O roteiro, assinado por San Juan, Hipatia Argüero e Juan Curi, oferece momentos de brilhantismo, especialmente ao explorar a dinâmica entre Rondia e Conti. A relação entre os dois personagens reflete um jogo de poder onde ambos acreditam estar no controle, mas são constantemente desafiados por reviravoltas inesperadas.
Além disso, a crítica ao classismo e à pigmentocracia é apresentada de forma contundente, embora em alguns momentos o filme pareça hesitar em ser mais incisivo.
Outro destaque é o uso da música, que transita organicamente entre o reggaeton e o pop, criando uma trilha sonora que dialoga com os temas contemporâneos abordados. A canção original interpretada por Karol Sevilla reforça o caráter comercial da produção, sem comprometer sua essência artística.
“Quase o Paraíso” se destaca pela qualidade técnica e pela ambição de suas propostas. Apesar das limitações em sua crítica à elite política e econômica, o filme é uma adaptação competente que consegue entreter e provocar reflexões sobre temas relevantes.
Navegando nas águas do marketing digital, na gestão de mídias pagas e de conteúdo. Já escrevi críticas de filmes, séries, shows, peças de teatro para o sites Blah Cultural e Ultraverso. Agora, estou aqui em um novo projeto no site Flixlândia.