Som da Liberdade Sound of Freedom crítica do filme Prime Video 2023

‘Som da Liberdade’, um filme-denúncia que não funciona

Foto: Angel Studios/Divulgação
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“Som da Liberdade” (Sound of Freedom), que chega nesta quarta-feira (24) ao catálogo do Prime Video, foi, sem dúvida, o filme mais polêmico de 2023. Não tanto pela relevante temática da obra, mas pela disputa ideológica que o longa-metragem estrelado por Jim Caviezel provocou, já que teve campanha da extrema-direita para divulgar a produção, enquanto o campo da esquerda apontou para as acusações de assédio sexual contra Tim Ballard, o “herói” retratado na história, justamente nas operações para resgatar vítimas de tráfico sexual.

Segundo as denúncias reveladas pela publicação, Ballard teria coagido diferentes mulheres a agirem como se fossem suas esposas em missões secretas no exterior, destinadas a princípio a resgatar vítimas de tráfico sexual. De acordo com as supostas vítimas, ele as convencia a compartilharem a cama ou tomarem banhos juntos, para, nas palavras dele, enganar os traficantes.

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Sinopse do filme Som da Liberdade

“Som da Liberdade” conta a história de Tim Ballard (Caviezel), um ex-agente federal que embarca em uma perigosa missão na Colômbia para salvar uma menina de cruéis traficantes de crianças. Ele viajará pelas profundezas da selva colombiana, colocando sua vida em risco para libertá-la.

Conheça as polêmicas de Som da Liberdade

Som da Liberdade é uma história real?

A primeira polêmica envolvendo o filme foi antes de seu lançamento. Isso porque “Som da Liberdade”, de fato, retrata um personagem real: Tim Ballard foi agente da Homeland, que fundou a Operation Underground Railroad (OUR), organização sem fins lucrativos anti-tráfico sexual, que existe de verdade. Porém, uma investigação feita pela VICE News, em 2020, por exemplo, apontou a dificuldade em comprovar as façanhas da entidade.

Segundo o artigo, “Ballard disse repetidamente que a OUR desempenhou um papel central em um grande caso de combate ao tráfico humano no estado de Nova York e insinuou que ajudou a resgatar uma vítima desse caso, quando, na realidade, de acordo com transcrições judiciais e outros registros analisados pela VICE World News, a vítima corajosamente escapou do seu traficante por conta própria”.

Além disso, o enredo, que envolve o sequestro de dois irmãos atraídos para uma sessão de fotos em Honduras e de lá são raptados, é pura ficção, ainda que os créditos de abertura do filme digam o contrário. Conforme apuração dos jornalistas investigativos do American Crime Journal, Ballard exagerou bastante na história mostrada no cinema. O próprio ex-agente admitiu em entrevista ao canal The Victory Channel. “Algumas coisas são definitivamente exageradas. [Jim Caviezel] me faz parecer muito mais legal do que sou, por exemplo. Mas algumas coisas foram subnotificadas, como o fato de não termos resgatado 54 crianças na operação na ilha [retratada no filme].”

Distribuição ‘cancelada’ pela Disney

Originalmente programado para ser distribuído pela 20th Century Fox, o filme se viu sem perspectiva de lançamento após a compra do estúdio pela Disney em 2019, que não tinha interesse na obra – assim como muitas outras pertencentes à nova aquisição. Vista como uma empresa progressista pelos conservadores, começou-se a circular a lenda de que “Som da Liberdade” seria o filme que “a grande mídia não quer que você veja”. Com o acordo cancelado, os produtores compraram novamente os direitos através da Angel Studios, especializada em produções pequenas.

Mensagem do QAnon

Além dessa contestação sobre a história ser real ou não, “Som da Liberdade” também é visto como um veículo para teóricos da conspiração e apoiadores da QAnon, uma teoria da conspiração de extrema-direita que afirma que existe uma elite global, formada por adoradores de Satanás, canibais e pedófilos, que sequestra crianças para beber seu sangue.

O QAnon foi responsável pelo Ataque ao Capitólio em 2021, por também acreditarem que essa mesma rede de tráfico sexual de crianças estava conspirando contra o Donald Trump durante o seu mandato como presidente dos Estados Unidos. O próprio empresário e ex-presidente teria realizado uma exibição especial do filme para seus apoiadores.

Finalizando a polêmica com o QAnon, Jim Caviezel, protagonista do filme, tem ligação com o grupo. Em 2021, o ator viralizou durante um discurso na For God & Country: Patriot Double Down, evento ligado à teoria, endossando sua filiação aos apoiadores e e às ideias associadas aos conspiracionistas.

Distribuição gratuita de ingressos

Outra polêmica envolvendo “Som da Liberdade” foi a bilheteria do filme. Muito do sucesso da obra dirigida por Alejandro Monteverde se deu em virtude da distribuição de ingressos gratuitos. Uma das campanhas de fornecimento foi promovida pela Lumine, uma plataforma católica de filmes e séries, em parceria com a 360 WayUp. O site Brasil Paralelo, outro organismo conservador, também ofereceu entradas para quem assinasse o serviço. Até a Angel Studios, produtora independente do longa-metragem, deu convites de graça.

O caso lembrou bastante o sucesso camuflado de “Nada a Perder” (2018), cinebiografia do bispo Edir Macedo, dono da Rede Record de Televisão e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, que, à época, se tornou a maior bilheteria do cinema brasileiro com 11,9 milhões de ingressos vendidos e cerca de R$ 120 milhões arrecadados. O longa-metragem retratando o religioso só deixou o posto no ano seguinte, quando estreou “Minha Mãe É Uma Peça 3”, do saudoso comediante Paulo Gustavo, que vendeu 11,3 milhões de entradas, mas obteve uma arrecadação de R$ 143,9 milhões.

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Afinal, Som da Liberdade é bom?

“Som da Liberdade” tenta equilibrar a necessidade de retratar um assunto tão sombrio e perturbador com a necessidade de entreter e envolver o público. No entanto, o filme parece lutar o tempo todo com esse equilíbrio. Embora a história seja convincente, o longa-metragem, muitas vezes, sucumbe ao melodrama, o que é desnecessário, pois o assunto por si só já é suficiente para isso.

Apesar da atuação segura de Jim Caviezel como Tim Ballard, o roteiro não lhe dá muito com o que trabalhar. A trama é muitas vezes truncada e os personagens são muito mal desenvolvidos. Além disso, a narrativa é arrastada, com cenas maçantes com seguidas situações anticlimáticas recheadas de diálogos rasos e clichês

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Conclusão

No que tange à questão técnica, “Som da Liberdade” deixa bastante a desejar, ancorando-se apenas na boa atuação de Caviezel. Quanto a ser tratado como um filme-denúncia, o longa-metragem entrega o que deseja, mas sem passar a credibilidade que o tema merecia. Afinal, o que vemos na tela é apenas inspirado em fatos, ficando mais perto de uma fantasia do que de uma história verdadeiramente real. Mas cada um acredita no que quiser.

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Onde assistir ao filme Som da Liberdade (2023)?

O filme “Som da Liberdade” estreou nesta quarta-feira, dia 24 de janeiro de 2024, no catálogo do Prime Video.

Trailer do filme Som da Liberdade (2023)

YouTube player

Som da Liberdade: elenco do filme (2023)

  • Liam Neeson
  • Katheryn Winnick
  • Teresa Ruiz
  • Juan Pablo Raba
  • Jacob Perez
  • Harry Maldonado
  • Alfredo Quiroz
  • Sean A. Rosales

Ficha técnica do filme Som da Liberdade (2023)

  • Título original do filme: Sound of Freedom
  • Direção: Alejandro Monteverde
  • Roteiro: Rod Barr, Alejandro Monteverde
  • Gênero: policial, drama
  • País: Estados Unidos, México
  • Ano: 2023
  • Duração: 130 minutos
  • Classificação: 14 anos
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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