A primeira temporada de Treta (Beef) foi um verdadeiro fenômeno, capturando a essência da raiva reprimida através de uma briga de trânsito que saiu totalmente do controle. O desafio de criar uma continuação à altura parecia quase impossível, mas o criador Lee Sung Jin decidiu abraçar o formato antológico e mudar as regras do jogo. Sai a guerra declarada e entra uma violência muito mais silenciosa, manipuladora e focada na conveniência econômica.
Com um novo elenco de peso liderado por Oscar Isaac, Carey Mulligan, Charles Melton e Cailee Spaeny, a segunda temporada nos entrega uma história sombria, muitas vezes hilária e profundamente cínica sobre até onde as pessoas vão para manter as aparências e sobreviver no capitalismo moderno.
Sinopse
A trama agora nos leva para o luxuoso Monte Vista Point, um clube de campo na Califórnia. De um lado, temos Josh (Isaac), o gerente do clube, e sua esposa Lindsay (Mulligan), uma designer de interiores. Eles vivem de aparências, cercados pela elite, mas estão secretamente afogados em problemas financeiros e presos em um casamento falido e cheio de ressentimentos. Do outro lado, na base da pirâmide alimentar do clube, estão os jovens noivos Ashley (Spaeny) e Austin (Melton), funcionários mal pagos e cheios de dívidas.
Tudo sai dos trilhos quando o jovem casal flagra e grava uma briga violenta entre Josh e Lindsay. Vendo a chance de ouro para se dar bem na vida e pagar suas contas médicas, Ashley e Austin decidem chantagear os chefes por cargos melhores e dinheiro.
A situação, que já era um barril de pólvora, explode de vez com a chegada da nova dona do clube, a bilionária coreana Sra. Park (Youn Yuh-jung), que traz na bagagem seus próprios segredos obscuros envolvendo o marido, o Dr. Kim (Song Kang-ho), e arrasta todos para uma teia perigosa de corrupção, fraudes e até sequestro na Coreia do Sul.
Crítica da temporada 2 de Treta
O veneno do capitalismo e o choque de gerações
O grande trunfo desta temporada é como ela usa a extorsão para fazer um raio-x das diferenças de classe e de geração. É fascinante e irritante ver o contraste entre as justificativas de cada casal. Enquanto os millennials Josh e Lindsay se apegam desesperadamente ao status e ao sonho de abrir uma pousada de luxo, a Geração Z representada por Ashley e Austin usa a linguagem da terapia e da “superioridade moral” da internet para disfarçar o próprio egoísmo.
A série não poupa ninguém, apontando o dedo para o desespero financeiro do final do capitalismo, algo muito influenciado pelo cinema sul-coreano (lembrando obras como Parasita). Essa obsessão por “querer mais” é brilhantemente ilustrada com metáforas visuais de infestação, com formigas e abelhas aparecendo em cena para mostrar como os personagens operam como insetos trabalhadores servindo aos caprichos dos ultrarricos.

Atuações brilhantes em um mar de gente horrível
Se o roteiro tira o nosso chão, o elenco é o que nos mantém grudados na tela. Oscar Isaac e Carey Mulligan entregam atuações avassaladoras. Isaac traz uma energia aterrorizante e patológica ao gerente bajulador que odeia a própria vida, enquanto Mulligan destila uma crueldade ácida, misturada com uma fragilidade que dói de assistir. A química tóxica entre os dois é o coração apodrecido da temporada.
Mas a grande surpresa é o casal mais jovem. Cailee Spaeny está fantasticamente insuportável; ela encarna a Geração Z com um nível de exigência que te dá vontade de mutar a TV, o que mostra o quão bem ela entendeu a personagem. Charles Melton não fica atrás, indo de um “cachorrinho” fofo que só quer agradar a alguém incrivelmente calculista. E, claro, a presença silenciosa e ameaçadora da atriz Youn Yuh-jung eleva qualquer cena em que ela aparece.
Ritmo, misantropia e os deslizes da temporada
Apesar de genial, a série tropeça na própria ambição. Com temas tão pesados e a escalada da trama até a Coreia do Sul, o ritmo sofre. Por volta do quarto episódio, a narrativa dá uma barrigada e toma rumos absurdos. O texto às vezes força a barra no humor, como em uma piada sobre o Letterboxd feita por Ashley que simplesmente não condiz com a falta de educação formal da personagem, soando mais como o roteirista falando do que ela.
Além disso, a misantropia da série é tão extrema que fica difícil torcer por qualquer um ali. Todos são cruéis e mesquinhos. Quando a história foca nas bizarrices corporativas e nos figurões do clube (que rendem comparações inevitáveis com The White Lotus), a série perde um pouco da força íntima que tinha na primeira temporada. E um aviso aos amantes de animais: a série cruza uma linha perturbadora e gráfica envolvendo o cachorrinho Burberry, que pode ser difícil de engolir.
Conclusão
A segunda temporada de Treta pode não ter aquele fator surpresa da primeira, mas consegue provar que o formato antológico tem lenha para queimar. É um estudo sombrio, estressante e absurdamente envolvente sobre como a falta de dinheiro e a inveja corroem as pessoas.
O amargo salto no tempo de oito anos no final da série amarra a moral da história de forma devastadora: ao tomar o lugar de seus antigos chefes, Austin e Ashley se tornam exatamente as mesmas pessoas ressentidas e vazias que eles chantagearam no passado.
É um lembrete incômodo de que, no jogo de poder, os rostos podem mudar, mas a treta… essa nunca acaba. Se você tem estômago para o caos e para encarar o pior da natureza humana, essa temporada é um prato cheio.
Onde assistir à série Treta?
Trailer da temporada 2 da série Treta
Elenco da 2ª temporada de Treta, da Netflix
- Oscar Isaac
- Carey Mulligan
- Charles Melton
- Cailee Spaeny
- Youn Yuh-jung
- Seoyeon Jang
- William Fichtner
- Song Kang-ho
- Mikaela Hoover
- BM
















