Existem filmes que terminam sua primeira história e existem filmes que continuam vivendo depois dos créditos. Da Magia à Sedução, lançado em 1998, pertence à segunda categoria. A produção não foi imediatamente celebrada, mas encontrou uma segunda vida ao longo dos anos, transformando a casa das irmãs Owens, suas receitas, seus feitiços e, principalmente, sua relação de irmandade em elementos reconhecíveis de uma geração. Quase trinta anos depois, Da Magia à Sedução 2: Feitiço de Amor retorna a esse universo diante de um desafio que nenhuma poção consegue resolver: como reencontrar algo que o público ama sem transformar o reencontro em uma simples repetição?
A resposta do novo filme é curiosa. Em vez de tentar reproduzir exatamente o espírito do longa original, Susanne Bier constrói uma história sobre personagens que inevitavelmente mudaram. Sally e Gillian não são mais as mulheres que conhecemos no final dos anos 1990, e suas decisões agora são atravessadas pelo tempo, pelas perdas e pela responsabilidade de uma nova geração. O filme entende que nostalgia não significa congelar os personagens na juventude. Ao mesmo tempo, essa tentativa de atualizar a história revela uma dificuldade: quanto mais a continuação tenta justificar sua existência, mais ela se distancia daquela espontaneidade que tornou o primeiro filme tão particular.
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Uma família tentando desfazer o próprio passado
A trama começa a partir de uma tentativa aparentemente simples de Sally: proteger as filhas daquilo que considera uma herança perigosa. Depois das experiências que marcaram sua vida, ela decide esconder das meninas a existência da magia e, consequentemente, parte da história da família Owens. A estratégia funciona apenas enquanto ninguém faz perguntas. Quando Kylie se envolve emocionalmente com um rapaz e acontecimentos estranhos começam a cercar esse relacionamento, o segredo familiar deixa de ser sustentável.
Kylie passa então a investigar uma história que deveria ter permanecido enterrada. A descoberta conduz a jovem de volta às raízes mágicas da família e coloca Sally diante de uma escolha que ela acreditava ter evitado: ensinar às filhas aquilo que passou tanto tempo tentando esconder. Gillian, naturalmente, encara o problema de outra maneira e ajuda a reabrir uma porta que Sally havia fechado. O conflito deixa de ser apenas a tentativa de quebrar uma maldição e passa a envolver algo mais humano: até que ponto uma mãe pode decidir o que seus filhos devem ou não saber sobre suas próprias origens?
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O peso de quase 30 anos
O grande trunfo do filme está em Sandra Bullock e Nicole Kidman. Não porque elas simplesmente reproduzam a parceria de 1998, mas porque o tempo acrescenta uma camada que não poderia existir no primeiro filme. Sally e Gillian agora carregam décadas de história, e isso aparece na maneira como Bullock e Kidman ocupam os mesmos personagens. Há familiaridade nos gestos, nas provocações e nos silêncios, mas também a sensação de que essas duas mulheres passaram por coisas que não precisamos necessariamente testemunhar para compreender.
Essa passagem do tempo também dá ao retorno das atrizes um significado que ultrapassa a história. Bullock e Kidman envelheceram junto com suas personagens, e o filme não tenta transformar isso em um problema narrativo que precise ser escondido. Pelo contrário: a idade das protagonistas faz parte da experiência de reencontro.
É interessante perceber como Hollywood, durante décadas, tratou o envelhecimento de suas atrizes como algo que deveria ser disfarçado, enquanto aqui ele se torna parte da identidade de uma franquia construída justamente em torno de mulheres. O retorno das duas, portanto, é quase tão importante fora da tela quanto dentro dela. Essa dimensão também aparece nas análises internacionais sobre o filme e sua relação com o envelhecimento feminino em Hollywood.

Nova geração ainda procura seu lugar
Se Sally e Gillian chegam ao novo filme carregadas de memória, Kylie e Antonia têm a tarefa oposta: precisam construir uma identidade própria. É justamente aí que a continuação encontra sua maior dificuldade. A ideia de transferir o protagonismo gradualmente para uma geração mais jovem é coerente com uma história sobre herança, mas o roteiro nem sempre consegue fazer com que essas novas personagens tenham o mesmo magnetismo das antigas protagonistas.
Joey King consegue dar personalidade a Kylie e funciona como o motor da aventura, enquanto Maisie Williams recebe uma personagem com potencial, mas que poderia ter sido melhor explorada. A relação entre as duas também não possui imediatamente a força necessária para sustentar o conceito de uma nova geração de Owens. Isso cria um contraste curioso: o filme quer falar sobre continuidade, mas justamente aquilo que deveria representar o futuro da família ainda parece depender demais do passado. As críticas internacionais também apontaram esse desequilíbrio entre a força das protagonistas originais e o desenvolvimento das personagens mais novas.
Quando a nostalgia vira cenário
Uma das coisas mais interessantes da produção é a maneira como ela utiliza a memória do primeiro filme. A casa das Owens continua sendo praticamente uma personagem, e sua reconstrução foi tratada com enorme atenção visual, recuperando elementos arquitetônicos e decorativos do longa original. Mas existe uma diferença importante entre recriar um cenário e recuperar uma atmosfera. Da Magia à Sedução 2 consegue muito bem fazer o espectador reconhecer aquele universo; nem sempre consegue fazê-lo sentir exatamente o que sentia em 1998.
Isso acontece porque a nostalgia é uma ferramenta poderosa, mas também perigosa. Repetir determinados símbolos — a casa, as receitas, os objetos, as referências musicais e os reencontros — imediatamente provoca reconhecimento. Só que reconhecimento não é necessariamente emoção. Em alguns momentos, o filme parece mais interessado em lembrar ao público que ele está assistindo a Da Magia à Sedução do que em criar novas imagens capazes de se tornar memoráveis por conta própria. A trilha, que recupera a presença de Stevie Nicks e acrescenta nomes contemporâneos, ajuda a construir essa ponte entre épocas, mas também evidencia o quanto o filme depende da memória afetiva do espectador.
A maldição é maior do que parece
O conceito da maldição familiar poderia facilmente transformar o filme em uma simples história de caça ao feitiço. Felizmente, existe uma leitura mais interessante escondida nessa premissa. A maldição representa uma espécie de destino imposto às mulheres Owens: uma história que elas recebem antes mesmo de poderem decidir se querem carregá-la. Sally tenta combater isso através do silêncio; Kylie faz o movimento contrário e procura respostas. São duas maneiras diferentes de reagir ao mesmo legado.
Nesse sentido, o filme funciona melhor quando fala sobre herança do que quando fala sobre magia. O sobrenatural oferece a mecânica da narrativa, mas o verdadeiro conflito está naquilo que uma geração transmite para a outra — medos, traumas, crenças e expectativas. A pergunta mais interessante não é simplesmente como acabar com o feitiço, mas se é possível romper com uma história familiar sem negar aquilo que veio antes. É também por isso que o romance ocupa um espaço menos determinante do que poderia sugerir o próprio título: a questão central não é encontrar alguém para amar, mas decidir que tipo de pessoa se quer ser antes, durante e depois desse amor.
Não precisa ser perfeito
É impossível assistir à Da Magia à Sedução 2 sem compará-lo ao original. E essa comparação nem sempre é favorável. O primeiro filme tinha uma estranheza muito própria, misturando humor, romance, melodrama e fantasia de uma maneira que inicialmente pareceu irregular, mas que acabou justamente se tornando parte de seu charme. A sequência é mais consciente de sua própria identidade e, por isso, em determinados momentos parece menos espontânea. Algumas críticas apontaram exatamente essa diferença de tom, considerando que o novo filme é mais sombrio e menos divertido do que o anterior.
Ainda assim, seria injusto avaliar a continuação apenas pela capacidade de reproduzir o encanto de 1998. Da Magia à Sedução 2 é um filme sobre personagens que sobreviveram ao próprio passado. Ele não precisa ser tão estranho quanto o original, porque está interessado em outra fase da vida dessas mulheres. Seus maiores problemas surgem quando tenta acelerar a narrativa ou colocar personagens secundários em conflitos que não recebem tempo suficiente para amadurecer. Quando simplesmente permite que Bullock e Kidman sejam Sally e Gillian novamente, o filme encontra sua melhor versão.
As histórias continuam. E tudo bem
Da Magia à Sedução 2: Feitiço de Amor não é uma tentativa de apagar os quase 30 anos que separam os dois filmes — e ainda bem. Sua existência faz mais sentido justamente porque reconhece que o tempo passou. Sally, Gillian e a família Owens não poderiam permanecer exatamente iguais, assim como o público que se apaixonou pelo primeiro filme também mudou. A continuação talvez não consiga reproduzir a combinação peculiar que transformou o original em clássico cult, mas encontra valor ao discutir o que significa carregar uma história familiar e decidir o que merece ser preservado e o que precisa ser deixado para trás.
No fim, o verdadeiro feitiço de Da Magia à Sedução nunca esteve nos encantamentos. Estava na sensação de pertencimento criada por aquelas mulheres, naquela casa e naquela família imperfeita. A sequência consegue recuperar parte dessa sensação, principalmente graças à presença de Sandra Bullock e Nicole Kidman, mas também revela que nostalgia, sozinha, não produz magia. Para funcionar de verdade, é preciso acrescentar algo novo à lembrança. Da Magia à Sedução 2 chega perto disso — e talvez seu maior mérito seja justamente não tentar convencer o público de que o passado pode voltar. Ele mostra que algumas histórias podem continuar mesmo depois que o tempo passa.
Ficha técnica
| Informação | Detalhes |
| Título Original / Oficial | Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2) |
| Direção | Susanne Bier |
| Roteiro | Akiva Goldsman, Georgia Pritchett e Kelly Marcel |
| Baseado em | Romance “O Livro de Magia” (The Book of Magic), de Alice Hoffman |
| Elenco Principal | Sandra Bullock (Sally Owens), Nicole Kidman (Gillian Owens), Joey King (Kylie), Maisie Williams (Antonia), Lee Pace, Xolo Maridueña, Solly McLeod, Dianne Wiest (Tia Jet) e Stockard Channing (Tia Frances) |
| Produção | Denise Di Novi, Sandra Bullock e Nicole Kidman |
| Produção Executiva | Donald Sabourin, Andrew Kosove e Broderick Johnson |
| Trilha Sonora | Inclui canções de Stevie Nicks e artistas contemporâneos |
| Gênero | Fantasia / Drama / Romance / Comédia |
| Universo / Precedente | Continuação direta de Da Magia à Sedução (1998) |














